Em entrevista à Focus Brasil, Jamil Chade avalia o papel da diplomacia, da ONU e do governo Lula diante da instabilidade internacional

“Blindar a democracia virou prioridade da política externa brasileira”, analisa Jamil Chade
Foto: Cadu Pinotti/Agência Brasil

Falando diretamente de Genebra, cidade que concentra organismos multilaterais centrais e onde se travam disputas decisivas sobre a ordem internacional, o jornalista Jamil Chade analisa o momento em que a política externa brasileira deixa de ser apenas um instrumento de inserção internacional e passa a operar como linha de defesa da própria democracia nacional.

“O objetivo da política externa brasileira hoje não é conquistar novos mercados ou buscar estabilização no Oriente Médio. O objetivo é proteger a democracia brasileira”, afirma o jornalista, que cobre a ONU em Genebra como correspondente brasileiro há mais de duas décadas.

Para Chade, essa estratégia responde a um cenário de risco concreto de ingerência externa, impulsionado pela reorganização da extrema-direita global, pela atuação de grandes empresas de tecnologia e pela instabilidade institucional nos Estados Unidos.

Diplomacia, Lula e a blindagem democrática

Ao comentar as movimentações do Itamaraty e do Palácio do Planalto, Chade sustenta que o terceiro governo de Lula identificou na diplomacia uma forma de blindagem preventiva diante das eleições de 2026.

“A proteção de um país como o Brasil é o direito internacional, é a ONU”, afirmou, ao explicar por que o governo brasileiro tem investido no diálogo com líderes globais e na defesa do multilateralismo como mecanismo de contenção.

Ao analisar a proposta de Donald Trump de criar uma espécie de “ONU paralela”, Chade observa que o gesto foi interpretado pelo governo brasileiro como um sinal de alerta estratégico.

“O governo Lula percebeu isso como um gatilho para provocar um debate internacional”, afirma, destacando que países sem poder militar equivalente às grandes potências dependem das regras multilaterais para preservar sua soberania e suas instituições democráticas.

Como você avalia a proposta de Donald Trump de criar uma espécie de “ONU paralela” e a recepção internacional dessa iniciativa?

Olha, é um projeto que, apesar de ser estapafúrdio, absolutamente incoerente com os princípios da ONU e do direito internacional, exige que a gente preste muita atenção ao fato em si: a maior superpotência militar do mundo propor uma alternativa à ONU. Ela é um absurdo, não tem, basicamente, qualquer legitimidade, mas a ação do Donald Trump de propor uma instituição fora da ONU, que possa substituir alguns dos elementos centrais da ONU, é algo que preocupa e deveria preocupar todos nós.

Porque, de fato, o que é esse Conselho da Paz? É, basicamente, uma tentativa do Donald Trump de criar uma ONU para chamar de sua. Se você pegar o estatuto desse Conselho da Paz e a primeira resolução que foi publicada justamente nesta semana, a gente descobre que é o governo americano impondo, com a sua força – e não com sua legitimidade nem com sua liderança –, uma nova realidade internacional. Ele impõe com o seu domínio e com seus militares.

Então, é um fato que choca, porque nós não estávamos acostumados a ver uma superpotência propondo uma alternativa às Nações Unidas. Ao mesmo tempo, é absolutamente incoerente com os objetivos que a gente imaginava que norteariam o mundo ao longo de décadas, mas, insisto: o fato de ela ter sido proposta, de ter sido fundada de fato, é algo que deve exigir uma reflexão.

O governo brasileiro está fazendo essa reflexão e entendeu que, apesar de provavelmente dizer não – como já disse, de forma muito diplomática –, o fato de essa instituição existir é algo que o governo Lula percebeu como um gatilho para provocar um debate internacional. Qual é esse debate?

Primeiro: que ordem internacional é essa que está sendo criada? Segundo: nós, países médios, sem bombas nucleares, sem um exército capaz de enfrentar de igual para igual as superpotências, qual será a nossa proteção? A proteção de um país como o Brasil é o direito internacional, é a ONU. Então, não é por acaso que, nos últimos dias, o presidente Lula tem falado com líderes do mundo inteiro justamente nesse sentido: “Olha, já que estão querendo refundar, ou fundar, uma nova ordem internacional, que tal voltarmos para a ONU e refutar a própria ONU?”.

Então, esse é o contexto, e é muito, muito importante a gente ficar atento ao que isso tudo significa.

Essa radicalização interna e externa de Donald Trump e a reação democrata está diretamente conectada às eleições de meio de mandato?

Sem dúvida, sem dúvida. Toda operação hoje, interna ou externa, é pensada, sim, na eleição de meio de mandato, na eleição legislativa. Por exemplo, inclusive na América Latina – na Venezuela, em Cuba, eventualmente – é também para reconquistar o voto latino, que tinha sido perdido em parte por conta das deportações. Vamos lembrar o que acontece na eleição de 2024. O homem latino – não o voto latino em geral, porque as mulheres latinas continuaram votando democrata – pela primeira vez vota em mais de 50% em Donald Trump. Isso é uma mudança muito importante.

O que aconteceu nos meses seguintes? Com as deportações e com toda a crise migratória, esse apoio entre os imigrantes latinos despencou, absolutamente despencou. Caiu muito mais do que a média da popularidade do Donald Trump nos Estados Unidos. Agora, se ele faz uma operação contra a Venezuela, contra Cuba etc., ele sabe que também está falando com aqueles latinos que são contra Fidel Castro, contra Nicolás Maduro, contra Hugo Chávez.

Ele está apelando para isso também. Todas as ações hoje nos Estados Unidos são construídas pensando, sim, na eleição. Porque essa eleição é fundamental. Ela é fundamental para os democratas, porque, se os democratas perdem, basicamente se abre uma avenida gigantesca para que Donald Trump possa fazer o que ele quiser, zero freios, pelos próximos dois anos. Isso é certo. Mas é uma eleição fundamental também para os republicanos. Porque, se eles, de alguma forma, perdem o controle do Senado e da Câmara dos Deputados, nós vamos ver, sim, um choque entre o Poder Executivo e o Poder Legislativo.

E é isso que eu quero acompanhar bem de perto, para tentar entender qual será a reação do Executivo. Será que o Executivo vai, de fato, aceitar o que o Congresso disser? Ou vai desmontar, basicamente, a legitimidade do Congresso americano? Se isso acontecer, será a primeira vez, sem dúvida, na experiência democrática americana. Mas tudo indica que Donald Trump não vai simplesmente aceitar uma derrota, aceitar perder poder, aceitar dividir poder com os democratas.

Então, é uma eleição muito, muito fundamental, talvez tão fundamental quanto a própria eleição do Donald Trump. Eu acho, sinceramente, que o único elemento que pode desmontar a democracia ou o processo eleitoral nos Estados Unidos é uma situação interna nos Estados Unidos.

Eu não acho que situações fora dos Estados Unidos possam cancelar ou não uma eleição doméstica lá. Por quê? Porque, ao longo da história americana, já tivemos um número impressionante de conflitos armados ou ataques extraterritoriais por parte dos Estados Unidos que nunca afetaram o processo eleitoral doméstico no sentido de cancelá-lo.

Eles afetaram no sentido de, talvez, dar popularidade para aquele presidente ou para aquele governo – “olha, estamos em guerra no exterior, precisamos de apoio, precisamos continuar” etc. Esses conflitos no exterior servem como uma forma de mobilização, mas não para cancelar eleições. Agora, o que me preocupa muito – e que tenho ouvido de muita gente nos Estados Unidos – é justamente a situação interna. E aí alguns pontos chamam muito a atenção.

O primeiro deles é a questão do ICE. A questão do ICE é dramática porque não é só sobre o imigrante, sobre o estrangeiro, é também sobre a relação entre o governo federal e os governos locais. É o governo local que permite ou não a entrada do ICE na cidade; o governo estadual que colabora ou não com o ICE.

Então, é um componente que vai além do estrangeiro. O estrangeiro é, obviamente, o centro da história – afinal, ele é o deportado, ele é o preso –, mas o que fica sendo testado permanentemente é a relação entre o poder federal e o poder local. E temos visto, sim, o governo Donald Trump dizer que, nos locais onde o poder federal está sendo questionado, ele faz uma intervenção militar.

Estou falando domesticamente nos Estados Unidos. Se a gente pega o mapa dessas intervenções ou ações da Guarda Nacional americana, elas são, sobretudo, em locais democratas, aqueles que podem definir a eleição legislativa agora, que podem criar problemas enormes para Donald Trump e para que ele continue o mandato pelos próximos dois anos, então, você tem ali essa relação. Não é que o estrangeiro vá definir a eleição, mas a relação entre o poder federal e o poder local. Esse é o primeiro aspecto.

Você tem acompanhado o ressurgimento dos Panteras Negras com grupos inspirados no legado de luta, e de outros movimentos de reação nos Estados Unidos? Como interpreta esse movimento?

É muito interessante, porque não são só eles. O que tem acontecido é algo, eu diria, novo nos Estados Unidos. Eu estive lá por um ano, principalmente naqueles primeiros meses do governo Trump, e o que eu senti foi um imobilismo total. Eles estavam absolutamente perdidos, porque a luta pela democracia acontecia a 9 mil quilômetros de distância, não na minha cidade, não no meu bairro. Então, eles levaram muito tempo para despertar, e agora estão despertando.

Os Black Panthers são uma expressão desse despertar, dizendo: “Calma aí, temos algo muito sério acontecendo, vamos ter que sair às ruas para nos defender”, mas eles não são os únicos. Há muitas instituições de direitos humanos que estão se mobilizando para sair em defesa não só dos imigrantes, mas também das universidades, das escolas, da liberdade acadêmica. Vou te dar outro exemplo, que não tem nada de violento ou de resistência armada. Há uma entidade chamada PEN International – P-E-N, PEN, de caneta.

A PEN International, por décadas, lutou pela liberdade acadêmica, pela liberdade de expressão de escritores no Irã, na Arábia Saudita, na China, em Cuba. E, neste ano, ela se deu conta de que teria que lutar pela liberdade de expressão e pela liberdade acadêmica nos Estados Unidos. E aí ela vira todo o seu projeto de defesa da liberdade de expressão para o seu próprio país. Então, assim como os Black Panthers ressurgem nas ruas, o que temos visto é a sociedade civil despertar.

Talvez tarde demais, talvez fraca demais, talvez medrosa demais, mas existe hoje, finalmente, um ano depois, uma tentativa de reorganização da sociedade civil para dizer: “Não, calma aí, isso que está acontecendo é inaceitável”.

Bispos e cardeais foram às ruas confrontar o ICE. Em uma sociedade disruptiva como a americana, isso tem peso, não? Até porque o Papa é americano.

Sem dúvida nenhuma. E esse é, eu diria, um capítulo muito interessante dessa história, e, se você me permite, vou dar alguns passos para trás. Quando o ICE começa a fazer suas operações, uma das primeiras decisões do governo federal é de que não haveria santuários.

Ou seja, não haveria locais onde o ICE não pudesse entrar. Ele pode entrar nas escolas, nos hospitais, nos tribunais. Se houver um caso em que uma pessoa é testemunha – e essa pessoa, além de testemunha, é um imigrante irregular –, o ICE pode ir lá e prender, imagine só, a testemunha de um caso que não tinha nada a ver com essa história, é uma loucura total.

E um dos locais cuja proteção é desfeita são os locais de culto, as igrejas, isso tem um impacto muito grande. Vários bispos, já no ano passado, colocaram comunicados nas suas igrejas dizendo o seguinte: “Olha, identificamos que, aos domingos, nas ruas perto das nossas igrejas, o ICE tem feito batidas”, veja que dramático. Esses bispos, inclusive da Igreja Católica, entenderam o seguinte: as igrejas deles, hoje, nos Estados Unidos, só estão cheias graças aos latinos.

São os latinos que enchem as igrejas americanas. E esses bispos pensaram: “Calma aí, eu exigir que esse latino venha à missa de domingo significa que ele pode ser preso depois da missa”. E aí o que esses bispos fazem? Eles autorizam os fiéis a não irem mais à igreja, para um bispo fazer isso é muito importante, dizer “gente, não precisa vir mais à igreja” é algo muito sério. Se a gente lembrar o caos que foi, no Brasil, durante a pandemia, com pastores dizendo “tem que vir para a igreja”, não é porque acreditavam apenas que a igreja é um local sagrado; é porque temiam que aquilo ali fosse esvaziado, principalmente em termos financeiros.

Então, quando um bispo diz “não precisa vir mais, reze em casa”, é porque ele sabe que a igreja dele não é mais uma proteção, e aí vimos um Papa Francisco combativo. E depois, em um conclave, chega um cardeal mais uma vez latino-americano – em parte peruano, mas americano – que toma uma postura duríssima, mais uma vez, em relação à política migratória americana.

Ele não é duro em relação a outros temas, ele não é, mas, em relação à imigração, ele manteve a postura do Papa Francisco, então, claro, você tem os bispos americanos saindo às ruas enfrentando o ICE em cenas que eu sinceramente jamais pensei que veria, isso mostra uma situação muito particular.

Eu fico imaginando o que se passa na cabeça de vários desses seguidores do Donald Trump, muitos são católicos fervorosos, fico imaginando: quem eles vão seguir agora? O bispo da igreja local, o Papa ou o Donald Trump? É algo que incomoda muito o governo Donald Trump, porque você cria uma encruzilhada para algumas pessoas, não para todos – a gente sabe que, para alguns, o movimento MAGA é uma fé cega –, mas, para outros, não.

Essas pessoas pensam: “Calma aí, a minha religião, minha fé, minha crença e os líderes da minha igreja estão dizendo que aquela pessoa, na verdade, é o anticristo”. Nós temos acompanhado que a desaprovação dele está aumentando. A questão das religiões pode ser um motivo dessa desaprovação, ainda mais depois de ele dizer recentemente que, se perdesse as eleições de meio de mandato, poderia ser empichado, sofrer impeachment.

Você vê risco de interferência das big techs e do ecossistema ligado a Donald Trump nas eleições brasileiras?

Sem dúvida nenhuma. Eu acho que o jogo não está terminado. Sinceramente, o objetivo da política externa brasileira hoje é blindar a democracia brasileira. A política externa brasileira hoje não tem como objetivo central conquistar novos mercados ou buscar estabilização no Oriente Médio, não: objetivo da política externa brasileira é proteger a democracia brasileira. Parece incoerente: como assim uma política externa que olha para dentro?

Não, ela não está olhando para dentro, mas sim tentando criar uma blindagem contra uma ingerência externa,  então, esse é o objetivo, hoje, número um, número dois e número três, da política externa brasileira. O esforço do Itamaraty e do Palácio do Planalto é justamente o de blindar.

Vai conseguir? Ninguém sabe, ninguém pode hoje dizer que o Brasil é capaz de blindar a sua eleição, principalmente porque há atores que não são estatais, como as big techs, e são atores que se utilizam do Estado, do Estado americano, sem dúvida nenhuma e aí, a gente vê os interesses delas representados por Donald Trump.

No Brasil, temos partidos e políticos que defendem, obviamente, um lado, eu diria, para lá de entreguista, então, é um desafio muito grande essa eleição, porque ela envolve, sim, uma potencial ingerência do Estado americano; envolve também a ingerência de empresas privadas com o apoio desse Estado; e envolve ainda um movimento de extrema-direita globalizado. É um desafio gigantesco.

A estratégia do governo brasileiro é blindar essa eleição mantendo um canal de comunicação com Donald Trump, basicamente com o seguinte recado: a tua ingerência no Brasil vai ser prejudicial para vocês, não se trata de fazer um jogo de confronto aberto.

Não é por acaso que o presidente Lula foi lá e propôs qual agenda? A de combate ao narcotráfico. O presidente Lula está propondo aos americanos o combate ao narcotráfico como agenda justamente para desmanchar, eventualmente, o bolsonarismo, que poderia dizer: “Precisamos dos americanos aqui para lutar contra o narcotráfico brasileiro e, eventualmente, fazer uma operação estrangeira”.

O governo Lula está dizendo: “Não, olha, se quer fazer uma operação, é conosco, conosco mesmo, vamos fazer junto”, é uma tentativa, obviamente, de desmanchar, de desmontar essa pressão internacional.

Sobre a possível visita do Lula e essa conversa com Trump: Lula e o Itamaraty estão jogando bem esse jogo com Donald Trump?

Olha, o governo brasileiro vem acompanhando as reações de vários países em relação a Donald Trump e uma das lições que o Brasil aprendeu – e isso me foi dito pelo próprio Palácio do Planalto – vem da experiência do Gustavo Petro. Ele tinha toda a razão em questionar, tinha toda a razão em escrever aquelas cartas, aquele posicionamento dele era absolutamente legítimo, mas, da forma como foi feito, ele ampliou a crise e não, entre aspas, conteve a crise.

O que o Lula fez foi não baixar a cabeça em momento nenhum. O governo brasileiro não cedeu: não teve “fica com isso aqui”, “pega o petróleo ali”, “leva o pré-sal”, nem “vamos soltar o Jair Bolsonaro”; nada disso aconteceu, mas, ao mesmo tempo, criou ou tentou criar canais de comunicação. Esses canais frustraram o que o bolsonarismo acreditava ser inevitável: colocar Lula como inimigo de Donald Trump. E o que o governo brasileiro entendeu? Que Donald Trump não é um governo da ideologia; é um governo do interesse.

Vamos lembrar o que ele fez com o Bolsonaro: abandonou o Bolsonaro. O que fez com a María Corina Machado? Abandonou no meio do caminho. Quando foi que ele abandonou? Quando viu que, do outro lado, tinha algo que ele poderia ganhar ou, pelo menos, não perder tanto. Então, calma aí: não é ideologia. Claro que, no governo Trump, se ele puder aproveitar para desenvolver a extrema-direita pelo mundo, ele vai desenvolver, vai ser sempre a preferência, mas, se puder jogar com outros que o atendam, também vai jogar com esses outros.

O governo Donald Trump é muito pragmático nessa relação. O governo Lula entendeu que a questão não é só a extrema-direita, é a questão de jogar o jogo, então, o governo Lula tem jogado o jogo. O que eu não sei – e ninguém pode dizer – é até quando esse jogo pode durar, até quando Donald Trump vai dizer “joga esse jogo, Lula, vamos nessa, vamos dialogar”, ou se vai chegar o momento em que ele vai dizer “não, calma aí, isso eu não aceito” e esse “isso eu não aceito” se reverte, obviamente, em sanções, pressão etc.

Veja o que aconteceu com o Canadá agora, o Mark Carney tinha virado uma espécie de, não melhor amigo, mas um cara bem-quisto, Donald Trump fazia até piadas com ele. Recentemente, o Carney brincou porque o Trump o chamou de “presidente Carney”; ele foi lá e respondeu: “Obrigado, presidente, por ter me promovido; eu sou só primeiro-ministro”. E o Trump respondeu: “Sorte que eu não te chamei de governador”, governador, claro, do estado do Canadá, havia ali uma meia lua de mel, mas bastou o Carney se aproximar da China para o Donald Trump romper com ele, ameaçar com 100% de tarifas e desconvidá-lo do Conselho da Paz.

Então, essa linha é muito fina. Por enquanto, o governo brasileiro tem jogado um jogo muito inteligente, por exemplo, no Conselho da Paz, o governo já disse “não vou fazer parte”, mas, em vez de dizer “não faço parte, isso é um absurdo, quem são vocês para propor isso?”, o governo brasileiro foi lá e falou: “Olha, e se a gente fizer esse Conselho da Paz com um mandato só para Gaza e convidar os palestinos? Eu topo”.

Ou seja, não está dizendo simplesmente “não”; está dizendo “não nessas condições, mas vamos nessas outras condições”, sabendo que o Donald Trump, do outro lado, vai dizer “não, não vou topar”. Só que o Donald Trump não pode romper e dizer “que absurdo, o Brasil não vai entrar”, o Brasil está lá: “estamos lá, mas nessas condições”. O que o governo brasileiro está fazendo é justamente abraçar, em alguns aspectos, a imprevisibilidade do Donald Trump no jogo.

Sobre o acordo Mercosul–União Europeia. Houve um problema no Parlamento Europeu. Isso será superado?

Olha, o problema, na verdade, não é apenas no Parlamento Europeu, eu diria que é um pouco maior. O Parlamento Europeu é uma expressão de um problema que é: como lidar com esse acordo Mercosul–União Europeia diante das várias eleições que vão acontecer na Europa nos próximos anos, principalmente na França em 2027.

O Macron disse ao Lula, em conversa privada: “Lula, se você quiser que a extrema-direita francesa ganhe a eleição, feche esse acordo Mercosul–União Europeia, faça esse acordo existir”, pois os agricultores vão encontrar um argumento para ir contra o governo dele ou contra a centro-direita ou a centro-esquerda.

É um jogo muito delicado na França, porque a extrema-direita foi aos agricultores e disse: “Eu sou quem apoia vocês, eu vou defender vocês”; os agricultores estão numa agenda que não tem nada a ver com o Mercosul, é uma agenda doméstica, é uma agenda eleitoral francesa.

Vamos colocar em contexto: a “avalanche” de produtos do Mercosul para a União Europeia vai representar 2% do consumo de carnes da União Europeia:  nada. Vamos ser claros: nada. Não é verdade que veremos falências em massa de fazendas europeias. Agora, insisto: essa é uma instrumentalização do acordo com fins muito políticos.

Eu não tenho certeza, neste momento, se a Comissão Europeia tem força para fazer isso ir adiante, o que eu sei é que esse não é um tema unânime dentro da Europa, há Espanha, Portugal, Alemanha, até a Itália e vários outros países muito favoráveis ao acordo com o Mercosul. É uma disputa doméstica europeia, não é sobre o Brasil, não é sobre a Argentina – que eu diria que são os dois grandes atores do outro lado, é uma disputa interna. Então, estou muito curioso para ver.

Esse acordo, geopoliticamente, é muito importante. Comercialmente, não, comercialmente, ele não tem a relevância que já teve ou que poderia ter em algum momento, eu até tenho dúvidas se esse acordo é positivo para a economia brasileira como um todo. Para o setor agrícola, pode ser, mas eu não sei se, para outros setores, ele é absolutamente fundamental.

Em termos geopolíticos, ele é muito importante porque é uma resposta da América Latina e da Europa ao protecionismo, ao isolacionismo, ao nacionalismo da extrema-direita – inclusive do Donald Trump, então, geopoliticamente, ele tem um impacto, tem uma importância grande. Mas, economicamente, eu diria que ele não é tão relevante assim.