Grupos inspirados nos Panteras Negras voltam às ruas para monitorar ação policial nos EUA
Grupos que reivindicam o legado do movimento retomam a vigilância armada em áreas marcadas por abusos policiais e reabrem o debate sobre autodefesa e repressão estatal

Foto: Instagram de Paul Birdsong
Um grupo que se apresenta como Partido Pantera Negra para Autodefesa voltou a chamar atenção nos Estados Unidos ao retomar patrulhas armadas com o objetivo declarado de monitorar a atuação policial em áreas marcadas por denúncias recorrentes de abusos.
A iniciativa, registrada em vídeos que circulam nas redes sociais desde meados de janeiro, recoloca no centro do debate a relação entre autodefesa armada, fiscalização cidadã e o alcance da Segunda Emenda da Constituição norte-americana.
As imagens, gravadas em 11 de janeiro na cidade de Filadélfia, mostram viaturas da polícia local alterando o trajeto após serem abordadas por homens vestidos com uniformes que remetem ao histórico Partido dos Panteras Negras. Em um dos registros, Paul Birdsong, identificado como uma das lideranças do grupo, aparece armado enquanto dialoga com os agentes. Pouco depois, as viaturas deixam o local.

Foto: Reprodução/Sharif Ceasar
Segundo declarações dos próprios integrantes, a ação ocorreu após um episódio recente de uso excessivo da força por policiais durante a detenção de um adolescente. O grupo afirma atuar como observador da conduta policial, sustentando que o porte legal de armas, garantido constitucionalmente, pode ser exercido também como instrumento de fiscalização em comunidades com histórico de violência estatal.
Atuação atual e discurso político
Birdsong se apresenta como presidente do Partido Pantera Negra para Solidariedade Internacional e mantém presença ativa nas redes sociais desde 2020. Em seus canais, divulga ações comunitárias, convocações públicas e conteúdos relacionados à luta contra a brutalidade policial e à defesa dos direitos da população negra nos Estados Unidos.
O espaço funciona tanto como ferramenta de mobilização quanto como registro das atividades do grupo.
Em declarações recentes, Birdsong afirmou que a organização permanece em “estado de alerta”. Em outro vídeo, gravado durante um protesto contra o Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE), ele comenta a morte de Reneé Good, descrita por ele como uma mulher desarmada, e defende a manutenção de patrulhas para monitorar a atuação de policiais e agentes migratórios, cobrando responsabilização em casos de abuso.
A retomada do nome, da estética e de parte do repertório discursivo dos Panteras Negras dialoga diretamente com a memória de um dos movimentos políticos mais emblemáticos da história recente dos Estados Unidos, ainda que não haja vínculo orgânico ou institucional com a organização original.
Origem histórica dos Panteras Negras
O Partido dos Panteras Negras original foi fundado em 1966, em Oakland, na Califórnia, por Huey P. Newton e Bobby Seale. A organização surgiu com o objetivo de organizar patrulhas armadas para vigiar a polícia e denunciar a violência sistemática contra a população negra, apoiando-se na interpretação de que o direito constitucional à autodefesa deveria valer igualmente para cidadãos negros.
Naquele período, a luta racial nos Estados Unidos era fortemente associada ao movimento pelos direitos civis, marcado por estratégias de não violência e por lideranças como Martin Luther King Jr.. As conquistas legais da década de 1960, como as Leis dos Direitos Civis de 1964 e do Direito ao Voto de 1965, garantiram igualdade formal, mas não alteraram as estruturas econômicas e territoriais que sustentavam a segregação racial.
Com a migração de milhões de trabalhadores negros para os centros urbanos do Norte e do Oeste, a desigualdade passou a se expressar por meio de políticas de habitação excludentes, precarização do trabalho e policiamento intensivo em áreas segregadas. Nesse contexto, a polícia assumiu papel central no controle dessas populações, alimentando tensões permanentes.

Black Power, programas sociais e repressão estatal
A partir desse cenário, os Panteras Negras se consolidaram como uma das expressões centrais do chamado Black Power. A organização combinava nacionalismo negro, crítica ao capitalismo e defesa da autossuficiência comunitária, inspirando-se em correntes como o marxismo-leninismo e o anti-imperialismo.
Além da autodefesa armada, o partido desenvolveu programas sociais de grande alcance, como o Café da Manhã Grátis para Crianças e clínicas populares de saúde em cidades como Nova York, Chicago e Los Angeles. Seu programa político, sintetizado no Programa dos Dez Pontos, reivindicava autodeterminação, emprego, moradia digna, o fim da brutalidade policial e reparações históricas.
O crescimento do movimento provocou forte reação do Estado. O então diretor do FBI, J. Edgar Hoover, classificou os Panteras Negras como uma das maiores ameaças à segurança interna do país. A partir daí, foi implementado o programa COINTELPRO, que combinou vigilância, infiltração, desinformação e perseguição judicial.
Confrontos armados, disputas internas e a repressão sistemática contribuíram para o enfraquecimento da organização, que entrou em declínio ao longo da década de 1970 e foi oficialmente dissolvida em 1982.
Décadas depois, a reaparição de grupos que reivindicam o legado dos Panteras Negras ocorre em um contexto marcado pela persistência da violência policial, pelo encarceramento em massa da população negra e pelo endurecimento das políticas migratórias. Mais do que uma continuidade direta, essas iniciativas revelam uma disputa simbólica em torno da memória do movimento e da permanência dos conflitos que lhe deram origem.



