Artista visual e grafiteiro da Baixada Fluminense, Ramon Lid inaugura seu primeiro mural em São Paulo e traduz, em grandes dimensões, memória, identidade e referências da arte negra

Ramon Lid traduz estética das periferias em obras referenciadas na arte negra
Arquivo pessoal

Artista visual e grafiteiro, Ramon Lid acaba de inaugurar seu primeiro mural na capital paulista. Intitulada A Criança que Brincava com o Tempo, quase todo o tempo, a obra ocupa a área externa do Centro de Formação Cultural Cidade Tiradentes (CFCCT), no extremo leste de São Paulo, e marca um novo momento na trajetória do artista.

Nascido em São João do Meriti, na Baixada Fluminense, e morador da Zona Norte do Rio de Janeiro desde 2018, Ramon Lid construiu sua linguagem artística a partir das vivências nas periferias e do diálogo permanente com a arte negra. Com 438 metros quadrados, o mural foi realizado com a assistência dos artistas Cety Soledad, Rote e Rasmok, além da produção de Juliane Barreto e do Acervo das Anjas.

As referências que atravessam a obra dialogam diretamente com a infância do artista e com a ausência de representações negras nos espaços de formação estética. “Sempre crio personagens pretos, pois quando a gente cresce sem referências não tem aceitação”, afirma. 

A arte como consciência

Segundo Ramon, foi o graffiti que despertou sua consciência racial e social. “Essa consciência foi o graffiti que me trouxe. Nina Simone tem uma frase que diz que o papel do artista é justamente dialogar com o seu tempo. Então, no presente, é preciso reverenciar as pessoas que fizeram tantos trabalhos de luta e abriram caminhos.”

Entre as influências decisivas de sua trajetória, Ramon destaca a capa do álbum Lado A e Lado B, do grupo O Rappa, criada pelo artista estadunidense Doze Green, que teve passagem pelo Rio de Janeiro. “Ele me influenciou muito, inclusive na forma que pinto hoje, contando narrativas”, diz. O repertório visual do artista também dialoga com nomes como Erko, Treco, Redley, Gilzin, Carlos Bobi, Márcio Bunnys, Marcelo Ment e Davi Baltar.

Com mais de 20 murais espalhados pelo Rio de Janeiro e outras cidades, Ramon Lid também se especializou na pintura de telas e já participou de 11 exposições, entre individuais e coletivas. 

Seu primeiro contato com o spray ocorreu em 2002, em uma breve experiência com a pichação. Desde então, sua produção passou a retratar o cotidiano a partir de diferentes perspectivas do cenário fluminense e das questões socioculturais que o atravessam. O próprio artista define esse conjunto como “crônicas visuais”, em que elementos comuns ganham escala e densidade simbólica.

O interesse pelo desenho surgiu cedo. Aos dez anos, Ramon teve o primeiro contato com uma exposição de arte, quando conheceu obras de Salvador Dalí, no Rio de Janeiro. Pouco depois, aos 13, o graffiti passou a ocupar o centro de suas inquietações. Curioso e ainda tímido, ele buscava entender como os murais eram feitos, observando de perto os artistas mais velhos.

“Os garotos que conheci na época tinham de dezoito para dezenove anos, e eu sempre estava correndo atrás para saber o que era aquilo”, lembra.

 “Paralelamente, já sentia a interferência das ruas por onde eu passava no trajeto para a casa do meu irmão, em Niterói, onde havia várias vertentes do graffiti.” 

Segundo ele, o processo de aprendizado foi marcado pela observação atenta. “Buscava entender que universo era aquele, como era o desenvolvimento do desenho e como passavam para a parede. E, quando finalmente conheci um artista, consegui ver o processo todo, desde o esboço até a pintura.”