O mundo segundo Trump: humilhação europeia, resistência chinesa e ameaça na América Latina
Entre acordos impostos, resistência estratégica e ameaças à soberania regional, a política externa de Trump redefine relações globais e amplia tensões no Sul global, por Giorgio Romano Schutte

Por mais que tentemos, é impossível não colocar justamente a pessoa que adora estar no centro das atenções no centro desta breve análise: Donald Trump, que entrou na presidência em 20 de janeiro deste ano.
\Ele assume, com todas as letras, que o multilateralismo não serve mais aos interesses estratégicos dos EUA e que a defesa dos interesses da plutocracia e das big techs estadunidenses pode e deve ser feita unilateralmente, com ameaças e grande demonstração de força. Para muitos analistas, isso seria a expressão de um império em decadência, que perdeu sua capacidade de liderar, e de que as tentativas de usar a arma do dólar e as sanções apenas reforçariam forças antagônicas e a busca por um mundo pós-hegemonia dos EUA. Pode ser que seja isso, mas há muito do chamado wishful thinking (raciocínio baseado em desejos). O que assistimos foi uma demonstração de força que, isso sim, encontrou seus limites, sobretudo diante de uma China que havia se preparado com base na experiência do primeiro governo Trump (2017–2021).
Certamente, Trump não inventou a crise do multilateralismo nem a resistência do Ocidente às tentativas de reforma de suas instituições, como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio (OMC). Muitas políticas, embora agora radicalizadas, já estavam em curso, como, por exemplo, a deportação de migrantes não documentados ou o apoio incondicional às atrocidades cometidas pelo governo de Israel contra o povo palestino. Mas ele saiu da aparente defensiva para uma postura agressiva, tensionando as relações internacionais de forma bastante inusitada e obrigando todos os demais atores, países e empresas, a se (re)posicionarem.
Uma grande vantagem dos EUA é a capacidade de impor sua vontade por meio de relações bilaterais, gerando inclusive uma competição entre países para agradar não apenas os EUA, como país, mas Trump, em particular, em cenas absolutamente constrangedoras de submissão e bajulação, que, aliás, nem sempre geram o resultado esperado, como o primeiro-ministro Narendra Modi, da Índia, e as lideranças europeias logo perceberam.
Duas economias estavam em condições de reagir com força às imposições unilaterais do governo Trump: a chinesa e a europeia. A primeira havia se preparado e reagiu; a segunda até tentou ensaiar uma resposta, mas acabou optando por aceitar um acordo humilhante. Vale lembrar que a União Europeia havia aprovado o Instrumento Anticoerção (ACI, na sigla em inglês) como um novo mecanismo jurídico de defesa comercial e geopolítica, disponível desde o ano passado. Caso a coerção não cessasse por meios diplomáticos, a nova lei autoriza a UE a impor tarifas punitivas, restrições a importações ou exportações, limitações a investimentos, barreiras ao acesso a mercados públicos, restrições à propriedade intelectual e controles financeiros. Ou seja, não faltavam possibilidades de contramedidas, mas houve dois fatores que facilitaram a vida de Trump: a falta de consenso interno na UE para medidas mais duras e a noção de que, em última instância, a Europa precisaria dos EUA para se defender do que é percebido como ameaça militar russa.
Assim, os EUA conseguiram, em agosto, impor, sem resistência, a eliminação das tarifas alfandegárias sobre importações de vários produtos industriais dos EUA, uma tarifa linear de 15% sobre todas as exportações europeias para o mercado estadunidense, o compromisso de comprar US$ 750 bilhões em gás liquefeito, petróleo e energia nuclear produzidos nos EUA, o compromisso de investir US$ 600 bilhões, até 2028, nos EUA, além de não taxar redes sociais americanas, mantendo-se, ainda, a tarifa de 50% sobre aço e alumínio. Vale lembrar que Trump já havia imposto, no âmbito da Otan, a meta de 5% do PIB para gastos militares, o que resulta, na prática, em um expressivo aumento das importações de equipamentos militares dos EUA. Mesmo assim, os países europeus foram praticamente marginalizados das negociações sobre o futuro da Ucrânia.
Como se essa humilhação não fosse suficiente, a nova Estratégia de Segurança Nacional (NSS, na sigla em inglês) dos EUA, lançada no início de dezembro, caracteriza a Europa como um continente em decadência, utilizando os argumentos explicativas da extrema direita: excesso de migração descontrolada, políticas de transição energética e a burocracia da Comissão Europeia. O documento explicita, na maior cara de pau, que apoiará “a resistência à trajetória atual da Europa dentro das nações europeias”.
Por outro lado, os EUA encontraram seus limites na resposta chinesa. Além de reagir imediatamente às tarifas e sanções contra empresas estadunidenses, a China utilizou seu domínio sobre a mineração e o processamento de minerais críticos e estratégicos, entre eles as terras raras, para forçar os EUA a sentar-se à mesa em condições de respeito mútuo. A explosão da demanda por esses minerais decorre de seu uso na transição energética e na eletrificação, algo que não deve preocupar Trump, mas esses mesmos minerais são essenciais também para o avanço da digitalização, incluindo a IA, os data centers e os equipamentos militares. O símbolo dessa estratégia foi a interrupção do fornecimento de algumas terras raras, que provocou graves problemas na produção e na manutenção dos caças F-35.
A China aprofunda também sua busca por autossuficiência, em particular, mas não apenas, no que diz respeito aos microprocessadores. Em outubro, o Partido Comunista Chinês (PCCh) publicou as diretrizes para o 15º Plano Quinquenal (2026–2030), nas quais afirma que irá redobrar os esforços para desenvolver indústrias emergentes estratégicas, modernizar as indústrias tradicionais e assegurar que as cadeias industriais da China se tornem mais autossuficientes e resilientes a riscos.
E a América Latina?
Para os demais países, em especial no Sul global, percebe-se uma busca individual por algum tipo de convivência com o novo ambiente geopolítico. No caso da América Latina, o governo Trump iniciou seu mandato renomeando o Golfo do México como Golfo da América e terminou o ano falando em “nosso Hemisfério Ocidental”, anunciando o “Corolário Trump” à Doutrina Monroe, em referência ao Corolário Roosevelt do início do século XX, que justificava na época as intervenções militares no continente. A Estratégia de Segurança Nacional afirma que o Hemisfério Ocidental abriga muitos recursos estratégicos que os Estados Unidos devem desenvolver em parceria com aliados regionais e anuncia que o Conselho de Segurança Nacional iniciará imediatamente um “robusto processo interagências para encarregar órgãos, apoiados pelo braço analítico da Comunidade de Inteligência, de identificar pontos e recursos estratégicos”, em particular minerais críticos.
Há uma política declarada de reduzir a presença chinesa na América Latina, que já se fez sentir no Panamá e na Argentina, entre outros países. E, apesar das declarações de solidariedade da China e da Rússia, o governo Trump avança com sua política de desestabilização dos governos da Venezuela e de Cuba.
A liderança de Lula conseguiu, por ora, neutralizar a truculência de Trump no que diz respeito ao Brasil, mas o ano termina com enormes desafios para a e defesa da soberania região, o que aumenta ainda mais o significado das eleições presidenciais de outubro.
Giorgio Romano Schutte, Coordenador da Pós-Graduação em Relações Internacionais da UFABC e membro do Observatório da Política Externe da Inserção Internacional do Brasil (OPEB).



