Ana Maria Gonçalves é eleita para a ABL e quebra um silêncio de 128 anos
Autora de “Um Defeito de Cor” (Ed. Record) rompe barreiras históricas e se torna a primeira mulher negra a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras

A eleição de Ana Maria Gonçalves para a cadeira 33 da Academia Brasileira de Letras (ABL) marcou um momento histórico na literatura brasileira. Em julho de 2025, a escritora mineira foi escolhida com quase unanimidade — 30 dos 31 votos possíveis — tornando-se a primeira mulher negra a integrar a instituição fundada em 1897.
A posse aconteceu na última sexta-feira (7), em cerimônia que encheu de africanidades um lugar acostumado à branquitude. A ABL, em seus 128 anos de existência, jamais havia recebido uma mulher negra entre seus imortais.
A cerimônia aconteceu no tradicional Petit Trianon, sede da instituição no centro do Rio de Janeiro, e reuniu autoridades, artistas e acadêmicos em um evento que também marcou o aniversário da Casa. Ana Maria assumiu a cadeira 33, anteriormente ocupada pelo filólogo Evanildo Bechara, e foi recebida sob aplausos calorosos e emoção visível.
Uma nova imortal
O evento teve caráter simbólico desde os preparativos. O fardão usado por Ana Maria foi confeccionado por profissionais do barracão da escola de samba Portela, em uma parceria inédita entre a ABL e o carnaval carioca.
O traje destacou elementos da cultura afro-brasileira e referências ao romance Um Defeito de Cor (Ed. Record), principal obra da escritora. “Vestir esse fardão é vestir as histórias de todas as mulheres negras que me antecederam”, afirmou Ana Maria em seu discurso.
A acadêmica Lilia Schwarcz foi responsável pela saudação oficial, destacando a relevância da nova imortal.

“Esta noite é histórica. Ana Maria Gonçalves não entra sozinha — entra acompanhada das vozes e memórias que a literatura brasileira por muito tempo silenciou”, disse.
O colar da ABL foi entregue por Ana Maria Machado, e o diploma, por Gilberto Gil, que também destacou a importância do momento para a cultura nacional.
Transmitida ao vivo pelo canal da ABL, a cerimônia terminou com um jantar para 300 convidados, com cardápio inspirado na culinária africana. Do lado de fora, músicos da Portela conduziram uma celebração popular que simbolizou a mistura entre erudição e ancestralidade.
“Essa vitória não é apenas minha. É coletiva, e abre caminho para muitas outras”, concluiu Ana Maria Gonçalves, em um discurso que foi recebido de pé pelos presentes.
“Estou feliz esta noite, uma noite marcante não só para mim, mas para muita gente que tem expectativa sobre essa cadeira aqui”, completou a escritora.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva também celebrou a posse de Ana Maria na ABL.“A Academia Brasileira de Letras acertou em cheio ao eleger Ana Maria Gonçalves como sua nova imortal. Trata-se de uma homenagem merecida, de um justo reconhecimento a uma das melhores escritoras que temos hoje. Sua obra nos ajuda a compreender a história brasileira, infelizmente marcada pelas mazelas do racismo e da opressão. O livro Um Defeito de Cor foi meu companheiro durante o período em que estive injustamente preso… e sempre faço questão de recomendar a todos a sua leitura.”
Raízes e trajetória
Nascida em Ibiá, Minas Gerais, em 1970, Ana Maria Gonçalves começou a carreira como publicitária antes de se dedicar integralmente à literatura. Ao longo dos anos, tornou-se escritora, dramaturga, roteirista e professora de escrita criativa, além de participar ativamente de debates sobre cultura e identidade negra no Brasil.
Radicada na Bahia há quase duas décadas, ela também se destaca por sua atuação em projetos de valorização da memória afro-brasileira e na formação de novos autores.
Um Defeito de Cor e o resgate da história
Seu principal trabalho, o romance Um Defeito de Cor, publicado em 2006, é considerado uma das obras mais importantes da literatura contemporânea brasileira. Com quase mil páginas, o livro narra a trajetória de Kehinde, uma mulher africana escravizada que reconstrói sua vida no Brasil, abordando temas como escravidão, ancestralidade e resistência.
A obra venceu o Prêmio Casa de las Américas (2007), foi traduzida para o inglês e inspirou o enredo da escola de samba Portela no Carnaval de 2024. Mais recentemente, vem sendo adaptada para o cinema e para séries de TV, ampliando o alcance da autora entre novas gerações de leitores.
Um marco na representatividade literária
A eleição de Ana Maria Gonçalves é vista por críticos e colegas como um marco de representatividade e um passo necessário para democratizar os espaços de consagração literária no país.
“É com muito atraso que a Academia reconhece a importância das mulheres negras na formação da cultura brasileira”, afirmou a Fundação Pedro Calmon, em nota.
Além de ser a primeira mulher negra a integrar a ABL, Ana Maria é também a 13ª mulher na história da instituição. Sua presença promete trazer novos debates sobre identidade, diversidade e o papel da literatura na reconstrução da memória nacional.
“Assumo para mim como uma das missões promover a diversidade nessa casa e fazer avançar as coisas nas quais nela eu sempre critiquei, como a falta de diversidade na composição de seus membros, uma abertura maior para o público — o verdadeiro dono da língua que aqui cultivamos — e um maior empenho na divulgação e na promoção da literatura brasileira.”
Leia um trecho de Um Defeito de Cor
“Nasci em 1810, no reino do Daomé, hoje chamado Benim, e fui batizada de Kehinde. Não sei o dia exato, porque na minha terra o tempo era contado de outro modo. Mas lembro que o sol era forte e as mulheres da aldeia dançavam, celebrando a vida, quando minha mãe me deu à luz.
Fui trazida para o Brasil ainda criança, num navio negreiro abarrotado de corpos e silêncios. Lembro do cheiro do medo, da dor, e das vozes que rezavam em línguas que eu ainda não entendia. Quando desembarcamos, fui vendida como quem vende uma cabra ou um saco de milho. Aprendi cedo o preço do corpo e o valor da esperança.
Durante muito tempo acreditei que meu destino era sobreviver em silêncio. Mas as lembranças de minha mãe, a quem nunca mais vi, me empurravam para a vida. Diziam que dentro de cada um há uma semente que insiste em crescer, mesmo quando o mundo tenta pisoteá-la.
Escrevo agora para que saibam de mim, para que minha história não seja esquecida. Porque cada palavra é uma tentativa de voltar para casa. E talvez escrever seja a única forma de atravessar o tempo e reencontrar os que ficaram do outro lado do mar.”



