{"id":131135,"date":"2006-10-23T14:27:58","date_gmt":"2006-10-23T17:27:58","guid":{"rendered":"https:\/\/fpabramo.org.br\/a-direita-nao-tem-projeto-para-o-brasil\/"},"modified":"2026-03-14T21:25:00","modified_gmt":"2026-03-15T00:25:00","slug":"a-direita-nao-tem-projeto-para-o-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fpabramo.org.br\/es\/a-direita-nao-tem-projeto-para-o-brasil\/","title":{"rendered":"A direita n\u00e3o tem projeto para o Brasil"},"content":{"rendered":"<p><strong>por Pedro Cl\u00e1udio Cunca Bocayuva<\/strong><br \/>\nA tentativa de construir um cen\u00e1rio de degrada\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, com base nos erros dos aparelhistas e carreiristas que estreitavam os limites do projeto petista, fracassou. A estrat\u00e9gia de criminaliza\u00e7\u00e3o do governo Lula e do PT n\u00e3o conseguiu apagar os pequenos grandes avan\u00e7os de prioridades sociais e culturais realizados ao longo do quadri\u00eanio em curso. O uso da m\u00eddia como arma, as arma\u00e7\u00f5es e os erros acabaram por permitir um retorno do reprimido. As grandes maiorias populares querem avan\u00e7ar mais na dire\u00e7\u00e3o de conquistas de direitos sociais, econ\u00f4micos, culturais e ambientais e no acesso aos fundos e pol\u00edticas p\u00fablicas, com vistas a uma invers\u00e3o redistributiva.<br \/>\nA for\u00e7a das redes sociais e pol\u00edticas de resist\u00eancia democr\u00e1tica e popular conseguiu qualificar o debate \u00e9tico-pol\u00edtico na dire\u00e7\u00e3o da demanda por uma constru\u00e7\u00e3o substantiva da justi\u00e7a social. A id\u00e9ia de um Brasil para todas e todos come\u00e7ou a ganhar sentido, sem necessitar da pirotecnia dos marqueteiros e do manejo de verbas publicit\u00e1rias. O processo sustentado de transforma\u00e7\u00f5es capilares com seus efeitos sobre as prioridades do Estado brasileiro abriu as portas para avan\u00e7os. A interpreta\u00e7\u00e3o positiva das conquistas parciais permite vislumbrar avan\u00e7os futuros.<br \/>\nO efeito paradoxal de uma continuidade dos termos do contrato perverso do ajuste neoliberal combinado com o controle da infla\u00e7\u00e3o se fez acompanhar de uma l\u00f3gica alternativa de press\u00e3o distributiva. A direita ficou sem bandeira e n\u00e3o pode mais utilizar o Estado, o or\u00e7amento e os fundos p\u00fablicos numa perspectiva puramente concentradora. Seu horizonte de desestruturar a pol\u00edtica e a mobiliza\u00e7\u00e3o da sociedade atrav\u00e9s da alimenta\u00e7\u00e3o de um moralismo sect\u00e1rio e manipulador levou ao segundo turno. Mas acabou for\u00e7ando uma reflex\u00e3o sobre o conte\u00fado concreto das pol\u00edticas. O resgate da mem\u00f3ria pela a\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica da compara\u00e7\u00e3o com os anos FHC vem barrando uma solu\u00e7\u00e3o do tipo tapet\u00e3o e \u201cimpeachment\u201d, apesar dos esfor\u00e7os e das amea\u00e7as lacerdistas que ainda contaminam o ar da Rep\u00fablica.<br \/>\nA derrota parcial das oligarquias pefelistas, a divis\u00e3o do centro emedebista, e o desnudamento da face autorit\u00e1ria das elites paulistas do PSDB, mesmo com todo o apoio do \u201cpr\u00edncipe eletr\u00f4nico global\u201d e das artimanhas jur\u00eddicas, desnudaram a lacuna hist\u00f3rica do bloco do capitalismo dependente. Eles n\u00e3o tinham e n\u00e3o t\u00eam um projeto para o Brasil, s\u00e3o os respons\u00e1veis hist\u00f3ricos pela espolia\u00e7\u00e3o e a estrutura da corrup\u00e7\u00e3o, s\u00e3o os que recusam o corpo coletivo do povo. A cara do Brasil \u00e9 outra. Nossas cores s\u00e3o outras. Tentaram racializar-nos e desqualificar-nos a partir dos erros do governo, mas n\u00e3o est\u00e3o conseguindo continuar manipulando e perpetrando golpes.<br \/>\nA democracia avan\u00e7a como demanda de transforma\u00e7\u00f5es sociais mais amplas e profundas. O novo intento de manter a pol\u00edtica de contra-revolu\u00e7\u00e3o permanente n\u00e3o encontra eco e legitimidade numa sociedade que sabe apontar as ra\u00edzes da viol\u00eancia. O nome do crime \u00e9 genoc\u00eddio social, o respons\u00e1vel \u00e9 a desigualdade de classe, g\u00eanero, \u00e9tnico-racial e geracional.<br \/>\nO processo de transforma\u00e7\u00e3o cultural que come\u00e7ou a se entranhar no senso coletivo como valor da comum liberdade e da comum igualdade como condi\u00e7\u00e3o de constru\u00e7\u00e3o de uma nova civilidade, abre o caminho para os contornos de uma verdadeira Rep\u00fablica. O povo n\u00e3o parece assistir bestializado ao martelar dos fact\u00f3ides e das manipula\u00e7\u00f5es. O simulacro de pol\u00edtica permite que o processo de refunda\u00e7\u00e3o do PT se articule com esse desejo de avan\u00e7ar como condi\u00e7\u00e3o de supera\u00e7\u00e3o da morbidez pol\u00edtica, de crise do Congresso, de crise dos aparelhos de manipula\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica. Onde se evidencia a pseudo-neutralidade dos comentaristas e do saber das elites. O processo de constru\u00e7\u00e3o de uma outra opini\u00e3o se sustenta numa nova intelig\u00eancia coletiva que se ap\u00f3ia em mais renda, mais acesso e outras formas de cr\u00edtica e argumenta\u00e7\u00e3o. \u00c9 como se a rede da nova democracia brasileira j\u00e1 se desenhasse nas diferentes esferas antropol\u00f3gicas de constru\u00e7\u00e3o de um esbo\u00e7o de programa para a na\u00e7\u00e3o.<br \/>\nPor uma ironia da hist\u00f3ria o fracasso das elites s\u00f3 se acentuou com o fracasso da sua ret\u00f3rica e dos seus m\u00e9todos. Sem programa e sem projeto que n\u00e3o fosse a sua auto-reprodu\u00e7\u00e3o no poder v\u00e3o saindo pelo ralo as for\u00e7as do \u201cOrnitorrinco\u201d, dentro e fora do PT. Valeu, Refunda\u00e7\u00e3o petista. Falta pouco. Os pr\u00f3ximos golpes vir\u00e3o do poder mais intransparente e menos construtor da liberdade e da qualidade da informa\u00e7\u00e3o, como os complexos como Globo e Veja. Temos certeza que Brizola ficaria contente de ver o \u201cSapo Barbudo\u201d ganhar nas pesquisas encomendadas por eles e apesar deles. Embora os 20% de diferen\u00e7a n\u00e3o mere\u00e7am manchete para esses ve\u00edculos \u201cprofissionais e isentos\u201d (sic).<br \/>\nO fato \u00e9 que processo virou. O feiti\u00e7o se virou contra o feiticeiro. Come\u00e7amos a aprender que na modernidade da comunica\u00e7\u00e3o as redes horizontais fazem um outro processo de leitura pol\u00edtica. Como uma verdadeira esfera p\u00fablica, onde se trava um debate de mulheres e homens livres. Estamos construindo o debate e o balan\u00e7o cr\u00edtico do processo eleitoral baseado numa leitura onde o virtual se ancora no real. Onde o direito a uma constru\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o qualificada vira pot\u00eancia de transforma\u00e7\u00e3o, capacidade de julgamento e a\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia. Somos uma sociedade que se emancipa da fetichiza\u00e7\u00e3o da cultura e da pol\u00edtica espet\u00e1culo do consumo passivo. Agora, o sentido da pol\u00edtica ganhou express\u00e3o na forma da participa\u00e7\u00e3o ativa na constru\u00e7\u00e3o do direito a ter direito de fazermos nossas escolhas.<br \/>\nEssa elei\u00e7\u00e3o est\u00e1 despertando uma paix\u00e3o maior, a partir de um sofrimento maior, a partir de uma cr\u00edtica dura contra os riscos que o grupo dirigente do PT nos colocou. Mas um novo petismo ganha for\u00e7a e seu futuro depender\u00e1 da sua capacidade de liga\u00e7\u00e3o com as for\u00e7as liberadas pelos efeitos iniciais de mudan\u00e7as parciais. N\u00f3s podemos muito mais. Ousar lutar e ousar vencer.<br \/>\nEsse \u00e9 um manifesto panfleto pela for\u00e7a das redes eletr\u00f4nicas, dos movimentos sociais e dos militantes pol\u00edticos que sabem o que est\u00e1 em jogo no risco de retrocesso. No caminho tra\u00e7ado por Alckmin s\u00f3 poderemos acabar num Estado de exce\u00e7\u00e3o policial permanente, na reprodu\u00e7\u00e3o do pa\u00eds de enclaves e ilhas de riqueza nas m\u00e3os de poucos, cercadas por um enorme apartheid social, racial, territorial, delirantemente submetido ao globalismo servil no interior do Imp\u00e9rio.<br \/>\n<strong><br \/>\n*Pedro Cl\u00e1udio Cunca Bocayuva<\/strong> \u00e9 doutor em Planejamento Urbano e Regional (IPPUR-UFRJ) e membro do n\u00facleo Eder Sader do PT-RJ<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Pedro Cl\u00e1udio Cunca Bocayuva A tentativa de construir um cen\u00e1rio de degrada\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, com base nos erros dos aparelhistas e carreiristas que estreitavam os limites do projeto petista, fracassou. 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