Ao encerrar sua passagem pela Fundação Perseu Abramo, Okamotto avalia a gestão, cobra mais presença na base e aponta os desafios do PT na disputa de hegemonia e no ciclo eleitoral de 2026

“Sem disputar a sociedade, não há futuro político”, defende Paulo Okamotto, que deixa a presidência da FPA 
Paulo Okamotto: “A disputa política não se resolve apenas no governo ou nas instituições, mas na capacidade de dialogar com a sociedade e produzir sentido”
Foto: Reprodução PT

Ao fazer um balanço dos três anos que ficou à frente da Fundação Perseu AbramoPaulo Okamotto, que renunciou ao mandato de presidente em dezembro de 2025, descreve uma gestão orientada por um objetivo claro: aproximar a produção de conhecimento da vida concreta do Partido dos Trabalhadores e dos dilemas enfrentados pela sociedade brasileira.  

Metalúrgico formado no ABC paulista, Okamotto iniciou sua militância no movimento sindical ainda nos anos 1970, integrou a direção do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e participou do processo de fundação do PT. Foi presidente do diretório estadual do partido em São Paulo entre 2000 e 2004, presidiu o Sebrae Nacional, dirigiu o Instituto Lula e assumiu a presidência da Fundação Perseu Abramo em 2023. 

Em entrevista concedida à Focus Brasil, gravada em dezembro do ano passado em São Paulo, dias antes de deixar o cargo, Okamotto avalia que a Fundação avançou ao enfrentar temas que “nem sempre ocupam o centro do debate partidário”. Entre eles, segurança pública, mundo do trabalho, religião, empreendedorismo, desenvolvimento, tecnologia e inovação.  

Para ele, parte do papel da FPA foi transformar inquietações internas em formulação política. “A gente conseguiu transformar a angústia dos nossos dirigentes em propostas concretas de um novo tipo de organização”, afirma.  

Segundo Okamotto, a Fundação ajudou o partido a refletir sobre suas próprias lacunas. “Chamamos atenção sobre a necessidade de o partido atualizar o seu conhecimento sobre a sociedade brasileira”, diz. 

A formação política aparece como eixo estruturante de sua gestão. Okamotto sustenta que identidade histórica e presença institucional não bastam para sustentar um projeto político. “Fazer política é a arte de convencer as pessoas”, afirma. E acrescenta: “A população não vai reconhecer só porque nós somos o Partido dos Trabalhadores se a gente não tiver capacidade para explicar para eles a nossa proposta”.  

Pesquisa, linguagem e escuta 

Ao tratar das pesquisas produzidas pela FPA, Okamotto desenvolve que elas não devem ser reduzidas a instrumentos eleitorais. “As pesquisas são mais do que saber se a gente está na frente ou atrás”, diz. Para ele, o principal valor está na capacidade de oferecer pistas sobre percepções, crenças e limites da ação partidária.  

Um dos dados que mais o marcou diz respeito à dificuldade de converter força nacional em presença local: “O eleitor até quer votar no PT, ele até é petista. Só que tem um problema: ele diz que não conhece ninguém do PT para votar”. 

A mesma preocupação aparece quando aborda o mundo do trabalho e a relação com diferentes segmentos sociais. Sobre trabalhadores informais ou por aplicativo, alerta para o risco de desqualificação simbólica na linguagem. 

“Chamar o trabalhador que sustenta a sua família de precarizado não me parece que é uma boa estratégia”, questiona. Ao falar da relação com evangélicos, o raciocínio é semelhante: “Você falar que o evangélico é manipulado pelo pastor não ajuda muito você conversar com ele”. 

Organização e futuro 

Ao projetar os desafios do ciclo eleitoral de 2026, Okamotto defende que o partido precisa ir além da defesa das políticas de reconstrução já realizadas. “O PT precisa trabalhar daqui pra frente um projeto muito forte de desenvolvimento”, afirma.  

Segundo ele, há um contingente expressivo da sociedade que ainda não percebe ganhos diretos das políticas públicas e que precisa ser incorporado a uma narrativa de futuro. “A gente vai ter que criar, de novo, encantamento, perspectiva de futuro para essas pessoas”, diz. A ideia que atravessa sua avaliação é a necessidade de mudança permanente. Não como ruptura, mas como método político. “O partido tem que inovar”, afirma. “O partido tem que fazer coisa disruptiva. O partido não pode se acomodar.” 

Leia a entrevista na íntegra:  

Focus Brasil – Paulo, no final de 2025, completaram-se três anos da sua presidência na Fundação Perseu Abramo. Qual avaliação da sua gestão?  

Paulo Okamotto – Avalio minha gestão de forma muito positiva. Eu tinha a pretensão de colocar a Fundação mais a serviço dos nossos dirigentes, do nosso militante. Achava que a Fundação precisava produzir mais conhecimento para melhorar a nossa atuação. E o balanço que faço é que avançamos muito nisso.  

Não só a gente conseguiu transformar a angústia dos nossos dirigentes em propostas concretas de um novo tipo de organização, como chamamos atenção sobre a necessidade do partido atualizar o seu conhecimento sobre a sociedade brasileira, tentar mudar a sua prática. Ajudamos a pensar sobre o que é o mundo do trabalho, ajudamos os nossos companheiros a ter mais clareza da importância e da necessidade de capacitar os nossos dirigentes. Discutimos a importância de estarmos na base e o que é trabalho de base, como ele pode ser feito.  

E um conjunto de conhecimentos que foram produzidos através das pesquisas que podem ajudar muito eleitoralmente o nosso partido, mas também muitos conhecimentos, muitas informações que possibilitam a gente dialogar com a sociedade brasileira a respeito, por exemplo, da segurança pública, que é um gargalo importante.  

A questão, por exemplo, da religião, a importância que ela tem para os brasileiros, que, na sua ampla maioria, é de cristãos. Enfim, conseguimos chamar a atenção da importância de vários segmentos que, em geral, a gente não discute. Em particular, discutimos pouco, por exemplo, sobre desenvolvimento, indústria, sobre meio ambiente, tecnologia, inovação. E acho que isso tudo a gente conseguiu de alguma forma começar a esboçar a necessidade do partido ser mais atuante nessas áreas. 

Focus Brasil – Você é um militante histórico. Foi presidente do PT de São Paulo, tem experiência tanto no mundo do trabalho, quanto também na gestão pública. Você foi presidente do Sebrae, foi presidente do Instituto Lula e agora esses três anos como presidente da Fundação. Como que a Fundação e o próprio partido podem melhorar nessa quadra que se avizinha? 

Paulo Okamotto – Eu acho que a Fundação é um negócio extraordinário para o partido. Ela tem um orçamento de R$30 milhões. E ela não tem que distribuir pelos estados, não tem que pagar dirigentes, não tem que fazer grandes encontros. Então ela tem uma capacidade de realizar coisas que deveria, e que pode ser melhor aproveitada. O que acho que a Fundação precisa fazer? Primeiro, melhorar a sua própria gestão. Precisamos ser exemplos de gestão, de entrega, de comprometimento. E precisamos discutir, assim como o partido vai discutir em seu Congresso Nacional sobre nova forma de atuação, melhorar o seu estatuto, melhorar as suas práticas. Também acho que a Fundação precisa fazer isso. Precisamos discutir se é conveniente o número de diretores, a forma que a gente entrega produtos, se a gente fica aqui só ofertando, ou o partido tem uma proposta para a Fundação ou o partido discute o que ele quer com a Fundação, e a Fundação procura resolver os gargalos estratégicos do partido para fazer com que o partido avance mais rápido e tenha melhores e mais resultados. 

Focus Brasil – Você, quando veio para a Fundação, sempre teve o mantra de investir o máximo possível na formação política do militante e também na formação política do dirigente. No nosso partido, apesar de ser um partido de massas, um partido capilarizado no Brasil inteiro, há uma dicotomia entre o partido e a base. Em vários momentos você mesmo dizia que a base do partido é mais avançada do que a direção. Talvez por que ela seja mais presente no dia a dia do povo e a direção está um pouco afastada do dia a dia da população? 

Paulo Okamotto – Acho isso mesmo. Temos muitos companheiros que estão na base, vereadores, deputados, muita gente está na base, conversando com o povo. Mas acho que muitos problemas do povo não são discutidos no partido. Não discute porque a dinâmica do partido, hoje, tem muitas pessoas na luta institucional, no governo, então as pessoas estão mais na luta cotidiana, no parlamento. E o partido não vê, não observa essas dificuldades que o povo está discutindo. Como a questão da própria segurança, da saúde, das possibilidades de melhorar de vida.  

Então, nesse sentido, acho que o partido está distante. Não digo o partido como todo, mas a direção está distante do que pensa e precisa o povo brasileiro. E eu acho que a Fundação tem que chamar a atenção disso. Tem que capacitar nosso dirigente para se fazer isso. Porque fazer política é a arte de convencer as pessoas. E fazer política partidária é convencer as pessoas de que o nosso partido é o melhor partido.  

Agora, pra gente poder convencer as pessoas que o nosso é o melhor partido, a gente precisa primeiro ter ideias, propostas, capacidade argumentativa para conversar com a população. A população não vai reconhecer só porque nós somos o Partido dos Trabalhadores se a gente não tiver capacidade para explicar para eles a nossa proposta. Etambém temos que ter prática, temos que estar presentes na luta dos trabalhadores. Temos que estar constantemente disputando as melhores políticas públicas na sociedade ese apresentar como exemplo. Exemplo de ser humano, exemplo de brasileiro, para que as pessoas possam reconhecer, não só os valores das ideias que a gente defende, mas também o comportamento que a gente tem na sociedade, na família, no trabalho e assim por diante. 

Focus Brasil – Paulo, retomando o que você disse sobre a relação do partido com a Fundação e como pode funcionar essa troca. Nos últimos eventos, em geral, feitos em conjunto pela FPA e pelo PT, há sempre um elogio ou uma menção ao trabalho da Fundação, o que é importante para o desenvolvimento das políticas. Como se deu essa aproximação na sua gestão e como você conduziu essa gestão colaborativa com o partido e o que vamos colher disso, especialmente tendo o eleitoral em vista? Saímos mais preparados como partido e Fundação? 

Paulo Okamotto – A minha prática dos três anos que eu estive à frente da Fundação foi muito de conversar com os dirigentes. Dirigentes nacionais, com dirigentes estaduais, parlamentares. Para explicar um pouco o que é a Fundação e como é que eu achava que eles deveriam tratar a Fundação do ponto de vista de que o partido é o demandante da FPA. A FPA não pode ficar no “ofertismo”. Ela tem que, a partir da necessidade do partido, tentar suprir as demandas que o partido tem, por exemplo, sobre a falta de conhecimento sobre determinado tema, ou melhor esclarecimento sobre determinado assunto. Então, nesse sentido, foi o que tentei fazer e acho que conseguimos fazer. E, ao mesmo tempo, conversando com a base do partido, você começa a perceber também a carência que o partido tem em certos temas.  

Como já relatei, a questão da segurança e do mundo do trabalho, de um projeto de desenvolvimento mais organizado, a questão do meio ambiente. Então, como é que eu fiz? Primeiro trabalhei muito em Brasília, ia quase toda semana a Brasília. Conversar com dirigente, explicar o que era a Fundação, colocar minha opinião de que eles tinham que demandar a Fundação, fazer minha análise. A forma como o partido é dirigido, muitas vezes, não abre espaço para discutir o que é a Fundação, o seu papel, como é que ela pode ser demandada, quais são as demandas que vamos atender – e que a gente precisa mudar isso, mudar a forma de dirigir o partido.  

Precisamos inovar. O partido vai fazer quase 50 anos. Precisamos inovar na forma da gente fazer reunião, de tomar decisão, a forma de acompanhar, tanto as questões organizativas do partido, diretórios estaduais, diretórios municipais, quanto os setoriais, as secretarias, fazendo com que o partido seja cada vez mais exitoso, que o nosso dirigente esteja cada vez mais preparado. Se a gente acompanhar os problemas reais, a gente vai achar soluções. Se a gente virar as costas, se só cuidarmos do nosso umbigo, não vai ter solução coletiva. E acho que precisa ter. Precisa ter soluções coletivas. É preciso discutir, é preciso fazer uma avaliação.  

O partido tem crescido? Nós temos aumentado o número de vereadores? Temos aumentado o número de deputados, de prefeitos e de deputados federais? Temos obtido mais votos a cada eleição que passa? Se não temos obtido, por que não? Se temos obtido, o que é que levou a ter mais sucesso? Na minha opinião, o partido não tem obtido… O partido é exitoso, tirar o companheiro Lula da cadeia e elegê-lo Presidente foi uma façanha extraordinária. Mas não podemos ficar contentes só com isso.  

Precisamos pensar que um partido precisa, necessariamente, estar disputando a sociedade, conseguir uma certa hegemonia na sociedade, para poder fazer o mundo que a gente defende. Se não, vamos ter que negociar com o parlamento, que está cada vez mais perverso com o povo, dando o dedo, a mão, o braço. Não tem cabimento esse tipo de coisa. Temos que ter essa capacidade de mobilizar, de organizar, de fazer com que as nossas ideias sejam ouvidas por milhões e milhões de brasileiros.  

Só assim vamos construir futuro para o país, de verdade. Só assim vamos construir o futuro da classe trabalhadora. E é para isso que o partido foi criado. Foi criado para fazer com que o povo tivesse vez e voz, para melhorar efetivamente a vida do povo, que diminuísse mais a desigualdade e que a gente tivesse uma sociedade que não admitia retrocesso nessa questão dos avanços de política pública. E hoje ainda não temos isso. Se entrar um governo de direita, eu temo que muitas conquistas nossas possam ser suprimidas pela truculência que a direita sempre teve em relação ao povo.  

Focus Brasil – Um projeto que você conduziu com bastante atenção na FPA foi o de formação. Tanto dos dirigentes, quanto eventos abertos ao público, ao povo. Mas também houve um processo muito grande de integração da militância. Sua gestão ressaltou muito o papel da militância e de como o partido tinha que se aproximar mais dessa militância, para que ela seja parte das discussões. Você acha que a gente avançou nisso?  

Paulo Okamotto – Avançou. Mas avançou muito pouco ainda. Precisamos empoderar mais os nossos militantes. Os nossos militantes devem e precisam ter maior participação nas decisões de candidaturas, sobre grandes temas que estão em debate na cidade, no estado ou no próprio país. Temos que criar projetos mais coletivos locais, estaduais e nacionais. Enfim, a gente tem que organizar o partido de uma forma mais especializada, porque é humanamente impossível um diretório discutir sobre todos os assuntos.  

Pensar essa questão de setoriais, das secretarias nos estados e municípios para produzir conhecimento e disseminar esse conhecimento. Porque também não adianta nada produzir conhecimento e não disseminar. E a única forma de estimular isso é capacitando mais gente. Então, o que precisa fazer?  

O que procurei fazer foi capacitar mais dirigentes para produzir mais conhecimento, porque se a gente trabalhar em rede, num projeto coletivo, com planejamento e organização, a gente é capaz de fazer muito mais, muito mais mesmo. E é isso que a gente precisa: fazer muito mais e muito rápido, porque a direita está tomando conta do mundo e a gente precisa aqui nesse país, criar uma tribuna de resistência, criar espaço de resistência e tentar criar exemplos para outros países também. 

Focus Brasil – Além da FPA e do próprio Instituto Lula, há o projeto Pode Espalhar. Que é um movimento que surgiu da militância, mas que você também defende como um papel estimulador e que tem crescido. Qual o papel que esse movimento pode jogar nessa luta que a gente está enfrentando contra a extrema direita, na questão da pauta da escala 6×1, na disputa sobre a anistia e sobre os avanços e as realizações do governo do presidente Lula? 

Paulo Okamotto – O Pode Espalhar é uma metodologia de trabalho. Ele tem uma pegada, uma visão, mais de comunicação, mas ele não é só um instrumento de comunicação. Se fosse, já seria muito importante, porque fazer política é a arte de comunicar e convencer. Você faz política, não conversa com ninguém, não faz um panfleto, não vai para uma rede social, fica em casa dormindo 24 horas, você pode ser o cara mais formado do mundo, mas não vai mudar o mundo, se não se comunicar.  

Então, o Pode Espalhar é uma metodologia de comunicação que tem uma característica de ser uma comunicação que defende os avanços do governo Lula, que defende a democracia. Mas ele procura ter atuações nacionais, estaduais e municipais com estratégia, com uma certa intencionalidade. É um projeto de comunicação, mas é, sobretudo, uma metodologia. Uma metodologia de organização. Porque a gente pode, a partir de um bom sistema de comunicação estadual, municipal e nacional, fazer reuniões, chamar para fazer cursos, discutir certos temas. Ele pode ser um instrumento de mobilização.  

Veja bem, se a gente tivesse milhares e milhares e milhares de companheiros participando dessa metodologia, discutindo essa metodologia e exercitando essa metodologia, a nossa capacidade de mobilizar se multiplica por dez, quinze, vinte. E precisamos fazer isso – até para combater as fake news. O Pode Espalhar é um instrumento importante de organização, de mobilização, de formação – porque também você pode usar a comunicação para formar.  

Não precisa usar a comunicação só para ficar obtendo like, mas para formar também. Conteúdos que muitas vezes não tem milhões de likes, mas tem milhares de pessoas que veem e percebem que é um conteúdo para disputar a narrativa na sociedade.  

E pode ser instrumento de projeção. Podemos usar a comunicação para projetar gente. Às vezes você precisa projetar uma pessoa que você quer que seja um conselheiro, um sindicalista, para ser um deputado, senador, ou alguma coisa que você queira. Num projeto coletivo, discutido, você tem como operar. Porque você tem um grande instrumento também de projeção.  

Então, ele é uma metodologia. Um partido que quer dirigir do jeito que eu acho que precisa dirigir milhões de pessoas, milhares de dirigentes, precisa e necessita ter uma ferramenta dessa. Não tem como dirigir um partido pela Folha de São Paulo, pelo Estadão. Não tem. Tem que dirigir o partido com os instrumentos que criarmos, senão você está perdido.  

O Pode Espalhar é uma proposta que, se bem compreendida pelo partido, e acho que uma boa parte dos dirigentes que tem acesso está percebendo que é uma bela ferramenta, é um bom caminho metodológico. E eu estou comprometido em ajudar a implementar isso e a consolidar essa metodologia de dirigir o partido, de fazer política.  

Focus Brasil – Continuando na comunicação e em como ela pode auxiliar nesse processo, hoje que nós temos alguns veículos que são do partido, aqui da Fundação, do PT na Câmara e no Senado, mas ainda comum gargalo na produção jornalística frente à narrativa hegemônica dos conglomerados. Porque não só no meme, não só nos vídeos, que funcionam muito bem, mas também produção jornalística de qualidade, eficiente e profissional, que leve informação e leitura que os outros jornais não vão apresentar para o povo pode ser um grande aliado na luta. Como a Fundação poderia atuar nessa esfera? 

A gente precisava dividir melhor os nossos esforços. Não temos recursos abundantes, precisamos discutir quem faz o quê e porque é que faz. Essa parte mais de jornalístico, acho que há outros canais que têm que se ocupar disso.  

O próprio partido tem mais estrutura de fazer comunicação, mais jornalismo, mais do dia a dia. E precisa fazer isso. A Fundação tem que fazer produção de conhecimento e a disseminação desse conhecimento. Precisamos ser reconhecidos como instituição que forma, que produz conhecimento, que tem condições de mobilizar os melhores intelectuais que o partido tem e os melhores militantes do partido. 

Para fazer formação, capacitação, para fazer com que o nosso dirigente e militante tenham uma qualificação superior. Se a gente fica conhecido dessa forma, já seria ótimo. Porque eu sei que fazer jornalismo mesmo é uma coisa cara. É uma coisa que requer grande investimento, porque a gente percebe a própria direita para fazer jornalismo, você pega esses “news” por aí, Globo News, Band News, SBT News. É um custo elevado para pouca gente ver, não temos como competir com isso.  

Então temos que escolher bem qual vai ser o nosso instrumento. Mas se tivesse que articular na Fundação de novo, trabalharia muito para convencer a Fundação a produzir muito mais formação, criação de pequenos produtos de formação. Por que o governo tem a política de Bolsa Família? E o Pé de Meia? Acho que temos capacidade de formar, inclusive os nossos dirigentes, filiados, com um argumento de um minuto, dois minutos, e explicar que tem esse o aquele projeto, mas não é o que é. O que é todo mundo já sabe. Tem que saber o que é, mas por que existe?  

Se a gente consegue explicar por que existe cada política, a gente vai fazer uma disputa ideológica. Se ele mesmo não conseguir explicar, não vai ser um cara que vai virar referência, porque ele vai ser uma pessoa que vai ser levado a sério no seu local de trabalho, vai ser levado a sério no seu local de moradia… Isso é uma forma. E esse material não tem em abundância. O governo pode explicar mais, a Fundação pode fazer isso e o partido também. 

Focus Brasil – Paulo, você veio do movimento sindical e ao longo do tempo atravessou muitas pautas, inclusive é hoje uma das principais vozes do debate do empreendedorismo no PT. Hoje, 6 milhões de brasileiros se consideram empresários, mesmo quem trabalha por conta própria. Como é que você acha que a gente pode dar um salto adiante nessa discussão? 

Paulo Okamotto – Eu defendo que o PT tem que ter como visão do mundo do trabalho, de quem é a classe trabalhadora, todas as pessoas que trabalham e vivem do seu trabalho. Então, se o cara é um pequeno empresário, ele vive do trabalho dele, para mim ele é um trabalhador. O mundo dos trabalhadores que defendo é das pessoas que vivem do seu trabalho. Você pode ser dentista, advogado, contador, cineasta, mas se você vive do seu trabalho, você é trabalhador. E nesse sentido, existem milhões de pessoas que estão no mundo do negócio, que vive do seu trabalho.  

Se o cara lá do bar parar de trabalhar, ele vai ter dificuldades. Se o cara que corta cabelo para de trabalhar, ele tem dificuldade. Só que ele tem que ter também um espírito empreendedor. Tem que resolver os seus problemas, ir à luta, se preparar, se organizar. O trabalhador não pode cair na ilusão de que vamos resolver tudo através do empreendedorismo. Não cabe todo mundo ser empreendedor. E muitas vezes vendemos a ilusão de que todo mundo pode ser empreendedor sem dar mais informação.  

O sistema capitalista que está aí não consegue resolver o problema de emprego decente e vende a ideia que o trabalhador tem que ser empreendedor, resolver por conta própria. E se ele não resolver, o problema é dele, ele é que é incapaz. A gente não pode defender isso.  

Temos que defender os empresários, os pequenos negócios – isso é legítimo, é bom. Mas também temos que levar informação e conhecimento de que tem muito empreendedor,num determinado território, com a mesma especialização de negócios, explorando o mesmo negócio, e que isso vai levar ao empobrecimento.  

Muita gente vai por esse caminho. Muita gente pega, perde a sua poupança, muita gente endividada, faz endividamento brutal para manter o seu negócio e, ao fim e ao cabo, não é nem ele que está mantendo o negócio, quem está mantendo o negócio é o Estado, porque ele deixa de pagar o FGTS, a Previdência, deixa de pagar os impostos. Ao fim e ao cabo, é o Estado que está apoiando a empresa dele.  

Temos que ter muita responsabilidade para defender que esses empresários são trabalhadores e como eles são trabalhadores, tem que levar conhecimento para que não sejam explorados. E nós do PT temos que ter essa opinião. Não é ser contra os empresários, é colocar os empresários na nossa pauta, na nossa preocupação. Aí acho que a coisa pode ficar interessante, as coisas vão começar a melhorar, porque vamos ter mais e melhores políticas para apoiar o empreendedorismo, que é importante.  

Gostaria que todo ano diminuísse o número de empresas e aumentasse o número de empresas que pudessem contratar mais gente, porque aí esse empresário ganharia mais dinheiro, os trabalhadores estariam trabalhando em melhores condições e o país estaria muito mais desenvolvido. 

Focus Brasil – Você participou de todas as campanhas do Lula desde 1982. Você avalia que essa candidatura de 2026 terá a mesma polarização de 2022? Ou acha que pelo fato de o Lula estar no governo e ter realizado muita coisa o caminho estaria mais ou menos aplainado para vitória nas eleições? 

Paulo Okamotto – Estamos no rumo certo, Lula está indo bem. Ele havia se comprometido a reconstruir todas as políticas que foram retiradas pelo governo passado – um retrocesso muito grande. E ele fez isso. Aliás, inovou em alguns. Só que daqui para frente vamos ter que fazer essa disputa. A disputa com aqueles que defendem que o Estado é muito grande, que defendem que não pode gastar tanto com os pobres… Vamos pegar uma outra parcela de trabalhadores e de pessoas que não vê nas nossas políticas o que é que ele está ganhando com isso. Isso aí é uma incapacidade que temos, porque quando aumenta o salário mínimo, não é só quem está recebendo salário mínimo que tem vantagem. Empresários terão vantagem, a sociedade, quem trabalha no comércio. É bom para todo mundo, porque ter mais dinheiro em circulação, cria mais oportunidades.Todo mundo pode crescer. Mas essa discussão a gente não faz. Se a gente não se preocupar em criar uma narrativa nova, capaz de dialogar com esse setor, mostrando a necessidade de desenvolver mais o país, vamos errar, não adianta só falar de distribuição de políticas públicas. Mas precisamos desenvolver mais, criar novos empregos, novas indústrias, para poder competir no mundo e conseguir desenvolver, incorporar no mundo do trabalho os nossos jovens que estão saindo da universidade. Todo mundo saindo e quer ganhar dinheiro e o país precisa estar mais desenvolvido. 

O PT precisa trabalhar daqui para frente um projeto muito forte de desenvolvimento. E tem que ganhar muita gente para esse projeto para sermos os defensores dessa política. Aí vamos deixar a direita acuada, porque a saída pela direita é uma saída muito mentirosa, é uma saída fácil e a gente precisa desarmar isso.  

Não pode ser a saída não recolher imposto, empreendedorismo, a família, tradição, família, e Deus. Família, Deus, tradição são importantes conceitos, mas não pode ser só isso e é isso que eles oferecem. A situação no mundo é mais complexa e a gente vai ter que construir soluções mais complexas. Mas dando de barato que já fizemos muita coisa para as pessoas que precisavam, para as que precisam continuar melhorando de vida. É preciso conversar agora com uma parcela que não percebe ainda o que é que ele está ganhando.  

Focus Brasil – As pesquisas realizadas pela Fundação nos últimos anos revelaram dados importantes sobre trabalho, mulheres, meio ambiente e outros temas centrais. Quais resultados mais te chamaram atenção e como essas pesquisas ajudam a orientar as políticas do partido e a disputa eleitoral de 2026? 

Paulo Okamotto – A pesquisas são muito importantes para nós, porque dão algumas dicas sobre o que pensa o povo ou a comunidade pesquisada. E essas dicas são importantes para a gente reformular nosso discurso, as nossas políticas. E fazer com que a gente possa, de alguma forma, ter um discurso que seja melhor entendido pelo povo. 

Essas pesquisas buscam isso, não é só uma questão eleitoral. Temos um péssimo hábito de muitas vezes nos preocupar com pesquisas, de saber se a gente está na frente ou atrás. Acredito que as pesquisas sejam mais do que isso. São um investimento muito importante para a gente conhecer, naquele momento, sobre o espírito do povo, o que ele está pensando sobre determinado assunto. 

Por exemplo, uma pesquisa que sempre gostei de saber: por que o Lula às vezes tem 60, 70% no estado, 30, 20, 25% no município, e a gente não consegue eleger um vereador? E aí acho que houve alguma resposta interessante que o partido pode aproveitar: mostra o eleitor que até quer votar no PT, ele até é petista. Só que tem um problema: ele diz que não conhece ninguém do PT para votar.  

Essa é uma dica importante, mas se tiver consequência. Como que a gente vai fazer para ter gente mais conhecida? Como é que a gente vai fazer para ter gente com mais respeitabilidade? Esse é um problema de organização. Não é um problema só eleitoral. Como sou uma pessoa que leio muitas pesquisas há muitos anos, confesso a você que não tive grandes surpresas. Mas essa é uma coisa importante.  

O mundo do trabalho também é muito importante, porque muitas vezes a gente tem uma visão do trabalhador de aplicativo pejorativa. As pessoas os chamam de precarizados… E vamos combinar? O cara que trabalha para sustentar a sua família, às vezes tem grana até melhor do que o outro companheiro, você o chamar de precarizado não me parece que é uma boa estratégia. Você não o reconhece, por que ele vai ter que te reconhecer?  

A pesquisa tem esse papel de fazer com que a gente tenha mais informações pra mudar o nosso discurso, mudar a nossa prática. Mesmo no mundo evangélico, temos quealertar o pessoal. Ora, você falar que o evangélico é manipulado pelo pastor não ajuda muito você conversar com ele. Se você não comunga com essa ideia, tem que respeitar quem comunga. 

A própria questão da segurança pública, tem informações importantes para a gente saber como tratar. Há uma visão sobre o que a população pensa sobre Direitos Humanos, e o que a esquerda pensa. A visão que muita gente tem de Direitos Humanos é de que o PT defende bandido, e que o PT passa a mão na cabeça de bandido.  

Então, se a gente tem essa leitura, que a nossa pesquisa mostra, a gente tem condições de alterar o nosso comportamento e fazer com que o tema dos Direitos Humanos sejaconhecido na prática. Do respeito às pessoas. O direito à saúde, à educação, à cultura, ao transporte. Isso é direito humano. Ser tratado com dignidade e com igualdade. Em vez de brigar, talvez seja melhor falar o que quer o direito humano de uma outra forma. 

E assim seguem as pesquisas. Servem para isso, para você melhorar a sua capacidade de argumentação, sem renunciar aos seus princípios. Ninguém vai desistir, esquecer. Tem que manter os princípios, mas descobrir como ser mais eficiente no convencimento político para construir uma sociedade mais firme, uma sociedade ideologicamente melhor e a gente ter, portanto, um país melhor.  

Focus Brasil – Ao longo de todas as campanhas presidenciais desde 2002, você atuou tanto em disputas com o PT fora do governo quanto em campanhas de reeleição. O que é mais desafiador para o militante: defender um projeto quando o partido está fora do governo ou sustentar uma candidatura estando no governo, tendo que prestar contas e projetar o futuro? 

Paulo Okamotto – Depende. Se você estiver bem na fita, então você faz uma campanha que defende o legado, que muita gente já reconhece, e faz propostas de melhora, de aperfeiçoamento, de futuro – que eu acho que vai ser o nosso caso. Se você está mal na fita, aí você está com problemas, porque vai ter que explicar o seu legado e depois ainda oferecer as propostas.  

O partido precisa trabalhar, desde já, com essa capacidade de explicar o que conquistamos, que foi muita coisa. O país cresceu, diminuiu o número de desempregados, diminuiu a desigualdade. Mas a gente não está tendo essa capacidade de explicar para a maioria da população os nossos legados.  

Temos condições de fazer isso, porque existe, é real, aconteceu. Só que vamos ter que chamar atenção, porque ainda tem muitos que não gostam da gente. Precisamos entender o porquê e abrir a capacidade de dialogar com esse pessoal. E oferecer um futuro – um futuro que encante, no qual as pessoas acreditem e desejem. E é possível fazer, porque há credibilidade para isso. Nesse caso do Lula, se ele for candidato, tem credibilidade porque ele fez, está fazendo – e se ele foi eleito, fará de novo. 

Focus Brasil – Paulo, você encerra esse mandato de três anos na presidência da FPA. Como gostaria que o seu mandato fosse lembrado?   

Paulo Okamotto – Depois de três anos, na verdade, estou renunciando ao meu mandato. Tenho mandato até 2028 e estou abrindo mão. E por que é que eu estou abrindo mão no meu mandato pelo instrumento da renúncia? Por tudo que falo, tudo que digo, penso que o partido precisa se perfeiçoar cada vez mais.  

Como o partido atravessou um processo de renovação da direção – que eu espero que não seja só uma renovação de nomes e cargos -, mas para ter mais resultados, precisa ter uma renovação também de práticas, de atitudes, de comportamento, além da questão programática.  

Como defendo que precisamos mudar o sistema do partido funcionar, discutir o papel dos setoriais e das secretarias, como o partido funciona para aumentar a sua capacidade de direção, de análise da sociedade, acho que a Fundação também tem esse papel.  

Nós, da Fundação, temos que discutir o que pode ser, o que deve ser a presidência da FPA. E acho que quem tem que fazer isso não sou eu. Defendo que o partido tenha essa opinião sobre como deve ser a Fundação ou a sua presidência. E é por isso que estou renunciando, porque acho que tem que abrir a presidência para os dirigentes nacionais do partido discutirem. Precisam avaliar se está bom, se não está bom, se vamos colocar A, B ou C e esperamos tais e quais coisas da Fundação. Então, só por isso que renunciei.  

Acho a Fundação Perseu Abramo fantástica. Nunca tive problema na Fundação. O apoio da diretoria foi o máximo possível, dentro dos limites que estão colocados. Não tenho problema com diretores, com funcionários. Tenho problema com as coisas que eu defendo.  

Defendo que o partido tem que inovar. O partido tem que fazer coisa disruptiva, não pode se acomodar. O partido, em algumas coisas, retrocedeu em termos de organização. Acho que está na hora de discutir de novo. A forma que a gente dirige o partido é legal? O diretório que a gente tem é bacana? A Executiva no tamanho que é ajuda no processo decisório? Os processos decisórios que a gente toma, o partido todo toma em conjunto? Quando a gente dá uma ordem, o partido todo absorve e faz?   

Quero, com a minha renúncia, abrir a oportunidade para o partido discutir qual é o papel de um presidente de uma fundação para o que o PT espera. Se eu ficar aqui, provavelmente ninguém vai discutir nada, vai achar que está bom. É preciso ressaltar que pode melhorar. É por isso que eu renunciei. 

Focus Brasil – Retornando à conjuntura, quais serão, na sua opinião, os grandes temas de disputa e mais desafiadores no ano eleitoral deste 2026 para o PT? 

Paulo Okamotto – O que pode encantar, e espero que a gente leve em consideração, é que há uma certa desilusão, ou há uma grande desilusão sobre o chamado sistema. É uma desilusão com o Congresso? Também é. É uma desilusão com o Judiciário? Também. É uma desilusão com o governo? Também. Mas é uma desilusão com essa vida que as pessoas estão levando. Com o futuro que essas pessoas que trabalham, que estão estudando, estão enxergando. Teremos que abordar isso. Como é que a gente vai mexer e criar, de novo, encantamento, perspectiva de futuro para essas pessoas? 

É um problema que considero econômico. Quando as pessoas estão preocupadas com segurança, estão preocupadas porque não querem ser roubadas, porque querem poder trabalhar. Querem ter a segurança porque querem ter futuro. Então, não é segurança, só de não ser machucado, mas uma segurança geral. “Olha, eu estou trabalhando e tenho a segurança que eu vou me dar bem na vida”. Sempre tem um desdobramento econômico, na minha opinião.  

Convenhamos, a pessoa que ganha 30, 40 mil reais nesse país, não está preocupada com muita coisa. Não está preocupada com convênio médico, com acesso à cultura, educação, nada.  Eu frequento, às vezes, alguns restaurantes, viajo muito, estou sempre nas estradas, e o país é bom se você ganha aquilo que é necessário. Se você tem dinheiro, é uma maravilha.  

Precisamos levar essa perspectiva para milhões e milhões de brasileiros, criar um país onde haja distribuição de renda, combate à desigualdade, um país mais seguro. Com isso, vamos dialogar com o povo e criar esperança para os próximos anos.