Elias Jabbour: “A América Latina é um cenário de barbárie”
Em entrevista à Focus, o professor fala sobre a geopolítica do século XXI, o colapso da globalização neoliberal e o futuro da China e do Brasil

Elias Jabbour é geógrafo, professor titular da UERJ e pesquisador brasileiro conhecido por suas análises sobre a China contemporânea, o desenvolvimento econômico, a geopolítica e as transformações do capitalismo no século XXI. Ele se tornou referência no debate público brasileiro ao defender que a ascensão chinesa não pode ser explicada apenas pelo mercado ou pela globalização.
Diante da invasão dos Estados Unidos à Venezuela e do sequestro do presidente Nicolás Maduro, Elias Jabbour torna-se um dos nomes mais procurados pela mídia para explicar e compreender o ocorrido. Em suas análises anteriores ao ataque, ele argumentava que a Venezuela não seria um país socialista, já que carecia de planejamento econômico, de base produtiva nacionalizada e de estabilidade institucional, aliado ao fato de o país viver um processo revolucionário sob intenso cerco. As crises de fome e inflação decorriam das sanções e do bloqueio ao sistema financeiro internacional imposto pelos Estados Unidos, que já perduram pelo menos dez anos. O autor chegou a comparar a situação venezuelana ao sucesso chinês e vietnamita, defendendo que o desenvolvimento depende de soberania e de reindustrialização. Suas análises foram acertadas, pois a Venezuela não construiu força interna suficiente para impedir Trump de tomar o país, em um movimento de clara colonização 2.0.
A China está em uma marcha aberta para superar não apenas os Estados Unidos, mas também para se transformar em um país com soberania tecnológica.
Em entrevista à Focus, ele defende a necessidade do Brasil “unir os brasileiros em torno de um programa que defina a nossa soberania”, em especial nas próximas eleições. “O Brasil tem água, tem petróleo, tem terras raras, tem tudo de que os estadunidenses também necessitam hoje, em termos de processo e de base material para sustentar esse esforço do Trump, que é reindustrializar os Estados Unidos”, explica.
Com todas as atenções voltadas para os próximos passos da China e da Rússia, Jabbour é cauteloso e diz que prefere não especular. O professor, que também é militante do PCdoB, lamenta que a esquerda brasileira olhe muito pouco para a China, repetindo padrões do Norte Global com “muitos preconceitos”.
Leia abaixo a entrevista, que também está disponível no YouTube.
Vendo a sua extensa colaboração nas redes sociais, parece que todas as suas previsões sobre o que ia acontecer na Venezuela se confirmaram. Tudo o que você disse há três anos acabou se tornando realidade. Ainda é cedo para imaginar os desdobramentos dessa ação dos Estados Unidos, mas como você está vendo esse momento?
Em primeiro lugar, é um momento muito grave da história moderna, porque quase todos os presidentes dos Estados Unidos derrubaram outros presidentes. No caso do Obama, tem relação direta em armar guerrilhas contra o governo do Bashar Hafez al-Assad, na Síria. George Bush fez o mesmo com o Iraque, com a suposição das chamadas armas de destruição em massa, que não existiam. Eles tinham uma conversa de democracia, de direitos humanos, e hoje não, hoje nós temos um presidente dos Estados Unidos que fala abertamente que a questão para os Estados Unidos é recursos naturais e ativos estratégicos, acho que essa é a novidade do momento, e o grau de inconsequência é muito grande. Então, a América Latina hoje está passando por um processo em que a barbárie se instalou de uma vez por todas, vamos dizer assim, esse é o cenário. A América Latina é um cenário de barbárie. Os países da América Latina, despreparados para enfrentar esse IV Reich, como estão falando por aí, o que tem muito sentido, encontram-se em uma situação muito preocupante. Fica para nós, no Brasil, a necessidade de construir a possibilidade de unir os brasileiros em torno de um programa que defina a nossa soberania nas próximas eleições; já entendendo rapidamente, que também o Brasil é um alvo preferencial. O Brasil tem água, tem petróleo, tem terras raras, tem tudo que os estadunidenses também necessitam hoje em termos de processo, em termos de base material para sustentar esse esforço do Trump, que é reindustrializar os Estados Unidos. A situação é muito grave e o grande desafio hoje do mundo é encontrar meios e maneiras de parar os Estados Unidos, da mesma forma que se tentou antes da Segunda Guerra Mundial, tentar parar Hitler, e não se conseguiu. Existe um paralelo histórico entre os dois fenômenos que é interessante explorar.
Ainda é cedo para fazer muitas previsões, porque o que aconteceu é recente, mas que desdobramentos você imagina diante dessa perspectiva? As suas previsões têm se confirmado. O que você imagina que pode acontecer, principalmente vindo da China e da Rússia, em relação a esse ataque?
Existe, vamos dizer assim, uma relação dialética entre o que acontece na Venezuela e as reações das potências russa e chinesa. Então, por exemplo, na medida em que os Estados Unidos ainda não conseguem se impor à Venezuela, ou seja, estamos vendo que a imprensa divulga muito que o Trump decidiu trabalhar com o chamado “regime”. Eu não concordo com isso. O que percebo é que o Trump teve que aceitar que derrubar o governo chavista não é tarefa fácil. Por exemplo, eles não conseguiram na Venezuela completar o ciclo do que eu chamo de ciclo do ¨regime change¨, ou seja, aquele ciclo em que você desestabiliza o governo a partir tanto de ataques como esse como aconteceu, como também de uma tempestade semiótica tão grande que as pessoas vão para a rua pedir a derrubada do governo, até o governo ficar insustentável. O que se vê até agora é que, apesar das exigências dos Estados Unidos, o governo da Delcy Rodríguez não está dando um passo atrás no sentido de ir ao encontro do que Trump deseja. O que eu vejo é que a Venezuela está tentando ganhar o tempo necessário para reagir e, por outro lado, a China e a Rússia estão observando. Isso tende a aumentar o tom em relação aos Estados Unidos, em termos de denúncias. A China fez a mais grave formalização ao dizer que o que aconteceu é absolutamente chocante; então, o que dá para esperar, por enquanto, é isso, mais no campo das declarações, no aumento de tom, e, além disso, seria especulação demais, o que não é o caso.
Esse momento pode indicar o fim de uma globalização neoliberal? Porque, uma das suas análises, também se relaciona a um momento de muita crise; embora a gente possa se espelhar no passado, ele pode trazer um resultado diferente? Você acha que pode estar nascendo um mundo mais fragmentado depois desse momento?
O que acontece é que hoje você tem duas tendências no mundo que estão em choque. A primeira, essa globalização capitaneada pela grande finança estadunidense. Essa globalização morreu. Essa globalização, além de não entregar o que ela prometeu aos povos nos anos 1980 e 1990 — desenvolvimento econômico, paz perpétua, fim da história, essa coisa toda —, muito pelo contrário: as desigualdades aumentaram dentro dos países e entre os países. Essa globalização não entregou o que prometeu, tanto é que, desde a crise de 2008, por exemplo, ela foi claramente a entrega final dessa globalização e, desde então, desanda por uma série de fatores. Existe uma outra globalização em andamento que é uma globalização centrada na China baseada na exportação de bens públicos. Hoje, a China, por meio desta iniciativa, exporta bens públicos para o mundo inteiro: ferrovias, rodovias, portos e aeroportos; ou seja, é uma globalização que eu chamo de globalização inclusiva, que não exclui países, como era o caso da globalização neoliberal e financeira. Há um choque entre essas duas tendências no mundo hoje. E o velho ainda é muito forte; o velho dos Estados Unidos é muito forte. Esse ataque à Venezuela, inclusive, demonstra que os estadunidenses ainda são a única superpotência com capacidade de ação global. A Rússia não é essa superpotência, nem a China; os estadunidenses continuam sendo essa superpotência, ainda que em decadência relativa. É bom dizer relativo porque, apesar de estar em decadência em relação à China e à Rússia, por exemplo, o dólar ainda é a moeda mais utilizada no mundo. As classes médias do mundo inteiro querem ser estadunidenses. Os EUA ainda contam com essa capacidade de extensão militar do seu poder no mundo afora: são 800 bases militares. Entretanto, existe um fato novo a China hoje é a principal parceira comercial de mais de mais de 90% dos países, ela é o maior credor líquido do mundo, já passou o Banco Mundial, FMI, Clube de Paris há muito tempo. É o único país do mundo hoje capaz de criar tendências no processo de desenvolvimento do Sul Global por meio da exportação de bens públicos. Os países podem se apropriar das tendências que a China dispõe por meio da exportação de bens públicos.
Quando você fala nesse contexto de globalização, sua perspectiva sobre a China é que ela superou, de alguma forma, a dependência tecnológica do Ocidente?
Está prestes a superar. O resultado que os EUA esperavam do bullying tecnológico iniciado em 2017/2018 causou um efeito contrário. A China intensificou seus esforços em prol da busca por sua autonomia tecnológica. Vamos pegar um exemplo aqui: a China, em 2017, estava duas gerações atrás dos Estados Unidos em matéria de infraestrutura de semicondutores. Hoje, essa distância está sendo rapidamente superada, em menos de oito anos, algo que 90% dos analistas, por exemplo, não esperavam. A China pode vir a alcançar em breve os EUA em matéria de inteligência artificial, algo que também era muito inesperado. A China hoje já está à frente no mundo em mais de 90% das chamadas tecnologias sensíveis. Ou seja, a China está em uma marcha aberta para superar não apenas os Estados Unidos, mas também para se transformar em um país soberano em tecnologia.
Com relação ao Brics, você acha que a gente falhou? Podemos dizer que o Brics foi uma ruptura real com essa ordem dominada pelo Ocidente ou apenas uma tentativa de reformá-la por dentro? Como é que você avalia isso?
O Brics, eu costumo dizer — ainda mais depois da minha experiência no Banco dos Brics — é um mecanismo político criado em 2008 com a finalidade de se reconstruir, na medida em que o Ocidente foi incapaz, com um sistema financeiro internacional que estava completamente abalado, que espelhasse a nova base material do mundo que tinha novos polos de poder como a China, a Índia, o Brasil acendendo. O Brics foram, são e serão a tentativa de construção dessa nova ordem financeira internacional, tanto é que o Banco dos Brics é uma entrega, talvez a única entrega dos Brics até agora. O que acontece é que esse mecanismo político não evoluiu para um grau de institucionalização que apontasse no sentido de que se pudesse dizer: Olha, está surgindo a partir desse grupo de países uma nova ordem internacional baseada em regras muito claras, em regras, da não interferência em assuntos externos, etc. O Brics é um mecanismo criado para superar o sistema financeiro internacional antigo e implementar o novo. Ele avança a passos muito lentos. Há uma tentativa de coordenação entre financiamento, comércio e investimento entre os países do Sul Global centrados na China. No entanto, eu continuo afirmando que, apesar de todas as suas limitações — até por conta da diversidade que o Brics representa hoje —, ele é uma luz no fim do túnel, algo muito interessante em que se apostar ainda.
Depois de tanto tempo estudando a China e falando sobre isso, dando entrevista, etc., o que a esquerda brasileira ainda não entendeu sobre a China, sobre desenvolvimento e sobre poder no século XXI?
Olha, vou ser muito honesto: eu não consigo nem ser um personagem quando analiso a realidade, nem quando me expresso nas redes sociais, muito menos assim, falando com tranquilidade como estou falando com você. A esquerda, particularmente a brasileira, não aprendeu muito sobre a China. Nós temos uma cosmovisão sobre a China muito baseada no Norte global, ou seja, a China é vista como são vistos os africanos, os latino-americanos, como uma coisa meio estranha, meio diferente; ainda existem muitos preconceitos em relação à China: “a China é uma ditadura”, “a China não é um país socialista”. E eu lamento muito que a esquerda brasileira olhe muito pouco para a China. Chega a ser triste. Vou dar um exemplo com um fato que é bem sintético em relação à sua pergunta. Na mesma semana em que o prefeito de Nova Iorque foi eleito, Zohran Mamdani, que é muçulmano, socialista, democrático e tal, a China lançou o sol artificial. Esse sol artificial, por exemplo, pode, na medida em que existe uma escala de produção, entregar energia limpa, barata e infinita à humanidade. Esse sol artificial não foi notícia nenhuma no Brasil: uma entrega que pode significar possibilidades reais de desenvolvimento para a humanidade para superar o impasse climático, a crise climática, não foi matéria de nenhum grande jornal nem de esquerda, muito menos da grande mídia, enquanto a eleição do prefeito gerou uma onda muito grande. Todo mundo ficou muito emocionado, mas sabemos muito bem que Nova Iorque não retrata os Estados Unidos e que, apesar de não ser contraditório, não é para tanto; essa é uma opinião particular minha. Então, é isso, a gente vive muito em torno ainda dessas influências intelectuais, políticas do Norte Global, da Europa Ocidental, dos Estados Unidos, e isso é muito ruim para a esquerda brasileira, muito ruim. Nós pensamos na China muitas vezes como um mercado para nossos produtos; pensamos na China como um país que cresce muito e tal, mas, quando se vai conversar sobre a China dentro da esquerda brasileira, é uma fonte de preconceito muito grande. Infelizmente, ainda estamos nesse estágio primitivo das análises sobre a China no âmbito da esquerda brasileira. A academia avançou em certa medida; existem muitos centros que estudam a China na universidade; nos partidos de esquerda também existe a curiosidade, mas na militância em geral, o preconceito ainda é muito grande.
Qual será seu próximo livro? Você está pensando nisso?
Eu continuo produzindo intelectualmente. Publiquei no ano passado alguns artigos acadêmicos tem artigos a serem publicados, e tem um livro que será lançado agora entre janeiro e março, chamado Poder e Socialismo, que é uma continuação do nosso último livro, China e o socialismo do século XXI, um livro best-seller, com 45 mil cópias vendidas, que virou uma referência no debate público, e com certeza, esse próximo livro que sairá na Boitempo também terá o mesmo impacto. Eu continuo produzindo intelectualmente; eu não consigo parar, nem se eu quisesse parar, eu pararia.
E você acha, que essa situação pode afetar em algum nível o relacionamento do Brasil com a China você imagina que deve haver algum tipo de ajuste nos projetos de cooperação entre esses dois países?
Eu acho que o Brasil tem que aprofundar as relações com a China. Nós temos, infelizmente, apesar da vontade do presidente Lula, o Itamaraty que, cá entre nós, faz um esforço danado para que as coisas não aconteçam entre o Brasil e a China. E acredito que nós não aproveitamos nem 15–20% do que a China tem a nos oferecer. Queremos fechar o negócio de forma muito apressada, quando muitas vezes são necessários anos para que grandes projetos e joint ventures empresariais sejam concretizados. Então a tendência que eu vejo, é da necessidade histórica de aprofundar as nossas relações com a China, inclusive pensando em termos de projeto nacional brasileiro. Se o Brasil se reencontrar consigo mesmo e conseguir reunir uma outra maioria política capaz de nos entregar um projeto nacional de desenvolvimento, é evidente que a China é um fator decisivo para o sucesso desse projeto; então, tudo é uma questão de futuro, porque a China hoje é uma realidade portadora do futuro. Vamos esperar, tomara que o Brasil se reencontre consigo mesmo e se encontre ainda mais com a China.