{"id":131374,"date":"2025-12-09T11:26:07","date_gmt":"2025-12-09T14:26:07","guid":{"rendered":"https:\/\/fpabramo.org.br\/lancamento-nucleo-de-relacoes-internacionais-e-soberania-marco-aurelio-garcia-pt\/"},"modified":"2026-08-25T18:59:36","modified_gmt":"2026-08-25T21:59:36","slug":"lancamento-nucleo-de-relacoes-internacionais-e-soberania-marco-aurelio-garcia-pt","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fpabramo.org.br\/en\/lancamento-nucleo-de-relacoes-internacionais-e-soberania-marco-aurelio-garcia-pt\/","title":{"rendered":"Lan\u00e7amento: N\u00facleo de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais e Soberania &#8211; Marco Aur\u00e9lio Garcia. PT"},"content":{"rendered":"\n<p>Convidamos a todas e todos para o lan\u00e7amento do N\u00facleo de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais e Soberania &#8211; Marco Aur\u00e9lio Garcia, do Partido dos Trabalhadores.<\/p>\n\n\n<p>Dia 11 de dezembro de 2025, 18h<\/p>\n\n\n<p>Local: Audit\u00f3rio do Diret\u00f3rio Nacional do PT<\/p>\n\n\n<p>Como contribui\u00e7\u00e3o reproduzimos um texto sobre Marco Aur\u00e9lio Garcia<br><br><strong>MARCO AUR\u00c9LIO GARCIA VIDA E OBRA<\/strong><\/p>\n\n\n<p><em>O texto abaixo \u00e9 uma vers\u00e3o revista e atualizada do texto de Valter Pomar feito para a aula-debate sobre a vida e a obra de Marco Aur\u00e9lio Garcia. Participaram da aula-debate, al\u00e9m de v\u00e1rias pessoas convidadas e do corpo discente, a professora Maria Carlotto e o professor Victor Marques.<\/em><\/p>\n\n\n<p>Marco Aur\u00e9lio Garcia (22\/6\/1941-20\/7\/2017) foi &#8211; junto com Celso Amorim, Samuel Pinheiro Guimar\u00e3es, Lu\u00eds In\u00e1cio Lula da Silva e Dilma Rousseff &#8211; um dos principais formuladores e executores da pol\u00edtica externa conhecida como &#8220;altiva e ativa&#8221;.<\/p>\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, MAG foi protagonista do debate sobre as tentativas de constru\u00e7\u00e3o do socialismo no s\u00e9culo XX e XXI e, tamb\u00e9m, do debate sobre a estrat\u00e9gia da esquerda brasileira.<\/p>\n\n\n<p>MAG faleceu pouco depois de completar 76 anos, no dia 20 de julho de 2017, h\u00e1 exatos quatro anos, v\u00edtima de um infarto fulminante que o surpreendeu em seu apartamento na Pra\u00e7a da Rep\u00fablica, no centro de S\u00e3o Paulo capital.<\/p>\n\n\n<p>Para marcar a data, o professor Victor Marques e a professora Maria Carlotto tiveram a ideia de realizar exatamente no dia de hoje uma atividade uma homenagem a este brasileiro ilustre, como se diria noutros tempos.<\/p>\n\n\n<p>Entre as alternativas poss\u00edveis, optamos por fazer isto atrav\u00e9s de uma aula-debate na disciplina intitulada \u201cAm\u00e9rica Latina e Caribe: Inser\u00e7\u00e3o Mundial e Trajet\u00f3rias\u201d, do programa de p\u00f3s gradua\u00e7\u00e3o em Economia Pol\u00edtica Mundial da Universidade Federal do ABC.<\/p>\n\n\n<p>Primeiro, porque a vida e a obra de MAG t\u00eam rela\u00e7\u00e3o direta com os temas abordados nesta disciplina: os dilemas do mundo, da Am\u00e9rica Latina e Caribe, mas especialmente do Brasil nesse momento t\u00e3o especial e t\u00e3o dif\u00edcil da vida nacional. [Outros aspectos de sua trajet\u00f3ria, que certamente tamb\u00e9m merecem an\u00e1lise, com destaque para seu artesanato gastron\u00f4mico, ultrapassam os limites desta disciplina].<\/p>\n\n\n<p>E nada melhor do que uma aula &#8211; em uma universidade p\u00fablica &#8211; para debater a vida e a obra de algu\u00e9m que tinha orgulho de ser um \u201cprofessor\u201d.<\/p>\n\n\n<p>Como professor respons\u00e1vel por ministrar a disciplina \u201cAm\u00e9rica Latina&#8230;\u201d neste segundo quadrimestre de 2021, me coube abrir a aula-debate. Para tal, al\u00e9m da mem\u00f3ria e do meu arquivo pessoal, contei com as seguintes fontes:<\/p>\n\n\n<p>*a \u201cCole\u00e7\u00e3o MAG\u201d, composta at\u00e9 agora por tr\u00eas volumes:\u00a0<em><a href=\"https:\/\/fpabramo.org.br\/livro\/a-opcao-sul-americana-reflexoes-sobre-a-politica-externa-2003-2016\/\">A Op\u00e7\u00e3o Sul-Americana<\/a><\/em>,\u00a0<em><a href=\"https:\/\/fpabramo.org.br\/livro\/construir-o-amanha-reflexoes-sobre-a-esquerda-1983-2017\/\">Construir o Amanh\u00e3<\/a><\/em>\u00a0e\u00a0<em><a href=\"https:\/\/fpabramo.org.br\/livro\/notas-para-uma-historia-dos-trabalhadores-contribuicao-a-historia-da-esquerda-brasileira-e-outros-escritos\/\">Notas para Uma Hist\u00f3ria dos Trabalhadores<\/a><\/em>. A organiza\u00e7\u00e3o destes volumes foi feita por Bruno Gaspar, Rose Spina e Dainis Karepovs. Os tr\u00eas livros est\u00e3o dispon\u00edveis gratuitamente para download. A cole\u00e7\u00e3o foi edita sob o patroc\u00ednio da Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo e do Instituto Futuro &#8211; Marco Aur\u00e9lio Garcia.<\/p>\n\n\n<p>*o dossi\u00ea publicado pela revista\u00a0<em>Teoria e Debate<\/em>, com artigos entre outros de\u00a0<em>Monica Hirst<\/em><strong><em>,\u00a0<\/em><\/strong><em>Maria Regina Soares de Lima, Andr\u00e9 Singer, Marcelo Ridenti, Jorge Mattoso, Mart\u00edn Granovsky e Walnice Nogueira Galv\u00e3o.<\/em><\/p>\n\n\n<p>*a entrevista feita pelos professores\u00a0Alexandre\u00a0Fortes, do Instituto Multidisciplinar da UFRRJ, e\u00a0Paulo Fontes, do Instituto de Hist\u00f3ria da UFRJ. A entrevista foi publicada originalmente em\u00a0<a href=\"https:\/\/lehmt.org\/contribuicao-especial-21-celebrando-marco-aurelio-garcia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Laborat\u00f3rio de Estudos de Hist\u00f3ria dos Mundos do Trabalho (LEHMT)<\/a>\u00a0da UFRJ.<\/p>\n\n\n<p>Come\u00e7o exatamente citando os professores Alexandre Fortes e Paulo Fontes:<\/p>\n\n\n<p>\u201cMarco Aur\u00e9lio Garcia, o MAG, como era conhecido, nasceu em 22 de junho de 1941. Militante do movimento estudantil, aderiu ao Partido Comunista do Brasil (PCB) no final dos anos 1950. Foi vice-presidente da Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes entre 1961 e 62. Ap\u00f3s o golpe de 1964, aderiu \u00e0 Dissid\u00eancia do Partido Comunista no Rio Grande do Sul e, em seguida foi um dos fundadores do POC (Partido Oper\u00e1rio Comunista). Em 1967, ele e a soci\u00f3loga Elizabeth Lobo, com quem era casado, partiram para a Fran\u00e7a. Chegaram a voltar para o Brasil e depois foram para o Chile durante o governo da Unidade Popular liderado por Salvador Allende. Com o golpe de 1973, exilaram-se definitivamente na Fran\u00e7a, onde completaram sua forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica\u201d.<\/p>\n\n\n<p>De volta ao Brasil, depois da Anistia de 1979, MAG trabalhou profissionalmente como professor, tendo sido parte do Departamento de Hist\u00f3ria da Universidade de Campinas e um dos criadores do Arquivo Edgar Leuenroth.<\/p>\n\n\n<p>Conforme nos lembra Cl\u00e1udio Batalha, MAG \u201cfoi um dos iniciadores do GT \u201cPartidos e Movimentos de Esquerda\u201d junto \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o Nacional de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o e Pesquisa em Ci\u00eancias Sociais (ANPOCS), junto com outros pesquisadores como Jo\u00e3o Quartim de Moraes e Daniel Aar\u00e3o Reis Filho. No \u00e2mbito desse GT foi retomada a ideia de elaborar a hist\u00f3ria da esquerda no Brasil, que depois foi mudada para uma hist\u00f3ria do marxismo no Brasil, dando origem \u00e0 publica\u00e7\u00e3o da cole\u00e7\u00e3o hom\u00f4nima de seis volumes a partir de 1991. Na qual, paradoxalmente, Marco Aur\u00e9lio Garcia nunca chegou a escrever, possivelmente porque essa publica\u00e7\u00e3o coincidiu com o per\u00edodo em que assumiu a Secretaria de Cultura de Campinas na gest\u00e3o de Jac\u00f3 Bittar e depois desempenhou fun\u00e7\u00f5es de crescente responsabilidade no PT, resultando no seu crescente afastamento da vida acad\u00eamica\u201d.<\/p>\n\n\n<p>Vale dizer que seu envolvimento com a vida partid\u00e1ria n\u00e3o o afastou das preocupa\u00e7\u00f5es ditas \u201cacad\u00eamicas\u201d. Como prova disso, Batalha lembra que \u201cem 1997, dentro da Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo, [MAG estruturou] o Projeto Mem\u00f3ria e Hist\u00f3ria do PT, o qual, em 2011, se transformou no Centro S\u00e9rgio Buarque de Holanda, institui\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel pela preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria do partido\u201d.<\/p>\n\n\n<p>Voltando aos anos oitenta: como tantos outros que regressaram do ex\u00edlio, MAG manteve intensa atividade pol\u00edtica. Destaco sua participa\u00e7\u00e3o, com Eder Sader e outros, na cria\u00e7\u00e3o da revista\u00a0<em>Desvios<\/em>\u00a0e , claro, sua milit\u00e2ncia no ent\u00e3o rec\u00e9m-criado Partido dos Trabalhadores, em cuja dire\u00e7\u00e3o nacional chegou a ser presidente nacional (em 2006), al\u00e9m de por muitos anos ter sido membro da comiss\u00e3o executiva nacional, vice-presidente e, com destaque, secret\u00e1rio de rela\u00e7\u00f5es internacionais.<\/p>\n\n\n<p>MAG tamb\u00e9m foi secret\u00e1rio de Cultura de Campinas (1989-1990) \u2013 quando se criou a revista\u00a0<em>Trabalhadores<\/em>\u00a0-e depois encabe\u00e7ou a secretaria de Cultura de S\u00e3o Paulo capital (2001-2002).<\/p>\n\n\n<p>Entretanto, a partir dos anos 1990, a atividade pol\u00edtica de MAG foi se concentrando nas rela\u00e7\u00f5es internacionais do PT e na pol\u00edtica externa do Brasil.<\/p>\n\n\n<p>Lembro que ele foi um dos fundadores, em 1990, do Foro de S\u00e3o Paulo; e que foi de 2003 a 2016 Assessor-Chefe da Assessoria Especial para Assuntos Internacionais da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica.<\/p>\n\n\n<p>Tanto na SRI quando na PR, MAG contou com um conjunto de colaboradores, entre os quais cito Nani Stuart, Bruno Gaspar, Audo Faleiro e Ricardo Azevedo.<\/p>\n\n\n<p>Tamb\u00e9m cabe citar sua m\u00e3e Sonia, seu neto Benjamim, seu filho Leon e \u2013 vou transcrever um trecho do texto de Jorge Matoso \u2013 \u201csua esposa, companheira de vida, milit\u00e2ncia e m\u00e3e do Leon, a Beth Souza Lobo\u201d, falecida \u201cem um acidente de autom\u00f3vel em mar\u00e7o de 1991 perto de Jo\u00e3o Pessoa. Na Para\u00edba, Beth foi dar palestras no Mestrado de Ci\u00eancias Sociais da UFPB e em Campina Grande entrevistou mulheres militantes sindi\u00adcais rurais\u201d.<\/p>\n\n\n<p>Ali\u00e1s, recomendo enfaticamente ler o texto que MAG escreveu sobre Beth, intitulado \u201cAUS\u00caNCIA E PRESEN\u00c7A\u201d e publicado na revista\u00a0<em>Teoria e Debate<\/em>\u00a0n. 14, abr\/ma\/jun. de 1991.<\/p>\n\n\n<p>A vida e a obra de MAG s\u00e3o deveras interessantes.<\/p>\n\n\n<p>Infelizmente, ele mesmo n\u00e3o nos deixou uma autobiografia, nem mesmo publicou livros autorais que sistematizassem sua opini\u00e3o.<\/p>\n\n\n<p>Ali\u00e1s, salvo engano da minha parte, ele foi \u201cdispensado\u201d da \u2013 para alguns \u2013\u00a0<em>via crucis\u00a0<\/em>de elaborar uma disserta\u00e7\u00e3o de mestrado e uma tese de doutorado.<\/p>\n\n\n<p>Segundo me informou um de seus alunos, \u201cele e a Beth iniciaram [a p\u00f3s gradua\u00e7\u00e3o] sob orienta\u00e7\u00e3o do Lucien Goldman em Paris. Ela concluiu, mas n\u00e3o tenho certeza no caso dele. (&#8230;) No Brasil, nos anos 70 havia muita gente lecionando em universidade sem ter p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o sei se ocorria na Fran\u00e7a. No Brasil ele estava inscrito como aluno de doutorado na USP tendo o Le\u00f4ncio [Martins Rodrigues, 1934-2021] como orientador. Essa era a tese que nunca terminou.\u00a0\u00a0Mas ele pode ter entrado direto no doutorado\u201d.<\/p>\n\n\n<p>Como nos disse Bruno Gaspar, pouco antes de falecer MAG tinha planos de escrever muito. Segundo Jorge Matoso, \u201cMarco Aur\u00e9lio recome\u00e7ou a organizar em seu apartamento os livros e um conjunto amplo de materiais dos mais diversos tipos (anota\u00e7\u00f5es, cartas e escritos variados) acumulados e guardados em muitas caixas ao longo de muitos anos. Esse processo \u2013 que j\u00e1 gerava palestras e deveria resultar em textos e livros que favorecessem o mais amplo conhecimento desta sua atividade \u00fanica, militante e intelectual nas rela\u00e7\u00f5es internacionais \u2013 foi lamentavelmente interrompido por sua morte repentina\u201d.<\/p>\n\n\n<p><strong>#<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n<p>A maior parte das pessoas que conheceu MAG despois de sua volta do ex\u00edlio pouco sabe de sua vida antes do golpe militar de 1964. Parte desta lacuna \u00e9 preenchida pela entrevista supracitada, feita no dia 18 de novembro de 2009 e que cobriu basicamente os primeiros 23 anos de vida de MAG.<\/p>\n\n\n<p>Por diversos motivos, n\u00e3o aconteceu a continuidade da entrevista \u2013 cobrindo o per\u00edodo p\u00f3s 1964 \u2013 o que \u00e9 uma trag\u00e9dia sem nome para os que fazemos parte da Central \u00danica de Historiadores, entidade cuja sigla \u2013 como o Waldemor de Harry Porter \u2013n\u00e3o deve nunca ser mencionada.<\/p>\n\n\n<p>Naquela entrevista, Marco Aur\u00e9lio fala de sua fam\u00edlia (ga\u00fachos progressistas de classe m\u00e9dia), fala do ambiente pol\u00edtico e cultural do Rio Grande do Sul e conta um detalhe particularmente interessante: [minha] \u201cfam\u00edlia \u00e9 laica. Meus pais n\u00e3o casaram no religioso, eu n\u00e3o sou batizado, eu n\u00e3o casei no religioso, meu filho n\u00e3o \u00e9 batizado. Laicidade. O meu av\u00f4 materno era esp\u00edrita, mas se comportava como um laico, de uma maneira geral. E, de uma certa maneira, tinha um certo componente anticlerical na fam\u00edlia\u201d.<\/p>\n\n\n<p>MAG tamb\u00e9m conta muitos epis\u00f3dios curiosos, entre os quais: \u201cHavia um programa l\u00e1 em Porto Alegre, na R\u00e1dio Gua\u00edba, que era um grande sucesso, e eu terminei me inscrevendo. Participei de treze programas e ganhei. O pr\u00eamio foram duas viagens para Paris. Ent\u00e3o fui com meu pai. Uma coisa interessante, porque eu nunca tinha sa\u00eddo de Porto Alegre. Eu n\u00e3o conhecia nem S\u00e3o Paulo nem o Rio de Janeiro. (&#8230;) Eu fui a Paris em janeiro de 1959, passei um m\u00eas, fui a Lisboa\u201d.<\/p>\n\n\n<p>O mais importante da entrevista, obviamente, \u00e9 o que ele nos conta acerca de sua vida intelectual, de sua milit\u00e2ncia estudantil, de seu ingresso no Partido Comunista.<\/p>\n\n\n<p>Em julho de 1961 Marco Aur\u00e9lio foi eleito vice-presidente da UNE, mais precisamente \u201cvice-presidente da Reforma Universit\u00e1ria e Cultura\u201d.<\/p>\n\n\n<p>Era uma \u00e9poca de efervesc\u00eancia pol\u00edtica e cultural, no qual a UNE estava metida dos p\u00e9s \u00e0 cabe\u00e7a: \u201cN\u00f3s organizamos a greve do 1\/3, que foi uma greve que paralisou as universidades brasileiras, todas, sem exce\u00e7\u00e3o (Todas! Isso \u00e9 uma coisa espantosa) durante quase dois meses\u201d.<\/p>\n\n\n<p>MAG nos conta que viveu \u201cum ano no Rio de Janeiro, e foi um momento que eu conheci o Brasil. Salvador tinha me chamado muito a aten\u00e7\u00e3o. (&#8230;) UNE Volante. Ent\u00e3o n\u00f3s fomos para Manaus, Bel\u00e9m do Par\u00e1, Piau\u00ed\u201d.<\/p>\n\n\n<p>Ele destaca que naquela \u00e9poca conhecer v\u00e1rios estados do pa\u00eds n\u00e3o era algo comum, nem mesmo para pessoas de \u201cclasse m\u00e9dia\u201d.<\/p>\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, h\u00e1 detalhes interessant\u00edssimos dos contatos que MAG manteve &#8211; na v\u00e9spera da ren\u00fancia &#8211; com o presidente J\u00e2nio Quadros, com o governador Leonel Brizola e com San Tiago Dantas, quando este era cotado para ser primeiro-ministro.<\/p>\n\n\n<p>Quando terminou sua gest\u00e3o como vice-presidente da UNE, MAG e outros foram participar do congresso da Uni\u00e3o Internacional do Estudantes, em agosto de 1962, na cidade de Leningrado, hoje renomeada de S\u00e3o Petersburgo. Foi tamb\u00e9m \u00e0\u00a0Polonia, a Romenia, a Iugosl\u00e1via e a Tchecoeslovaquia.<\/p>\n\n\n<p>De l\u00e1 ele volta para o Brasil, onde se dedica a concluir sua forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria e organizar o Partido Comunista. Al\u00e9m de ter sido eleito vereador em Porto Alegre, de fato pelo PCB mas de direito pelo \u201cPartido Republicano\u201d. Em seguida vem o golpe, a ruptura com o PCB e o ex\u00edlio, \u201centre 1970 e 1979, quando foi professor na Universidade do Chile (na Faculdade Latino-Americana de Ci\u00eancias Sociais) e nas Universidades de Paris 8 e Paris 10, da Fran\u00e7a\u201d.<\/p>\n\n\n<p>Como se v\u00ea, por essa breve resenha, foi uma vida venturosa, de uma pessoa com qualidades humanas muito interessantes, que s\u00e3o fortemente destacadas por todos os que escreverem no Dossi\u00ea publicado recentemente pela revista\u00a0<em>Teoria e Debate,\u00a0<\/em>por ocasi\u00e3o de seu anivers\u00e1rio de nascimento (junho de 1941).<\/p>\n\n\n<p><strong>#<\/strong><\/p>\n\n\n<p>Ao analisar a vida e obra de MAG, percebo que suas posi\u00e7\u00f5es sobre a pol\u00edtica externa do Brasil foram constru\u00eddas a partir da reflex\u00e3o acerca dos dilemas program\u00e1ticos e estrat\u00e9gicos da esquerda brasileira.<\/p>\n\n\n<p>Embora esta reflex\u00e3o envolva outros momentos e outros aspectos, um ponto importante foi a cole\u00e7\u00e3o de textos escritos por MAG acerca da esquerda brasileira.<\/p>\n\n\n<p>Nas palavras do professor Marcelo Ridenti: \u201cem 1979, voltando do ex\u00edlio ap\u00f3s a anistia, Marco Aur\u00e9lio Garcia produziu uma s\u00e9rie lend\u00e1ria de artigos para o jornal alternativo\u00a0<em>Em Tempo<\/em>\u00a0sobre a hist\u00f3ria da esquerda brasileira de 1960 a 1979\u201d, \u201cantecedendo em oito<\/p>\n\n\n<p>\u201c<em>Em Tempo<\/em>\u00a0iniciou a publica\u00e7\u00e3o da s\u00e9rie Contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 Hist\u00f3ria da Esquerda Brasileira em agosto de 1979, chegando a um total de 29 artigos, 22 deles de Marco Aur\u00e9lio, autor tamb\u00e9m de mais duas mat\u00e9rias e respostas a v\u00e1rias cartas\u201d.<\/p>\n\n\n<p>Foram 34 as \u201corganiza\u00e7\u00f5es elencadas, a partir de tr\u00eas eixos: o car\u00e1ter da revolu\u00e7\u00e3o brasileira (nacional-democr\u00e1tica ou socialista), o tipo de organiza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria (partido ou grupo de guerrilha), e as formas de luta para chegar ao poder (pac\u00edfica ou armada \u2013 insurrecional ou guerrilheira \u2013 com \u00eanfase no campo ou na cidade), com diversas posi\u00e7\u00f5es h\u00edbridas ou intermedi\u00e1rias entre cada alternativa. Essas tr\u00eas coordenadas anal\u00edticas tornaram-se t\u00e3o correntes em estudos posteriores que muitas vezes se esquece sua origem na obra de Marco Aur\u00e9lio\u201d.<\/p>\n\n\n<p>N\u00e3o cabe aqui fazer uma an\u00e1lise propriamente historiogr\u00e1fica deste\u00a0<em>tour de force<\/em>, nem tampouco de suas refer\u00eancias intelectuais, entre os quais Ridenti cita E. P. Thompson, Claude Lefort e Cornelius Castoriadis.<\/p>\n\n\n<p>No contexto desta aula-debate, o que me parece ser necess\u00e1rio destacar \u00e9 que este balan\u00e7o da trajet\u00f3ria da esquerda brasileira contribuiu muito para MAG construir sua \u201cvis\u00e3o\u201d pessoal acerca de qual deveria ser a \u201clinha\u201d adotada pela esquerda brasileira a partir dos anos 1980. Esta vis\u00e3o\/linha \u00e9 o \u201cn\u00facleo duro\u201d a partir do qual MAG foi construindo sua abordagem acerca da pol\u00edtica internacional do PT e da pol\u00edtica externa do Brasil.<\/p>\n\n\n<p>Segundo Ridenti, \u201chavia nas entrelinhas a esperan\u00e7a de que o novo partido que se gestava [Ridenti se refere aqui ao Partido dos Trabalhadores] pudesse ser a supera\u00e7\u00e3o das tradi\u00e7\u00f5es anteriores, notadamente a bolchevique e a social-democrata, indo al\u00e9m tamb\u00e9m do anarquismo, do trotskismo, da esquerda crist\u00e3, do trabalhismo, identificando-se com propostas autonomistas\u201d.<\/p>\n\n\n<p>Mais adiante MAG se concentrar\u00e1 no objetivo de superar apenas duas destas tradi\u00e7\u00f5es: a comunista e a social-democrata. Ressalto que a relativa desaten\u00e7\u00e3o concedida ao trabalhismo e ao desenvolvimentismo ajudam a compreender alguns dos dilemas intelectuais e pol\u00edticos que ele enfrentou, n\u00e3o apenas no per\u00edodo em que foi assessor da presid\u00eancia da Rep\u00fablica (2003-2016), mas principalmente depois do\u00a0<em>impeachment<\/em>\u00a0da presidenta Dilma Rousseff.<\/p>\n\n\n<p>Selecionei tr\u00eas textos \u2013 de 1990, 2003 e 2015 \u2013 para exemplificar o que foi dito acima.<\/p>\n\n\n<p>O primeiro deles \u00e9 o artigo intitulado \u201c<a href=\"https:\/\/teoriaedebate.org.br\/1990\/11\/02\/a-social-democracia-e-o-pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Terceira via: a social-democracia e o PT<\/a>\u201d, publicado pela revista\u00a0<em>Teoria e Debate<\/em><strong>\u00a0n\u00ba 12, em novembro de 1990.<\/strong><\/p>\n\n\n<p>O segundo texto intitula-se \u201cPensar a terceira gera\u00e7\u00e3o da esquerda\u201d e corresponde a uma palestra feita por MAG no semin\u00e1rio internacional \u201cHist\u00f3ria e perspectivas da esquerda\u201d, realizado na USP entre os dias 13 e 15 de agosto de 2003.<\/p>\n\n\n<p>O terceiro texto, por sua vez, corresponde a participa\u00e7\u00e3o de Marco Aur\u00e9lio Garcia no Col\u00f3quio Internacional &#8220;Claude Lefort: a inven\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica hoje&#8221;, na Universidade de S\u00e3o Paulo, em 14 de outubro de 2015.<\/p>\n\n\n<p>No artigo de 1990, Marco Aur\u00e9lio afirma que seria \u201c\u00f3bvio\u201d que \u201co socialismo n\u00e3o era o objetivo imediato do partido\u201d: \u201csomente cabe\u00e7as muito acaloradas poderiam imaginar que o socialismo se colocava como quest\u00e3o de atualidade imediata\u201d, deixando claro que nisto \u201co PT n\u00e3o se diferenciava dos partidos comunistas\u201d.<\/p>\n\n\n<p>Registro que nessa f\u00f3rmula sint\u00e9tica podem se confundir \u2013 ou melhor, pode n\u00e3o se distinguir &#8211; duas quest\u00f5es diferentes: uma \u00e9 saber se a conquista do poder e a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade socialista eram os objetivos t\u00e1ticos imediatos do PT; outra \u00e9 saber se o socialismo era o objetivo estrat\u00e9gico ou se antes dele se pretendia alcan\u00e7ar um objetivo intermedi\u00e1rio (uma etapa de desenvolvimento capitalista, uma revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tico-burguesa, uma fase de liberta\u00e7\u00e3o nacional etc.).<\/p>\n\n\n<p>Poucos anos antes do texto de MAG ser escrito, o PT realizara um congresso (denominado 5\u00ba Encontro Nacional, de 1987) onde foi aprovada uma resolu\u00e7\u00e3o que afirmava o socialismo como objetivo e recusava explicita e nominalmente \u201cuma nova teoria das etapas\u201d.<\/p>\n\n\n<p>Portanto, quando MAG fala que \u201cnisto\u201d o PT n\u00e3o se diferenciava dos partidos comunistas, ele deve estar se referindo a atualidade imediata, no sentido de atualidade \u201ct\u00e1tica\u201d do socialismo. Mas o que de fato come\u00e7ou a ocorrer, da parte de alguns setores do PT ao longo dos anos 1990, foi o deslizamento para uma nova \u201cteoria das etapas\u201d, a saber: primeiro caberia lutar contra o neoliberalismo e depois lutar contra o capitalismo\/diretamente pelo socialismo.<\/p>\n\n\n<p>Voltando ao texto de 1990: nele MAG diz que a diferen\u00e7a entre comunistas e petistas estaria na \u201cforma\u201d pela qual se \u201carticulam a luta por este programa democr\u00e1tico-popular com os objetivos socialistas\u201d.<\/p>\n\n\n<p>E neste ponto ganharia \u201cconsider\u00e1vel import\u00e2ncia\u201d a \u201cdiscuss\u00e3o com a social-democracia e a pergunta sobre as perspectivas de sua vig\u00eancia em pa\u00edses como o Brasil\u201d.<\/p>\n\n\n<p>A esse respeito, Marco Aur\u00e9lio registra que existiriam duas posi\u00e7\u00f5es: numa \u201cas reformas teriam um car\u00e1ter cumulativo e terminariam levando ao socialismo, pensado como regime qualitativamente distinto\u201d; noutra \u201cn\u00e3o havia uma diferen\u00e7a qualitativa entre capitalismo e socialismo. O socialismo passava a ser o pr\u00f3prio movimento pelas reformas\u201d. Destacando que se trata de uma quest\u00e3o \u201cfundamental para a discuss\u00e3o estrat\u00e9gica da esquerda\u201d, MAG defende que ela deveria ser respondida n\u00e3o \u201cdiscutindo a tese geral, em abstrato, mas examinando no contexto brasileiro\u201d, no qual o caminho para as \u201creformas\u201d exigiria um \u201cagudo processo de lutas sociais\u201d, uma \u201crearticula\u00e7\u00e3o da luta pela democracia pol\u00edtica com a democracia social e destas duas com o socialismo\u201d, com a luta pelo socialismo tendo \u201cque levar em conta o potencial pol\u00edtico-revolucion\u00e1rio das reformas sociais e tirar as consequ\u00eancias disto no plano da luta pelo poder\u201d.<\/p>\n\n\n<p>A esse respeito, Marco Aur\u00e9lio afirma que \u201cum dos avan\u00e7os do PT \u00e9 abandonar a ideia do poder como um lugar a ser tomado e reformado (proposta social-democrata) ou tomado, destru\u00eddo e reconstru\u00eddo (proposta revolucion\u00e1ria cl\u00e1ssica)\u201d.<\/p>\n\n\n<p>MAG alerta que \u201cesta inova\u00e7\u00e3o, pelo menos para o debate pol\u00edtico brasileiro, tem de ser aprofundada, sob pena de, a\u00ed sim, o PT sucumbir a uma das teses mencionadas e das quais se distanciou\u201d.<\/p>\n\n\n<p>O texto de 1990, ao apresentar as coisas desta maneira, releva:<\/p>\n\n\n<p>*uma tradi\u00e7\u00e3o que se constru\u00edra no pr\u00f3prio movimento comunista \u2013 o denominado eurocomunismo &#8211; sem falar nas reflex\u00f5es do professor Carlos Nelson Coutinho e outros militantes destacados do comunismo brasileiro;<\/p>\n\n\n<p>*a experi\u00eancia latino-americana que buscou escapar do dilema exposto por MAG: o Chile da Unidade Popular (1970-1973). MAG esteve no Chile neste per\u00edodo e tinha opini\u00f5es fortes a respeito, mas o tema n\u00e3o comparece no texto de 1990;<\/p>\n\n\n<p>*as experi\u00eancias e os dilemas do trabalhismo e do desenvolvimentismo de esquerda, especialmente no per\u00edodo anterior ao golpe de 1964 (dilemas que voltariam com for\u00e7a no per\u00edodo dos governos Lula e Dilma).<\/p>\n\n\n<p>Obviamente MAG n\u00e3o desconhecia nada disso. Por isso mesmo cabe perguntar: por qual motivo n\u00e3o incluiu (nem mesmo citou) estas tr\u00eas quest\u00f5es na equa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n<p>H\u00e1 v\u00e1rios motivos poss\u00edveis, mas me concentrarei naquele motivo que parece \u00f3bvio para quem assistiu Dark: frente ao iminente colapso da URSS, muitos militantes de esquerda buscavam descobrir o ponto na hist\u00f3ria a partir do qual a trag\u00e9dia se tornara irrevers\u00edvel. Alguns localizavam este ponto na elei\u00e7\u00e3o de Gorbachev para a secretaria geral do Partido Comunista sovi\u00e9tico (PCUS), outros no per\u00edodo Brejnev, outros no XX Congresso do PCUS, outros na ascens\u00e3o de St\u00e1lin&#8230;<\/p>\n\n\n<p>Tenho a impress\u00e3o de que para MAG o \u201cn\u00f3\u201d estaria na tr\u00e1gica cis\u00e3o ocorrida no movimento socialista, especialmente entre 1914 e 1921. Neste sentido, a defesa de uma esquerda p\u00f3s-socialdemocrata e p\u00f3s-comunista seria uma tentativa de (perdoem o coment\u00e1rio vintage) \u201crebobinar e recome\u00e7ar\u201d.<\/p>\n\n\n<p>Esta maneira de ver as coisas tem seus pontos fortes. Mas tem tamb\u00e9m seus pontos fracos. O principal deles \u00e9 que a cis\u00e3o socialdemocracia\/comunismo n\u00e3o foi produto de um mal entendido; resultou de diferentes op\u00e7\u00f5es frente a situa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas determinadas. Portanto, n\u00e3o basta querer uma esquerda que seja p\u00f3s-comunista e p\u00f3s-socialista. \u00c9 preciso existir uma situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica em que esta esquerda possa prosperar. O fracasso do eurocomunismo, a derrota da Unidade Popular e os dilemas do trabalhismo e do petismo no Brasil demonstram \u2013 na minha opini\u00e3o \u2013 que as bases objetivas da cis\u00e3o entre socialdemocracia e comunismo n\u00e3o foram superadas; motivo pelo qual, no final das contas, mesmo que por caminhos diferentes, as ideias, as pessoas e os partidos acabam voltando ao dilema original. (Para os que assistiram Dark: at\u00e9 agora n\u00e3o se conseguiu voltar ao momento do acidente na ponte.)<\/p>\n\n\n<p>Sigamos a an\u00e1lise do texto de 1990.<\/p>\n\n\n<p>Defendendo articular \u201ca luta pela democracia pol\u00edtica com a luta pela democracia social\u201d, articula\u00e7\u00e3o que se desdobraria \u201cno plano social e no plano institucional\u201d, MAG prop\u00f5e que o PT deveria assumir \u201cuma postura republicana\u201d que demonstraria \u201ccomo o Estado est\u00e1 a servi\u00e7o das classes dominantes e n\u00e3o \u00e9 um instrumento de concilia\u00e7\u00e3o social, como pretende a ideologia dominante\u201d.<\/p>\n\n\n<p>Em resumo, MAG defendia que \u201cpara construir seu projeto de transforma\u00e7\u00e3o socialista do Brasil\u201d, o PT precisaria \u201cescapar do dilema bolchevismo x social-democracia\u201d, evitando tanto a \u201cdefesa intransigente da ortodoxia\u201d quanto o \u201cabandono da no\u00e7\u00e3o de socialismo em proveito de um (neo)liberalismo que nem mesmo os (neo)liberais praticam\u201d.<\/p>\n\n\n<p>Desde 1990 at\u00e9 hoje, esta \u201cinova\u00e7\u00e3o\u201d pretendida por MAG segue carente de aprofundamento.<\/p>\n\n\n<p>Por \u201cinova\u00e7\u00e3o\u201d refiro-me \u00e0 ideia de que \u201cum dos avan\u00e7os do PT \u00e9 abandonar a ideia do poder como um lugar a ser tomado e reformado (proposta social-democrata) ou tomado, destru\u00eddo e reconstru\u00eddo (proposta revolucion\u00e1ria cl\u00e1ssica)\u201d.<\/p>\n\n\n<p>O artigo que analisamos anteriormente foi publicado em novembro de 1990. Uma d\u00e9cada, dois anos e alguns meses depois o PT chegaria ao governo federal.<\/p>\n\n\n<p>Hoje, parafraseando MAG, s\u00f3 \u201ccabe\u00e7as acaloradas\u201d seriam capazes de sustentar que deu tudo \u201ccerto\u201d ou tudo \u201cerrado\u201d. Afinal, o PT chegou onde a esquerda brasileira nunca havia chegado, o que contribuiu para mudan\u00e7as importantes do ponto de vista da maioria do povo. Mas tamb\u00e9m \u00e9 preciso dizer que o PT fez escolhas que, ao fim e ao cabo, confirmaram esplendorosamente que o Estado est\u00e1 mesmo \u201ca servi\u00e7o das classes dominantes\u201d, cuja derrota dependeria de um \u201cagudo processo de lutas sociais\u201d que n\u00e3o compareceram, nem (na minha opini\u00e3o) foram devidamente incentivadas por quem poderia e deveria faz\u00ea-lo.<\/p>\n\n\n<p>H\u00e1 muitos motivos para o que ocorreu, bem como para as escolhas feitas pelo Partido dos Trabalhadores, especialmente entre 2003 e 2016.<\/p>\n\n\n<p>Uma delas \u00e9 que o PT n\u00e3o era social-democrata, mas tinha muitos candidatos a bolchevique. Da\u00ed resulta que \u2013 ironia da hist\u00f3ria \u2013 na tentativa de escapar do dilema bolchevismo x social-democracia, muita gente tenha deixado de ser \u201cbolchevique\u201d mas pouca gente tenha deixado de ser \u201csocial-democrata\u201d.<\/p>\n\n\n<p>O que \u2013 misturado com a influ\u00eancia do trabalhismo e do desenvolvimentismo &#8211; desembocou em um equil\u00edbrio ecol\u00f3gico-ideol\u00f3gico que certamente n\u00e3o correspondia ao que Marco Aur\u00e9lio defendia e pretendia.<\/p>\n\n\n<p>Um dos efeitos disto foram as op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas feitas, durante os governos Lula e Dilma, em nome do \u201crepublicanismo\u201d, mas numa dire\u00e7\u00e3o oposta \u00e0 desejada por MAG.<\/p>\n\n\n<p>Ali\u00e1s, a esse respeito vale reler o que diz o pr\u00f3prio MAG acerca do golpe de 1964, na entrevista concedida a Alexandre Fortes, sua cr\u00edtica ao \u201cdespreparo, uma subestima\u00e7\u00e3o, completamente, dos efeitos que uma mobiliza\u00e7\u00e3o da direita poderia ter. (&#8230;) nessa \u00e9poca, o\u00a0<em>Estad\u00e3o<\/em>\u00a0publicou uma s\u00e9rie de artigos do [jornalista] Jos\u00e9 Stacchini, que ele reuniu num livro primoroso, extremamente inteligente, chamado\u00a0<em>\u201cMar\u00e7o de 64: Mobiliza\u00e7\u00e3o da aud\u00e1cia\u201d.\u00a0<\/em>Onde ele, como o t\u00edtulo diz, credita em grande medida o \u00eaxito do golpe a essa \u201cmobiliza\u00e7\u00e3o da aud\u00e1cia\u201d.<\/p>\n\n\n<p>A \u201caud\u00e1cia\u201d que faltou a esquerda, compareceu de sobra na direita, tanto em 1964 quanto em datas mais recentes.<\/p>\n\n\n<p>Lendo os textos de MAG, n\u00e3o tenho d\u00favida de que ele tinha consci\u00eancia plena destes problemas e limites. Mas frente a estes problemas e limites, ao menos nos textos e nos espa\u00e7os p\u00fablicos, predominava nele a tend\u00eancia a apontar que o \u201ccopo\u201d estaria \u201cmeio cheio\u201d. Acredito que isto se deva, entre outros motivos, a algo simples: outra atitude colocaria em quest\u00e3o as premissas te\u00f3ricas, program\u00e1ticas e estrat\u00e9gicas a que nos referimos anteriormente. Mas seria subestimar a intelig\u00eancia de MAG achar que este seria o motivo principal. H\u00e1 pelos menos dois outros motivos que pesaram mais: as conquistas reais obtidas pela classe trabalhadora e os \u00eaxitos reais da pol\u00edtica externa.<\/p>\n\n\n<p>Hoje sabemos que estes \u00eaxitos n\u00e3o sobreviveram \u00e0 contraofensiva reacion\u00e1ria. Mas eles n\u00e3o s\u00e3o menos reais por isso e \u2013 na minha opini\u00e3o \u2013 s\u00e3o aqueles \u00eaxitos que explicam o fundamental da dificuldade que MAG tinha em perceber o \u201clado B\u201d de sua aposta program\u00e1tica e estrat\u00e9gica.<\/p>\n\n\n<p>Aqui \u00e9 preciso explicitar o seguinte: no terreno da pol\u00edtica geral do PT e do governo, a influ\u00eancia de MAG foi relativamente menor, embora em alguns momentos pontuais possa ter sido muito expressiva (por exemplo, no final de 2006). Mas no terreno da pol\u00edtica internacional do PT e no terreno da pol\u00edtica externa do governo, MAG sempre exerceu grande influ\u00eancia.<\/p>\n\n\n<p>A esse respeito, o j\u00e1 citado texto de 1990 diz que a escolha dos interlocutores internacionais do PT \u201cest\u00e1 vinculada a esta preocupa\u00e7\u00e3o de construir um projeto socialista para o Brasil levando em conta as ricas, e \u00e0s vezes dram\u00e1ticas, experi\u00eancias do socialismo internacional. Abre-se fundamentalmente para uma nova esquerda que se constitui (ou se reconstr\u00f3i) politicamente na Am\u00e9rica Latina e que enfrenta vicissitudes semelhantes \u00e0s nossas\u201d. \u201cDialoga, sem preconceitos, com a social-democracia, e com as express\u00f5es do comunismo renovado que se manifestam em pa\u00edses como a It\u00e1lia ou mesmo no Leste Europeu\u201d. \u201cColabora, ainda, com for\u00e7as alternativas, como os verdes alem\u00e3es, o SOS Racisme da Fran\u00e7a e outros movimentos que buscam sa\u00eddas originais para a crise da esquerda\u201d.<\/p>\n\n\n<p>MAG prev\u00ea que a &#8220;reconstru\u00e7\u00e3o&#8221; do Leste Europeu \u201cse dar\u00e1 em meio a duros embates sociais e pol\u00edticos, desmentindo a tese de que a luta de classes acabou\u201d. Diz que a social-democracia \u201cser\u00e1 confrontada com a necessidade de impulsionar lutas sociais e pol\u00edticas nesta regi\u00e3o ou perder o controle do processo para os conservadores, como j\u00e1 ocorreu\u201d. E que a \u201caplica\u00e7\u00e3o dos programas de ajuste em quase toda a Am\u00e9rica Latina colocar\u00e1 a esquerda mundial (<em>sic<\/em>) diante do desafio de oferecer um programa de reformas que compatibilize o combate a problemas emergenciais (&#8230;) com a necessidade inadi\u00e1vel de resolver quest\u00f5es estruturais\u201d. O \u201cmundo n\u00e3o assiste ao fim da hist\u00f3ria hoje, como pretendem alguns, mas, ao contr\u00e1rio, a uma acelera\u00e7\u00e3o sem precedentes desta\u201d.<\/p>\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, naquele texto de 1990, MAG considerava poss\u00edvel que se estivesse \u201cassistindo ao fim de um ciclo na hist\u00f3ria do socialismo, que tem seu in\u00edcio com a forma\u00e7\u00e3o da social-democracia e que em boa parte deste s\u00e9culo foi dominado pelo conflito entre socialistas e comunistas\u201d. Para ele, o PT seria parte integrante \u201cdeste processo de transi\u00e7\u00e3o da esquerda mundial. Neste sentido, \u00e9 um partido p\u00f3s-social-democrata e p\u00f3s-comunista. Constr\u00f3i sua identidade n\u00e3o combatendo estas correntes, mas dialogando criticamente com elas\u201d.<\/p>\n\n\n<p>Podemos discordar de parte desta an\u00e1lise \u2013 entre outros motivos por fazer mais sentido na Europa do que no resto do mundo, onde a tradi\u00e7\u00e3o social-democrata original n\u00e3o vigorou e onde o comunismo se confundia com o anti-imperialismo. Por sinal, n\u00e3o \u00e9 de se admirar que em todos os textos de MAG publicados pela FPA, a China n\u00e3o mere\u00e7a a devida aten\u00e7\u00e3o. Mas, justi\u00e7a seja feita, MAG n\u00e3o estava sozinho isso: especialmente na d\u00e9cada dos noventa, 9 em cada 10 \u201cespecialistas\u201d cometeram este mesmo erro.<\/p>\n\n\n<p>Isto posto, \u00e9 preciso reconhecer que daquela chave de an\u00e1lise, mesmo com as limita\u00e7\u00f5es citadas e outras, MAG extraiu uma orienta\u00e7\u00e3o laica, ecum\u00eanica e fortemente latino-americanista para a pol\u00edtica de rela\u00e7\u00f5es internacionais do PT.<\/p>\n\n\n<p>E foi com esta abordagem que Marco Aur\u00e9lio integrou aquele j\u00e1 citado grupo restrito de quadros \u2013 composto tamb\u00e9m por Celso Amorim, Samuel Pinheiro Guimar\u00e3es, Lula e Dilma Rousseff, entre outros e outras \u2013 que, sem pensar o mesmo a respeito de in\u00fameros temas, foram coletivamente respons\u00e1veis por formular a pol\u00edtica externa do governo brasileiro entre 2003 e 2016. Neste coletivo mais ou menos informal, MAG era a principal express\u00e3o do que podemos chamar de internacionalismo petista.<\/p>\n\n\n<p><strong>#<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n<p>Passemos agora ao que MAG diz em outro texto, intitulado \u201cPensar a terceira gera\u00e7\u00e3o da esquerda\u201d e corresponde a uma palestra feita por ele no semin\u00e1rio internacional \u201cHist\u00f3ria e perspectivas da esquerda\u201d, realizado na USP entre os dias 13 e 15 de agosto de 2003. Portanto, j\u00e1 durante o primeiro mandato de Lula.<\/p>\n\n\n<p>Diz que \u201centre 1989 e os dias de hoje assistimos fundamentalmente a duas grandes transforma\u00e7\u00f5es no que diz respeito aos paradigmas que dominaram a esquerda no s\u00e9culo XX. A primeira transforma\u00e7\u00e3o foi, sem d\u00favida nenhuma, a crise do modelo comunista, que teve como acontecimentos emblem\u00e1ticos a queda do muro de Berlim, de um lado, e a autodissolu\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, de outro, arrastando com ela quase todos os partidos que, de alguma maneira, se vinculavam a estes paradigmas, mesmo aqueles que tentavam fazer um aggiornamento de suas posi\u00e7\u00f5es. Por outro lado, tamb\u00e9m assistimos a uma crise, talvez n\u00e3o t\u00e3o dram\u00e1tica, mas nem por isso menos importante, dos paradigmas social-democratas, n\u00e3o tanto pelas derrotas que sofreram em algumas elei\u00e7\u00f5es, talvez compensadas por vit\u00f3rias em outras, mas muito mais pela desconfigura\u00e7\u00e3o do ide\u00e1rio social-democrata, em certa medida explicitada aqui nas tr\u00eas interven\u00e7\u00f5es que me antecederam\u201d.<\/p>\n\n\n<p>Notem que 13 anos depois do artigo publicado na revista\u00a0<em>Teoria e Debate<\/em>, a \u201cchave de leitura\u201d continua a mesma: o dilema socialdemocracia versus comunismo.<\/p>\n\n\n<p>No mesmo texto, MAG pergunta (lembro de novo a data, 2003):<\/p>\n\n\n<p>\u201c\u00c9 poss\u00edvel uma experi\u00eancia de esquerda na periferia do capitalismo, como \u00e9 o caso do Brasil e de outros pa\u00edses? Essa experi\u00eancia est\u00e1 condenada de antem\u00e3o a ser inviabilizada e um governo de esquerda que se constituir vai terminar como terminou o governo Allende ou como terminaram outros governos de esquerda na Am\u00e9rica Latina? Ou ele vai necessariamente trair o seu ide\u00e1rio? N\u00e3o vou dar a resposta. Sem d\u00favida tenho convic\u00e7\u00f5es muito profundas sobre qual \u00e9 a resposta, mas quero dizer que esse \u00e9 um debate pol\u00edtico e, mais do que isso, \u00e9 um debate intelectual. H\u00e1 intelectuais brasileiros que defendem a inviabilidade de um projeto de esquerda efetivo, radical, na periferia do capitalismo\u201d.<\/p>\n\n\n<p>E conclui sua interven\u00e7\u00e3o dizendo que\u00a0a\u00a0\u201cna Am\u00e9rica do Sul, ou na Am\u00e9rica Latina, temos uma hist\u00f3ria que, de certa forma, manteve conex\u00e3o com a hist\u00f3ria das grandes alternativas do socialismo no mundo. No entanto, detecto, e escrevi sobre isso, que vivemos uma esp\u00e9cie de terceira onda, uma terceira gera\u00e7\u00e3o de esquerda que, em certa medida, cont\u00e9m alguns elementos estruturantes que eu chamaria de p\u00f3s-comunistas e p\u00f3s-social-democratas. O grande problema \u00e9 que essa novidade, que \u00e9 uma novidade social, uma novidade pol\u00edtica, n\u00e3o necessariamente se expressou em termos te\u00f3ricos, n\u00e3o necessariamente foi capaz de produzir efetivamente uma refer\u00eancia te\u00f3rica\u201d.<\/p>\n\n\n<p>Vejam que ele termina sua exposi\u00e7\u00e3o de 2003 repetindo, de certa forma, o que j\u00e1 h\u00e1 havia dito em 1990: existiria uma novidade pol\u00edtica, mesmo que potencial, mas que ainda n\u00e3o havia sido capaz de \u201cproduzir efetivamente uma refer\u00eancia te\u00f3rica\u201d.<\/p>\n\n\n<p>Que esta \u201crefer\u00eancia te\u00f3rica\u201d faz falta, estou totalmente de acordo. Mas por qual motivo fazia falta em 1990, continuou assim em 2003 e &#8211; acrescento &#8211; segue fazendo falta em 2021?<\/p>\n\n\n<p>Por qual motivo os defensores daquela \u201cchave de leitura\u201d n\u00e3o conseguiram produzir a \u201crefer\u00eancia te\u00f3rica\u201d reivindicada pelo pr\u00f3prio Marco Aur\u00e9lio?<\/p>\n\n\n<p>Qualquer um que tenha convivido com MAG ou lido seus textos sabe muito bem que n\u00e3o foi por falta de capacidade. Nem dele, nem da coorte de intelectuais que tinham MAG como \u201cirm\u00e3o em armas\u201d.<\/p>\n\n\n<p>Claro, pode-se argumentar que a coruja de Minerva al\u00e7a voo no \u201ccair do crep\u00fasculo\u201d; mas j\u00e1 se passaram 5 anos do impeachment, as pesquisas apontam que Lula tem chances de ser eleito nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es presidenciais e at\u00e9 agora os partid\u00e1rios daquela vis\u00e3o defendida por MAG n\u00e3o produziram a tal \u201crefer\u00eancia te\u00f3rica\u201d a qual ele se referia.<\/p>\n\n\n<p>Por qu\u00ea?<\/p>\n\n\n<p>Uma poss\u00edvel explica\u00e7\u00e3o (ainda que indireta) est\u00e1 contida, na minha opini\u00e3o, em um dos textos do Dossi\u00ea publicado pela\u00a0<em>Teoria e Debate<\/em>\u00a0em julho de 2021, mais precisamente no texto do professor Andr\u00e9 Singer.<\/p>\n\n\n<p>Neste texto, intitulado \u201cMarco Aur\u00e9lio, lulismo e sonho rooseveltiano\u201d, Andr\u00e9 Singer relata ter sabido de MAG como \u201cparte de um grupo de companheiros e companheiras que haviam tomado uma orienta\u00e7\u00e3o autonomista na Fran\u00e7a\u201d.<\/p>\n\n\n<p>Depois relata tr\u00eas conversas tidas por ele, Singer, com Marco Aur\u00e9lio:<\/p>\n\n\n<p>\u201cA primeira conversa, creio, ocorreu na sede do Diret\u00f3rio Nacional do Partido dos Trabalhadores, perto da Pra\u00e7a da S\u00e9, no primeiro semestre de 2002. Fal\u00e1vamos sobre o programa do PT para o pleito, cuja confec\u00e7\u00e3o ele coordenou in\u00fameras vezes. No meio de um racioc\u00ednio, virou-se para mim e disse: \u201cEscuta, tem um aspecto que voc\u00ea precisa entender. Existe o petismo, mas hoje em dia existe uma outra coisa, independente, que \u00e9 o lulismo\u201d (&#8230;) N\u00e3o se tratava de aumentar ou diminuir o partido, mas de dar a C\u00e9sar o que \u00e9 de C\u00e9sar (passe o trocadilho)\u201d.<\/p>\n\n\n<p>\u201c(&#8230;) foi, talvez, no in\u00edcio do mandato que ocorreu a segunda conversa chave. Nela, o tema eram os planos referentes ao Nordeste. \u00c9 prov\u00e1vel que eu buscasse encaixar o assunto nos esquemas da luta de classes, quando Marco, de novo, surgiu com o inesperado. \u201cOlha, existe uma componente rooseveltiana na concep\u00e7\u00e3o deste governo\u201d.<\/p>\n\n\n<p>\u201c(&#8230;) Tal como fora surpreendido pela exist\u00eancia do lulismo, nunca tinha me passado pela cabe\u00e7a que o modelo reformista em curso pudesse passar n\u00e3o pela experi\u00eancia socialista europeia, mas pela democrata norte-americana. Com o tempo percebi que ele estava certo. Uma no\u00e7\u00e3o de capitalismo popular, com ra\u00edzes nos EUA, explicaria diversas iniciativas governamentais como, por exemplo, a do cr\u00e9dito consignado\u201d.<\/p>\n\n\n<p>\u201cNa \u00faltima vez que nos vimos, penso que seis meses antes de sua morte, outra vez o cen\u00e1rio era o do Diret\u00f3rio Nacional do PT no centro da cidade. (&#8230;.) Estava claro, para mim, e creio que para ele, que o sonho rooseveltiano se quebrara. J\u00e1 t\u00ednhamos entrado nesta conjuntura regressiva que, quatro anos depois, ainda nos envolve. Ao me despedir, n\u00e3o sabia que precisar\u00edamos sair dela sem as ideias e o humor do MAG\u201d.<\/p>\n\n\n<p>Considero este relato de Singer absolutamente genial, pois de maneira totalmente imprevista ele descortina os \u2013 na minha opini\u00e3o \u2013 descaminhos da teoria e pr\u00e1tica baseada na \u201cchave de leitura\u201d constru\u00edda por MAG desde seu regresso do ex\u00edlio.<\/p>\n\n\n<p>Focado em superar as tradi\u00e7\u00f5es comunista e socialdemocrata, MAG foi sendo arrastado (e, mais do que isso, ajudando a construir) desdobramentos imprevistos do ponto de vista daquele suposto dilema socialdemocracia\/comunismo. Alguns destes desdobramentos aparecem no relato de Singer: do \u201cautonomismo\u201d ao lulismo, do \u201csocialismo democr\u00e1tico\u201d ao \u201csonho rooseveltiano\u201d, da derrota de 1964 \u00e0 derrota de 2016.<\/p>\n\n\n<p>Dizendo de outro modo: MAG fez parte de uma gera\u00e7\u00e3o que fez a cr\u00edtica da pol\u00edtica predominante na esquerda hegem\u00f4nica no per\u00edodo pr\u00e91964. Quatro d\u00e9cadas depois, parte daquela gera\u00e7\u00e3o se viu diante de dilemas para os quais apresentou solu\u00e7\u00f5es teoricamente aparentadas com as posi\u00e7\u00f5es daquela mesma esquerda pr\u00e91964.<\/p>\n\n\n<p>A esse respeito, lembro de MAG comentando comigo que a pol\u00edtica do PC chin\u00eas nos anos 2000 lembrava a pol\u00edtica do PC sovi\u00e9tico nos anos 1950, \u00e9poca em que o PC chin\u00eas proferia as maiores acusa\u00e7\u00f5es contra o PC sovi\u00e9tico. MAG tinha raz\u00e3o no coment\u00e1rio; mas em certa medida o mesmo poderia ser dito acerca de algumas posi\u00e7\u00f5es existentes no PT e no antigo PCB pr\u00e9 64.<\/p>\n\n\n<p>Essas analogias n\u00e3o constituem nenhum mist\u00e9rio para quem acompanhou a trajet\u00f3ria de parte da esquerda chilena, por exemplo aqueles que integraram a esquerda do PS chileno e o MIR na \u00e9poca do governo da Unidade Popular (1970-1973). Muitos dos que criticavam Allende e defendiam \u201cavanzar sem transar\u201d (o que em portugu\u00eas \u00e9 algo do tipo avan\u00e7ar sem conciliar), tornaram-se defensores ac\u00e9rrimos das supostas virtudes da Concertaci\u00f3n.<\/p>\n\n\n<p>Ali\u00e1s, como me lembrou outro dos alunos de MAG, \u201co governo Lula \u00e9 muito herdeiro de uma certa leitura dos &#8220;erros chilenos&#8221; e da necessidade vital de fazer diferente, em geral numa chave fortemente n\u00e3o confrontacionista e de alian\u00e7as ampl\u00edssimas\u201d. E o que ocorreu em 2013 e o golpe de 2016 \u201cdesnorteiam muito essa vis\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n<p>Ou, para citar um ex-ministro do governo Lula, em palestra feita no campus de Santo Andr\u00e9 da UFABC, \u201cach\u00e1vamos que se fiz\u00e9ssemos um governo moderado, isso estimularia o outro lado a tamb\u00e9m ser moderado\u201d. Como sabemos, n\u00e3o foi exatamente isto o que aconteceu.<\/p>\n\n\n<p><strong>#<\/strong><\/p>\n\n\n<p>O terceiro texto que vou comentar \u2013 texto in\u00e9dito at\u00e9 sua publica\u00e7\u00e3o no j\u00e1 citado\u00a0<em>Dossi\u00ea<\/em>\u00a0&#8211; \u00e9 o roteiro utilizado por Marco Aur\u00e9lio Garcia em sua participa\u00e7\u00e3o no Col\u00f3quio Internacional &#8220;Claude Lefort: a inven\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica hoje&#8221;, na Universidade de S\u00e3o Paulo, em 14 de outubro de 2015.<\/p>\n\n\n<p>Segundo MAG:<\/p>\n\n\n<p>\u201cTodos os segmentos da esquerda brasileira \u2013 da tradicional at\u00e9 os grupos armados \u2013 haviam sofrido uma terr\u00edvel derrota pol\u00edtica e militar durante os anos 1970. Essa derrota era sobredeterminada pela crise dos paradigmas ortodoxos que haviam, por d\u00e9cadas, informado as esquerdas no Brasil, na Am\u00e9rica Latina e no mundo. Antes mesmo da queda do Muro de Berlim (em 1989) e da autodissolu\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica (em 1991) a crise polonesa e a emerg\u00eancia do sindicato Solidariedade, apontavam internacionalmente para a possibilidade (ou, ao menos, para a necessidade) de uma alternativa p\u00f3s-comunista, que seria tamb\u00e9m p\u00f3s-social-democrata, tendo em vista os descaminhos da socialdemocracia europeia naquele momento\u201d.<\/p>\n\n\n<p>Como se v\u00ea, 25 anos depois do primeiro texto citado, a tese b\u00e1sica segue a mesma.<\/p>\n\n\n<p>No texto de 2015, fala-se de projetos de mudan\u00e7a, de novas pol\u00edticas econ\u00f4micas e de uma \u201crevolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u201d. Critica-se o pragmatismo. Mas n\u00e3o se fala do socialismo.<\/p>\n\n\n<p>Lembro que em 1990 a quest\u00e3o se colocava assim: \u201cpara construir seu projeto de transforma\u00e7\u00e3o socialista do Brasil\u201d, o PT precisaria \u201cescapar do dilema bolchevismo x social-democracia\u201d, evitando tanto a \u201cdefesa intransigente da ortodoxia\u201d quanto o \u201cabandono da no\u00e7\u00e3o de socialismo em proveito de um (neo)liberalismo que nem mesmo os (neo)liberais praticam\u201d.<\/p>\n\n\n<p>Quando lemos este texto de 2015, n\u00e3o fica clara a rela\u00e7\u00e3o entre o projeto socialista e a alternativa realmente existente, que veio sendo constru\u00edda desde 1990 at\u00e9 2015.<\/p>\n\n\n<p>Claro que n\u00e3o se deve exagerar neste argumento, pois h\u00e1 outros textos em que a quest\u00e3o \u00e9 mencionada (por exemplo, num texto de 2005 sobre os 25 anos do Partido, quando ele fala da \u201cpossibilidade de uma alternativa nacional, democr\u00e1tica, popular e socialista para o Brasil\u201d).<\/p>\n\n\n<p>Ressalto, neste texto de 2015, a maneira como MAG critica os que apresentam os processos da regi\u00e3o como sendo algo que n\u00e3o s\u00e3o. Vejamos o trecho:<\/p>\n\n\n<p>\u201cA maioria dos processos democr\u00e1ticos em curso na Am\u00e9rica do Sul carece de uma narrativa, a\u00ed inclu\u00eddo o que ocorre no Brasil\u201d.<\/p>\n\n\n<p>\u201cNo que vem ocorrendo na Am\u00e9rica do Sul nesta \u00faltima d\u00e9cada, onde h\u00e1 claros ind\u00edcios de um processo de revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica em curso, h\u00e1, o risco de revestir essas transforma\u00e7\u00f5es de um conte\u00fado que n\u00e3o lhe \u00e9 pr\u00f3prio e at\u00e9 mesmo oposto\u201d.<\/p>\n\n\n<p>\u201cUm discurso fundado em experi\u00eancias revolucion\u00e1rias passadas e \u00a0fracassadas n\u00e3o ser\u00e1 capaz de ocupar o vazio que a aus\u00eancia de uma narrativa original sobre o processo de inven\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica em curso deixa.<\/p>\n\n\n<p>E \u00e9 nesse ponto e dessa forma que o tema do socialismo aparece: como desdobramento da democracia.<\/p>\n\n\n<p>\u201cUma das contribui\u00e7\u00f5es que Lefort nos deixou foi a de associar o destino do\u00a0\u00a0 \u00a0socialismo \u00e0s perspectivas da revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica. Por isso ele abre \u00a0sua reflex\u00e3o sobre a experi\u00eancia sovi\u00e9tica \u2013 no\u00a0<em>La Complication<\/em>\u00a0\u2013 com a frase aparentemente paradoxal: \u201cO comunismo pertence ao passado; por outro lado, a quest\u00e3o do comunismo permanece no cora\u00e7\u00e3o de nosso tempo.\u201d<\/p>\n\n\n<p>O comunismo permanece no cora\u00e7\u00e3o. Mas a \u201cequa\u00e7\u00e3o\u201d que conduz\u00a0<em>da revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica ao socialismo<\/em>\u00a0n\u00e3o deixa de ser uma atualiza\u00e7\u00e3o customizada da f\u00f3rmula socialdemocrata citada por MAG no texto de 1990, a saber: \u201cO socialismo passava a ser o pr\u00f3prio movimento pelas reformas\u201d. A f\u00f3rmula reformista \u00e9 radicalizada no \u00faltimo texto de MAG (de 2017), como foi destacado, com prop\u00f3sitos distintos, pelo professor Victor Marques.<\/p>\n\n\n<p>MAG termina o texto de 2015 conclamando a democracia, n\u00e3o o socialismo. \u00c9 sintom\u00e1tico que uma tradi\u00e7\u00e3o te\u00f3rica que insistiu tanto em n\u00e3o dissociar socialismo e democracia, termine in\u00fameras vezes cometendo &#8211; com sinais trocados &#8211; a justamente criticada atitude daqueles que diziam que primeiro o socialismo, depois a democracia.<\/p>\n\n\n<p><strong>#<\/strong><\/p>\n\n\n<p>J\u00e1 comentamos que no terreno da pol\u00edtica geral do PT e do governo, a influ\u00eancia foi relativamente menor.<\/p>\n\n\n<p>Isso fica claro no balan\u00e7o que MAG fez em 2005, no anivers\u00e1rio de 25 anos do Partido, seja no que diz acerca do \u201cinterregno do governo Itamar, que o PT equivocadamente decidiu n\u00e3o integrar\u201d, seja quando ele diz que \u201co Plano Real e o governo FHC n\u00e3o eram um plano\/governo \u201cde direita\u201d, mas se transformaram na alternativa \u201cda direita\u201d.<\/p>\n\n\n<p>Por outro lado, nesse mesmo texto MAG diz que o \u201cdiscurso sobre a pol\u00edtica econ\u00f4mica apresentou dois graves problemas. Primeiro, coincide com o dos conservadores, quando celebra unilateralmente alguns aspectos \u2013 metas de infla\u00e7\u00e3o, super\u00e1vit prim\u00e1rio, risco pa\u00eds \u2013 e silencia ou \u00e9 parcimonioso sobre quest\u00f5es-chave como a forte diminui\u00e7\u00e3o de nossa vulnerabilidade externa. Segundo, n\u00e3o tem sido capaz de explicitar um projeto estrat\u00e9gico de desenvolvimento que aponte mais al\u00e9m do nacional-desenvolvimentismo e do receitu\u00e1rio do Consenso de Washington\u201d.<\/p>\n\n\n<p>Tive a oportunidade de ver MAG defendendo esta abordagem, que usando minhas palavras resumo assim: nossa pr\u00e1tica seria melhor do que nossa teoria; cabe-nos mudar a \u201cnarrativa\u201d. Deixo para outra ocasi\u00e3o polemizar com esta abordagem \u201cnarrativa\u201d, que virou moda em alguns meios; mas no terreno f\u00e1tico, o discurso sobre a pol\u00edtica econ\u00f4mica n\u00e3o era apenas um discurso, correspondia a hegemonia de um setor \u2013 liderado por Palocci \u2013 que deu continuidade \u00e0 parte das pol\u00edticas adotadas no per\u00edodo FHC.<\/p>\n\n\n<p>MAG adotava \u2013 nos textos e nas apari\u00e7\u00f5es p\u00fablicas \u2013 uma atitude cr\u00edtica, mas muito cautelosa, o que \u00e9 compreens\u00edvel dado seu papel no governo e sua op\u00e7\u00e3o na \u201cluta interna\u201d. A quest\u00e3o \u00e9 saber se esta cautela \u2013 politicamente compreens\u00edvel \u2013 afetou a qualidade de sua an\u00e1lise.<\/p>\n\n\n<p>Por estes e outros motivos, \u00e9 preciso saber como lidar com a an\u00e1lise hist\u00f3rica e com o debate te\u00f3rico. Discutir a influ\u00eancia efetiva de MAG e de suas propostas em determinados acontecimentos \u00e9 diferente de interpretar determinados acontecimentos \u00e0 luz das op\u00e7\u00f5es program\u00e1ticas e estrat\u00e9gicas propostas por MAG.<\/p>\n\n\n<p>Para exemplificar com um tema que foi abordado por Victor Marques na aula-debate: uma coisa \u00e9 analisar as condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas em que uma ditadura revolucion\u00e1ria se imp\u00f5e; outra coisa \u00e9 formular uma teoria acerca da ditadura do proletariado. Quaisquer que sejam as posi\u00e7\u00f5es que se tenha, s\u00e3o \u00e2mbitos diferentes.<\/p>\n\n\n<p>Neste sentido, mesmo que possamos concluir que a posi\u00e7\u00e3o de MAG foi, em um caso concreto, a \u201cpoliticamente correta\u201d, isto n\u00e3o se estende necessariamente \u00e0 suas premissas te\u00f3ricas; e vice-versa: uma derrota n\u00e3o invalida necessariamente as premissas dos derrotados.<\/p>\n\n\n<p>Os tr\u00eas livros publicados pela FPA contribuem para que se possa fazer esta discuss\u00e3o, embora de maneira insuficiente, primeiro porque muitos dos textos s\u00e3o fortemente marcados pela ret\u00f3rica oficial, segundo porque constituem apenas pequena parte dos textos de MAG. \u00c9 l\u00edquido e certo que seus arquivos revelar\u00e3o muita coisa interessante.<\/p>\n\n\n<p>Feitas estas ressalvas, os textos publicados no livro\u00a0<em>A op\u00e7\u00e3o Sul-americana<\/em>\u00a0confirmam os pontos fortes e os pontos fracos do programa e da estrat\u00e9gia defendidas por Marco Aur\u00e9lio.<\/p>\n\n\n<p>Quanto aos pontos fortes, me concentro naquilo que \u00e9 citado no artigo de Maria Regina Soares de Lima no Dossi\u00ea: \u201ca heterogeneidade pol\u00edtica e ideol\u00f3gica da Am\u00e9rica do Sul\u201d; \u201ca unidade regional constitui imperativo estrat\u00e9gico\u201d; \u201ca tarefa da pol\u00edtica externa altiva e ativa \u00e9 impedir que a heterogeneidade se transforme em divis\u00e3o e polariza\u00e7\u00e3o, condi\u00e7\u00f5es que nos colocaria em extrema fragilidade diante da amea\u00e7a de interven\u00e7\u00e3o externa\u201d; \u201cescrevendo em 2005, divergia das raqu\u00edticas an\u00e1lises correntes que identificavam uma esquerda populista, do mal, e uma socialdemocrata, do bem\u201d.<\/p>\n\n\n<p>J\u00e1 os pontos fracos &#8211; que na minha opini\u00e3o decorrem direta e indiretamente da \u201cchave de leitura\u201d j\u00e1 citada \u2013 dizem respeito a aus\u00eancia de uma reflex\u00e3o de fundo: 1\/ sobre as tend\u00eancias do capitalismo e do imperialismo; 2\/ sobre as possibilidades do desenvolvimento capitalista na regi\u00e3o; 3\/sobre a China.<\/p>\n\n\n<p>No caso da China, a explica\u00e7\u00e3o me parece a seguinte: a sobreviv\u00eancia e fortalecimento do PC chin\u00eas mantinha algum n\u00edvel de contradi\u00e7\u00e3o com a opini\u00e3o de MAG sobre o esgotamento da tradi\u00e7\u00e3o comunista. J\u00e1 falei a respeito num texto em que polemizo com artigo recente do professor Fiori, portanto n\u00e3o vou insistir aqui.<\/p>\n\n\n<p>Quanto aos outros dois pontos, penso que na pr\u00e1tica se caminhou no sentido de superestimar as possibilidades de uma \u201cconviv\u00eancia pac\u00edfica\u201d com os Estados Unidos e, tamb\u00e9m, as possibilidades de desenvolver um \u201ccapitalismo de novo tipo\u201d na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n<p>Para exemplificar, cito alguns trechos extra\u00eddos dos textos publicados no livro supracitado:<\/p>\n\n\n<p>No texto \u201cO melanc\u00f3lico fim de s\u00e9culo da pol\u00edtica externa\u201d:<\/p>\n\n\n<p>\u201cO governo Lula definiu desde 2003 seus objetivos fundamentais: a retomada do crescimento econ\u00f4mico, capaz de reverter a tend\u00eancia de d\u00e9cadas de recess\u00e3o ou crescimento med\u00edocre; a compatibiliza\u00e7\u00e3o desse crescimento com um processo de distribui\u00e7\u00e3o de renda, alicer\u00e7ado na constru\u00e7\u00e3o de um mercado de bens de consumo de massas, por sua vez ancorado na expans\u00e3o do emprego e dos sal\u00e1rios, na oferta ampliada de cr\u00e9dito e nas pol\u00edticas de transfer\u00eancia de renda; a conquista do equil\u00edbrio macroecon\u00f4mico, que se encontrava amea\u00e7ado em 2002, e a redu\u00e7\u00e3o da vulnerabilidade externa, em grande medida lograda pela extraordin\u00e1ria amplia\u00e7\u00e3o e diversifica\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio exterior; o aprofundamento da democracia e a inser\u00e7\u00e3o internacional soberana do pa\u00eds.\u00a0\u2009A todos esses elementos se somava a decis\u00e3o de dar maior consist\u00eancia \u00e0 integra\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica do Sul\u201d.<\/p>\n\n\n<p>Notem que o tema da (re)industrializa\u00e7\u00e3o n\u00e3o comparece nesta s\u00edntese; e a redu\u00e7\u00e3o a vulnerabilidade externa seria \u201cem grande medida\u201d lograda pela via do com\u00e9rcio. Com\u00e9rcio de qu\u00ea? Cito novamente MAG:<\/p>\n\n\n<p>\u201cEssa op\u00e7\u00e3o decorre da percep\u00e7\u00e3o brasileira acerca das potencialidades da Am\u00e9rica do Sul no mundo de hoje, mas, sobretudo, no de amanh\u00e3. O continente tem o maior e mais diversificado potencial energ\u00e9tico do planeta \u2013 se levarmos em conta suas reservas hidrel\u00e9tricas, de g\u00e1s e de petr\u00f3leo, al\u00e9m de sua capacidade de produ\u00e7\u00e3o de biocombust\u00edveis. A Am\u00e9rica do Sul possui a maior reserva de \u00e1gua doce do mundo. Sua agricultura ocupa lugar de destaque, n\u00e3o s\u00f3 pela extens\u00e3o e fertilidade de suas terras como pelos avan\u00e7os cient\u00edficos e tecnol\u00f3gicos alcan\u00e7ados nos \u00faltimos anos. Suas jazidas minerais s\u00e3o enormes e diversas. Para um mundo que se mostra (e se mostrar\u00e1 mais ainda) \u00e1vido de energia, \u00e1gua, alimentos e min\u00e9rios, os fatores antes alinhados mostram qu\u00e3o relevante pode ser a contribui\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o para o desenvolvimento da humanidade. Some-se a tudo isso a rica biodiversidade do continente, o tamanho de sua popula\u00e7\u00e3o, a extens\u00e3o e a diversidade de seu territ\u00f3rio e clima\u201d.<\/p>\n\n\n<p>E s\u00f3 depois deste desfile prim\u00e1rio-exportador vem o complemento:<\/p>\n\n\n<p>\u201cA Am\u00e9rica do Sul tem um parque industrial de porte, ainda que concentrado em poucos pa\u00edses. Abriga universidades e centros de pesquisa cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica de alta qualidade.\u00a0\u2009Possui uma exuberante cultura\u201d.<\/p>\n\n\n<p>Como foi ressaltado anteriormente, o texto glosado \u00e9 em certa medida \u201coficial\u201d. Mas o que est\u00e1 escrito est\u00e1 escrito. E n\u00e3o admira que, por este caminho, MAG logo se veja na obriga\u00e7\u00e3o de defender o \u201cpopulismo\u201d contra as cr\u00edticas de direita.<\/p>\n\n\n<p><strong>A esse respeito, ele diz assim:<\/strong><\/p>\n\n\n<p>\u201cMuitos analistas n\u00e3o hesitam em caracterizar o fen\u00f4meno como \u201crenascimento do nacionalismo-populista\u201d \u2013 qualificado como \u201carca\u00edsmo\u201d, posto que remeteria \u00e0s problem\u00e1ticas dos anos 1950 na regi\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n<p>\u201cA den\u00fancia do \u201cnacionalismo populista\u201d como \u201carca\u00edsmo\u201d \u00e9 ela mesma \u201carcaica\u201d, pol\u00edtica e conceitualmente. Reflete, em vers\u00e3o atualizada, os mesmos preconceitos que marcaram a avalia\u00e7\u00e3o de fen\u00f4menos como o peronismo na Argentina, ao qual se procurou, muitas vezes, colar a etiqueta \u201cfascista\u201d.<\/p>\n\n\n<p>Noutro texto, intitulado \u201cDez anos de pol\u00edtica externa\u201d (2003), MAG chega a dizer o seguinte:<\/p>\n\n\n<p>\u201c\u00c9 importante destacar, entretanto, que essa voca\u00e7\u00e3o para celeiro do mundo da regi\u00e3o n\u00e3o depende exclusivamente de fatores naturais ou mesmo de uma for\u00e7a de trabalho barata, como no velho modelo agroexportador. A agricultura da regi\u00e3o \u2013 em particular a brasileira \u2013 ganhou altos n\u00edveis de produtividade em fun\u00e7\u00e3o da pesquisa cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica, da qual uma entidade como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu\u00e1ria (Embrapa) \u00e9 paradigm\u00e1tica. A Am\u00e9rica do Sul possui grandes florestas e uma opulenta (e inexplorada) biodiversidade, al\u00e9m de um rico e diversificado acervo mineral\u201d.<\/p>\n\n\n<p>\u201cNos \u00faltimos anos, conflitos em torno de impactos ambientais e\/ou sociais de grandes projetos energ\u00e9ticos, de log\u00edstica ou mineiros, ganharam visibilidade e testemunharam o avan\u00e7o da democracia. Reduziu-se o espa\u00e7o para a\u00e7\u00f5es predat\u00f3rias contra a natureza ou em detrimento de povos origin\u00e1rios\u201d.<\/p>\n\n\n<p>\u201cO parque industrial da regi\u00e3o \u00e9 relevante, a despeito de problemas conjunturais. Materializando-se a preocupa\u00e7\u00e3o de muitos governos da Am\u00e9rica do Sul de levar adiante amplos programas de forma\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra e de inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, a ind\u00fastria poder\u00e1 atingir um novo patamar, compar\u00e1vel ao das economias emergentes mais competitivas\u201d.<\/p>\n\n\n<p>\u201cUm dado demogr\u00e1fico \u00e9 essencial: 400 milh\u00f5es de sul-americanos formam parte do mercado de consumo, beneficiados em grande medida por pol\u00edticas de inclus\u00e3o social. A relev\u00e2ncia desse mercado de bens de consumo de massa p\u00f4de ser constatada quando da irrup\u00e7\u00e3o da crise econ\u00f4mica mundial a partir de 2008. O retraimento dos fluxos comerciais internacionais foi compensado pelo vigor do mercado interno\u201d.<\/p>\n\n\n<p>Aqui fa\u00e7o um par\u00eantesis: H\u00e1 alguns anos, tive a oportunidade de assistir a uma palestra de um chanceler de outro pa\u00eds, pessoa que cumpriu um bel\u00edssimo papel em Mar del Plata no enterro da ALCA. E o que ouvi foi mais ou menos o seguinte: que a experi\u00eancia dos governos progressistas da regi\u00e3o havia demostrado que certas ideias dos anos 1950 \u2013 por exemplo, a cr\u00edtica a troca desigual, a maldi\u00e7\u00e3o do prim\u00e1rio-exportador etc., as palavras s\u00e3o minhas mas o sentido era esse \u2013 n\u00e3o teriam mais a mesma vig\u00eancia.<\/p>\n\n\n<p>Na minha opini\u00e3o, a experi\u00eancia dos chamados governos progressistas e de esquerda demonstrou o contr\u00e1rio: que o tipo de desenvolvimento poss\u00edvel com base numa economia prim\u00e1rio exportadora ser\u00e1 sempre limitado. E o \u201cvigor do mercado interno\u201d nem de longe d\u00e1 conta do problema \u2013 que na minha opini\u00e3o depende um imenso investimento estatal, concentrado em bens dur\u00e1veis de consumo p\u00fablico (ferrovias, hidrovias, reconstru\u00e7\u00e3o das cidades etc.).<\/p>\n\n\n<p>Voltando ao texto de MAG de 2013: nele fica expl\u00edcito o quanto se subestimou a crise de 2008 e seus desdobramentos. L\u00e1 se pode ler o seguinte:<\/p>\n\n\n<p>\u201cEssa crise teve consequ\u00eancias muito distintas daquela que abalou o mundo em 1929, quando o continente enfrentou grave depress\u00e3o econ\u00f4mica e social e aguda instabilidade pol\u00edtica. A \u00faltima d\u00e9cada tem mostrado a Am\u00e9rica do Sul como uma regi\u00e3o est\u00e1vel, onde se fortalece a democracia. Com exce\u00e7\u00e3o do epis\u00f3dio da destitui\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria de Fernando Lugo no Paraguai \u2013 pronta e unanimemente condenada pelo\u00a0Mercosul\u00a0e pela\u00a0Unasul\u00a0\u2013, os presidentes de todos os demais pa\u00edses da regi\u00e3o foram eleitos em pleitos limpos e com forte participa\u00e7\u00e3o popular\u201d.<\/p>\n\n\n<p>Parte da subestima\u00e7\u00e3o tinha ra\u00edzes na an\u00e1lise econ\u00f4mica, parte tinha ra\u00edzes na an\u00e1lise pol\u00edtica. E esta \u00faltima inclu\u00eda subestimar de um lado o imperialismo e, de outro subestimar a direita brasileira, em particular as for\u00e7as armadas.<\/p>\n\n\n<p>Sobre a subestima\u00e7\u00e3o do imperialismo, destaco o seguinte trecho:<\/p>\n\n\n<p><strong>\u201c<\/strong>A transforma\u00e7\u00e3o de um at\u00e9 ent\u00e3o an\u00f3dino G20 financeiro em uma inst\u00e2ncia de maior peso, revelou que as grandes pot\u00eancias passavam a reconhecer \u2013 ainda que sem tirar todas as consequ\u00eancias \u2013 n\u00e3o ser mais poss\u00edvel enfrentar o grave momento que vivia a humanidade com o mesmo grupo de pa\u00edses, sobretudo, porque eles tinham responsabilidade central na cat\u00e1strofe que se desenhava\u201d.<\/p>\n\n\n<p>Quanto \u00e0s for\u00e7as armadas, infelizmente a pol\u00edtica externa deu sua dose de contribui\u00e7\u00e3o ao que ocorreria a partir de 2016, ao n\u00e3o enxergar certos efeitos colaterais da participa\u00e7\u00e3o na MINUSTAH. A esse respeito, MAG diz o seguinte:<\/p>\n\n\n<p>\u201cQuando o Brasil integra e comanda a\u00a0Minustah, no Haiti, ao abrigo das Na\u00e7\u00f5es Unidas e do Direito Internacional, ele est\u00e1 n\u00e3o apenas participando de uma iniciativa multilateral, mas dando sentido pr\u00f3prio a esse tipo de miss\u00e3o, distinto das interven\u00e7\u00f5es internacionais passadas em pa\u00edses demandantes de estabiliza\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n<p>Em 2014, no texto \u201cAs novas faces da integra\u00e7\u00e3o regional\u201d, MAG diz o seguinte:<\/p>\n\n\n<p>\u201cTodos os elementos expostos at\u00e9 aqui esbo\u00e7am uma explica\u00e7\u00e3o de por que a regi\u00e3o \u2013 apesar de viver os problemas da crise de 2008 \u2013 p\u00f4de resistir, melhor que outras partes do mundo, \u00e0s turbul\u00eancias externas, ao mesmo tempo que atra\u00eda um significativo n\u00famero de investimentos internacionais e mantinha suas conquistas sociais, necess\u00e1rias para reduzir as desmesuradas iniquidades ainda latentes\u201d.<\/p>\n\n\n<p><strong>\u201c<\/strong>A realidade \u00e9 que hoje a Am\u00e9rica Latina e o Caribe t\u00eam pouca import\u00e2ncia na pol\u00edtica externa dos EUA, como ocorrera em outras d\u00e9cadas. Entretanto, j\u00e1 em algumas ocasi\u00f5es os EUA voltaram seus olhos, em termos diplom\u00e1ticos, para a Am\u00e9rica Latina, no momento em que sentiram sua hegemonia amea\u00e7ada na regi\u00e3o. Foi assim durante a Segunda Guerra Mundial, quando formularam a pol\u00edtica de &#8220;boa vizinhan\u00e7a. (&#8230;) Dito isso, a rela\u00e7\u00e3o com os EUA tem que se assentar sobre novas bases. N\u00e3o se pode persistir em um antiamericanismo \u2013 que tem justificativas prescritas em outros tempos \u2013 nem em um alinhamento incondicional, tamb\u00e9m obsoleto\u201d.<\/p>\n\n\n<p>Depois do impeachment, num texto de 2017, publicado numa colet\u00e2nea organizada por mim, intitulada\u00a0<em>Uma pol\u00edtica externa altiva e ativa<\/em>, MAG diz o seguinte:<\/p>\n\n\n<p>\u201cS\u00e3o muitos os sinais de involu\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o sul-americana: a prolongada crise venezuelana, as press\u00f5es da direita no Equador, a derrota de Evo Morales no plebiscito boliviano, a vit\u00f3ria de Macri na Argentina, as dificuldades do governo de Michelle Bachelet no Chile, a exclus\u00e3o da esquerda no segundo turno da elei\u00e7\u00e3o presidencial peruana, a derrota da proposta de paz no referendo da Col\u00f4mbia, para citar os exemplos mais relevantes.\u201d<\/p>\n\n\n<p>Mesmo assim MAG afirma que a pol\u00edtica externa brasileira, pol\u00edtica\u00a0\u201cque alguns tentaram qualificar depreciativamente como \u201cterceiro mundista\u201d \u2013 n\u00e3o nos tenha afastado das grandes pot\u00eancias. Se assim fosse, como explicar as boas rela\u00e7\u00f5es que mantivemos com os Estados Unidos, a despeito de inevit\u00e1veis contenciosos, ou o fato de haver sido o Brasil considerado como \u201caliado estrat\u00e9gico\u201d da Uni\u00e3o Europeia, logo ap\u00f3s a China?\u00a0Como explicar, igualmente, nossa presen\u00e7a como convidado \u00e0s reuni\u00f5es do G8 e, posteriormente, nossa presen\u00e7a destacada nas negocia\u00e7\u00f5es da Rodada Doha (da OMC) e no G20 financeiro, que teve destacado papel para evitar que a crise de 2008 se transformasse rapidamente em cat\u00e1strofe?\u201d<\/p>\n\n\n<p>MAG conclui seu texto dizendo que\u00a0\u201cser\u00e1 fundamental avan\u00e7ar (nacional e regionalmente) na (auto)cr\u00edtica desses 15 anos de emerg\u00eancia de movimentos sociais, de transforma\u00e7\u00f5es governamentais e de surgimento de uma nova cultura pol\u00edtica. N\u00e3o h\u00e1 boas pol\u00edticas sem um forte debate de ideias. Constrangidos pelos desafios do exerc\u00edcio das tarefas governamentais, fomos frequentemente negligentes em realizar uma reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre a heran\u00e7a passada e sobre os desafios futuros. Essa reflex\u00e3o n\u00e3o \u00e9 condi\u00e7\u00e3o suficiente, mas necess\u00e1ria, para nossa a\u00e7\u00e3o. (&#8230;) \u00c9 fundamental entender que est\u00e1 em curso uma grande mudan\u00e7a geopol\u00edtica no mundo. N\u00e3o s\u00f3 entender, mas revert\u00ea-la\u201d.<\/p>\n\n\n<p>O que talvez seja o \u00faltimo texto publicado em vida por MAG saiu no\u00a0<em>LMD<\/em>, em junho de 2017 e se intitula exatamente \u201cRetomar o ciclo progressista\u201d:<\/p>\n\n\n<p>\u201cn\u00e3o era o socialismo que estava em jogo. As transi\u00e7\u00f5es colocavam na ordem do dia reivindica\u00e7\u00f5es de democracia pol\u00edtica, econ\u00f4mica e social no marco do capitalismo\u201d.<\/p>\n\n\n<p>\u201cPara tanto, em vez de uma hoje improv\u00e1vel revolu\u00e7\u00e3o permanente, ou de uma reca\u00edda social liberal, abre-se o espa\u00e7o para a inven\u00e7\u00e3o de um processo permanente de reformas, com as quais o pr\u00f3prio capitalismo realmente existente tenha dificuldades de conviver e, por essa raz\u00e3o, possa ser desestabilizado, abrindo espa\u00e7o para mudan\u00e7as importantes\u201d.<\/p>\n\n\n<p>\u201cTendo claro que a revolu\u00e7\u00e3o dos anos 1960 n\u00e3o mais estava na ordem do dia, os governos e partidos progressistas seguiram o caminho de reformas inclusivas. Mas n\u00e3o foram capazes, na maioria dos casos, de impulsionar um reformismo forte, para retomar uma express\u00e3o cara \u00e0 esquerda italiana, capaz de dar perenidade e sustentabilidade pol\u00edtica \u00e0s importantes transforma\u00e7\u00f5es em curso\u201d.<\/p>\n\n\n<p>\u201cO mal n\u00e3o est\u00e1 em fazer reformas e deixar de \u201cfazer a revolu\u00e7\u00e3o\u201d ou por ela esperar uma eternidade, limitando-se ao exerc\u00edcio cr\u00edtico do capitalismo ou dos desvios das esquerdas. O problema est\u00e1 em n\u00e3o inserir um processo de reformas em uma vis\u00e3o de longo prazo de mudan\u00e7a social, pol\u00edtica e cultural, capaz de mobilizar uma sociedade que n\u00e3o pode ser reduzida ao papel de espectador. \u00c9 a liga\u00e7\u00e3o constante de governos e partidos com a sociedade que impede uma leitura individualista e conservadora das transforma\u00e7\u00f5es em curso, como tem aparecido em muitas pesquisas\u201d.<\/p>\n\n\n<p>A l\u00f3gica embutida neste racioc\u00ednio, feito em 2017, pode ser melhor compreendida a partir do que est\u00e1 num texto de 1997, sobre o\u00a0<em>Manifesto Comunista<\/em>. Citemos:<\/p>\n\n\n<p>\u201cRompendo com o pensamento \u00fanico, este mundo do fim de s\u00e9culo aparece n\u00e3o s\u00f3 como um campo de constrangimentos econ\u00f4micos, sociais e pol\u00edticos, mas tamb\u00e9m como um espa\u00e7o de enormes oportunidades para o progresso e bem-estar humanos, que n\u00e3o se realizar\u00e3o nos marcos de uma sociedade capitalista, ainda que reformada\u201d.<\/p>\n\n\n<p>\u201cAbre-se, assim, claramente a problem\u00e1tica de um mundo p\u00f3s-capitalista. Mas, ao inv\u00e9s de construir a utopia de uma sociedade alternativa que os progressos materiais de hoje podem viabilizar facilmente, melhor \u00e9 concentrar a reflex\u00e3o sobre os meios de enfrentar a barb\u00e1rie capitalista na sua vers\u00e3o neoliberal e de construir os instrumentos de sua supera\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n<p>Porque seria \u201cmelhor\u201d concentrar esfor\u00e7os contra a \u201cvers\u00e3o neoliberal\u201d?<\/p>\n\n\n<p>Uma poss\u00edvel resposta est\u00e1 em um texto posterior, de 2001, onde afirma-se o seguinte:<\/p>\n\n\n<p>\u201cUm programa socialista para o s\u00e9culo XXI, diferentemente de outros no passado, n\u00e3o parte de uma meta constru\u00edda a partir da qual se desenhar\u00e1 um caminho para atingi-la. N\u00e3o se trata de um movimento teleol\u00f3gico. Sua \u00fanica premissa: o capitalismo n\u00e3o \u00e9 o fim da hist\u00f3ria e, portanto, coloca-se no horizonte, ainda que em forma imprecisa, uma sociedade p\u00f3s-capitalista. A diferen\u00e7a est\u00e1 em que o processo que conduz a essa sociedade \u00e9 t\u00e3o importante quanto o resultado. Este n\u00e3o pode ser separado daquele. Movimento (meios) e fins se articulam mutuamente. Vou, ent\u00e3o, alinhar alguns temas que me parecem importantes para essa agenda do socialismo no s\u00e9culo XXI\u201d.<\/p>\n\n\n<p>Os temas abordados por MAG neste texto de 2001 s\u00e3o: INTERNACIONALISMO E NA\u00c7\u00c3O; PROPRIEDADE, MERCADO, PLANEJAMENTO, REGULA\u00c7\u00c3O; A IGUALDADE SOCIAL; O MUNDO DO TRABALHO; NOVOS PARADIGMAS DE DESENVOLVIMENTO; A SOCIALIZA\u00c7\u00c3O DA POL\u00cdTICA; EXPLORA\u00c7\u00c3O E OPRESS\u00c3O; SOCIALISMO, CULTURA E CONHECIMENTO; SUJEITOS SOCIAIS; PARTIDO E MOVIMENTO.<\/p>\n\n\n<p>Mas para os fins que estamos debatendo aqui, o tema mais importante \u00e9 intitulado \u201cO processo\u201d, onde MAG diz o seguinte:<\/p>\n\n\n<p>\u201cA luta pelo socialismo envolve em muitos pa\u00edses, e este \u00e9 o caso brasileiro, uma curiosa rela\u00e7\u00e3o com o capitalismo\u00a0<em>realmente existente<\/em>\u00a0no pa\u00eds. Um programa de transforma\u00e7\u00f5es centrado em reformas econ\u00f4micas de cunho fortemente redistributivista, que exija uma reorienta\u00e7\u00e3o importante do modelo de desenvolvimento, associadas a um processo de radicaliza\u00e7\u00e3o da democracia e de defesa da soberania nacional com a correspondente designa\u00e7\u00e3o de um novo lugar para o Brasil no mundo, pode ter pouco a ver com o socialismo e ser at\u00e9 entendido como um projeto de fortalecimento do capitalismo brasileiro. Essas reformas, consolidando abstratamente o capitalismo no Brasil, desestabilizam-no concretamente, sempre e quando as mudan\u00e7as forem resultado de intensa mobiliza\u00e7\u00e3o social\u201d.<\/p>\n\n\n<p>\u201cAbre-se, ent\u00e3o, um processo continuado de transforma\u00e7\u00f5es em que as conquistas parciais preparam novas conquistas e sinalizam que as possibilidades de reformas profundas deixam o terreno das possibilidades para transformar-se em viabilidades\u201d.<\/p>\n\n\n<p>\u201cPara tanto, e especialmente no plano das transforma\u00e7\u00f5es internacionais, deve-se estabelecer uma dial\u00e9tica entre a consci\u00eancia dos constrangimentos e a vontade pol\u00edtica de venc\u00ea-los. Pol\u00edtica \u00e9 a\u00e7\u00e3o, e por maiores que sejam suas exig\u00eancias de racionalidade h\u00e1 uma margem para decis\u00e3o e a\u00e7\u00e3o transformadoras da vontade humana\u201d.<\/p>\n\n\n<p>Como se pode ver pelos textos acima, as j\u00e1 apontadas limita\u00e7\u00f5es dos textos publicados no livro\u00a0<em>A op\u00e7\u00e3o Sul-americana\u00a0<\/em>devem ser lidas em di\u00e1logo com os textos que integram o livro\u00a0<em>Construir o amanh\u00e3. Reflex\u00f5es sobre a esquerda (1983-2017)<\/em>.<\/p>\n\n\n<p><strong>#<\/strong><\/p>\n\n\n<p>Para concluir, quero destacar o texto apresentado por MAG em um encontro das funda\u00e7\u00f5es Maur\u00edcio Grabois (PCdoB), Perseu Abramo (PT) e Leonel Brizola \u2013 Alberto Pasqualini (PDT). O encontro ocorreu no dia 14 de julho de 2017, portanto seis dias antes da partida de MAG.<\/p>\n\n\n<p>O texto se intitula \u201cCONSTRUIR O AMANH\u00c3\u201d. O professor Victor Marques fez v\u00e1rios elogios a este texto, a come\u00e7ar pelo t\u00edtulo, que ele considera \u201cpo\u00e9tico\u201d. \u00d3bvio que o texto tem muitas qualidades, mas o que me chamou a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 o fato de que o \u201camanh\u00e3\u201d n\u00e3o inclui nenhuma refer\u00eancia, nem mesmo ritual, ao tema do socialismo.<\/p>\n\n\n<p>Considero isto uma lacuna espantosa, entre outros motivos porque n\u00e3o tenho d\u00favida alguma de que MAG foi um socialista convicto e militante at\u00e9 o \u00faltimo segundo de sua vida. E o referido texto foi lido em um espa\u00e7o de funda\u00e7\u00f5es de partidos que, em maior ou menor medida, tem rela\u00e7\u00e3o com a tradi\u00e7\u00e3o socialista. Portanto, a aus\u00eancia de qualquer refer\u00eancia \u00e0 \u201cpalavra maldita\u201d n\u00e3o \u00e9 um detalhe menor.<\/p>\n\n\n<p>Como para mim fica claro da leitura do par\u00e1grafo a seguir, trata-se do efeito colateral de uma linha pol\u00edtica, que nos dias que correm convencionou-se chamar de \u201cfrente ampla\u201d:<\/p>\n\n\n<p>\u201cAs for\u00e7as progressistas aqui reunidas sabem que t\u00eam um caminho complexo e \u00e1rduo a percorrer. Que exige derrotar os atuais donos do poder e que sup\u00f5e entender criticamente as raz\u00f5es da grande derrota que sofremos. Mas que depende, tamb\u00e9m, e essencialmente, de nossa capacidade de formar uma grande coaliz\u00e3o social e pol\u00edtica capaz de construir um novo amanh\u00e3 para o Brasil. Essa coaliz\u00e3o tem de ser mais ampla que o espa\u00e7o das esquerdas. Aos setores progressistas, representados por partidos de esquerda e movimentos sociais hoje agrupados em Frentes de interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, compete conduzir um movimento, que se faz cada vez maior e mais combativo. Compete fundamentalmente atrair amplos setores democr\u00e1ticos em todas as esferas da sociedade brasileira, inclusive aqueles que, equivocados, participaram da aventura golpista\u201d.<\/p>\n\n\n<p>A aus\u00eancia de refer\u00eancia explicita ao socialismo enquanto parte integrante do \u201camanh\u00e3\u201d a ser constru\u00eddo tem implica\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas sobre a pot\u00eancia de nossa a\u00e7\u00e3o, aqui e agora. N\u00e3o se trata apenas da discuss\u00e3o program\u00e1tica, t\u00e1tica e estrat\u00e9gica. H\u00e1 um elemento mais de fundo: uma das causas da derrota sofrida em 2016 \u00e9 a aus\u00eancia de uma permanente batalha ideol\u00f3gica em favor de uma cultura de massas de novo tipo. E \u00e9 imposs\u00edvel para n\u00f3s travar esta batalha abrindo m\u00e3o da defesa expl\u00edcita do socialismo, pois \u00e9 esta defesa que \u201cd\u00e1 liga\u201d e \u201csentido\u201d ao conjunto da obra. A n\u00e3o ser, \u00e9 claro, que se aceite que o movimento (cego) \u00e9 tudo, o fim nada.<\/p>\n\n\n<p>N\u00e3o quero exagerar estas conclus\u00f5es e estou certo que os que tiveram contato mais pr\u00f3ximo com MAG e compartilham suas posi\u00e7\u00f5es v\u00e3o corrigir v\u00e1rias afirma\u00e7\u00f5es aqui feitas e v\u00e1rias injusti\u00e7as que possam ter sido cometidas. Mas estou seguro de que MAG apreciaria este tipo de debate.<\/p>\n\n\n<p><strong>#<\/strong><\/p>\n\n\n<p>Para concluir, como relato pessoal, posso dizer que nas \u00faltimas vezes em que estive com MAG, o encontrei cada vez mais preocupado, n\u00e3o apenas com a situa\u00e7\u00e3o em si mesma, mas tamb\u00e9m com a nossa dificuldade de compreender o que estava ocorrendo e o que poderia vir a ocorrer no mundo, na regi\u00e3o e no Brasil.<\/p>\n\n\n<p>Ali\u00e1s, uma de suas \u00faltimas participa\u00e7\u00f5es destacadas na vida interna do PT foi integrar a comiss\u00e3o de teses do 6\u00ba Congresso Nacional do PT (junho de 2017), composta por outras vinte pessoas. Naquela ocasi\u00e3o, MAG contribuiu ativamente para a tentativa de uma reformula\u00e7\u00e3o global da estrat\u00e9gia e do funcionamento partid\u00e1rios, tentativa que terminou frustrada e com ele fora do Diret\u00f3rio Nacional, como j\u00e1 expliquei noutro texto.<\/p>\n\n\n<p>Seja como for, estou seguro de que nos pr\u00f3ximos anos e d\u00e9cadas muitos \u201ccientistas\u201d pol\u00edticos, historiadores e especialistas em pol\u00edtica de rela\u00e7\u00f5es internacionais escrever\u00e3o a respeito de sua vida e obra.<\/p>\n\n\n<p>Para os que tivemos a chance de conhecer e conviver com Marco Aur\u00e9lio \u2013 e tamb\u00e9m, pelo menos no meu caso, disputar duramente contra ele e v\u00e1rias de suas posi\u00e7\u00f5es \u2013 fica a lembran\u00e7a e saudade carinhosa por algu\u00e9m divertido, culto, ateu irredut\u00edvel, um camarada que n\u00e3o tinha vergonha de ser gauche na vida. Faz e seguir\u00e1 fazendo muita falta.<\/p>\n\n\n<p>ps. na aula debate de 20 de julho, a professora falou sobre a import\u00e2ncia de estudarmos n\u00e3o apenas a &#8220;vida&#8221;, mas tamb\u00e9m a obra intelectual de MAG. Isto \u00e9 particularmente verdadeiro para os &#8220;internacionalistas, especialmente para os que estudam a pol\u00edtica externa no per\u00edodo dos governos Lula e Dilma; mas tamb\u00e9m para os que estudam a Am\u00e9rica Latina e Caribe entre 1989 e 2016. Espero que os cursos de gradua\u00e7\u00e3o e p\u00f3s em RRII incluam (ou reforcem a presen\u00e7a) de MAG na sua bibliografia obrigat\u00f3ria. A Universidade ganhar\u00e1 com isto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Convidamos a todas e todos para o lan\u00e7amento do N\u00facleo de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais e Soberania &#8211; Marco Aur\u00e9lio Garcia, do Partido dos Trabalhadores. Dia 11 de dezembro de 2025, 18h Local: Audit\u00f3rio do Diret\u00f3rio Nacional do PT Como contribui\u00e7\u00e3o reproduzimos um texto sobre Marco Aur\u00e9lio Garcia MARCO AUR\u00c9LIO GARCIA VIDA E OBRA O texto abaixo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":92,"featured_media":131375,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_eb_attr":"","footnotes":""},"categories":[7006],"tags":[8337,8338,7280,6584,7354],"area":[122],"coluna":[],"decada":[],"edicao":[],"localidade":[],"marcador_especial":[],"projeto":[],"tema":[220,7183,228],"coauthors":[7007],"class_list":["post-131374","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-new","tag-destaques","tag-cap-emilio","tag-marco-aurelio-garcia","tag-partido-dos-trabalhadores","tag-relacoes-internacionais","area-cooperacao-internacional","tema-policy","tema-pt","tema-society"],"ai_analise_foto_capa":"*T\u00edtulo*: Lan\u00e7amento N\u00facleo Rela\u00e7\u00f5es Internacionais e Soberania Marco Aur\u00e9lio Garcia\n*Resumo Sem\u00e2ntico*: A imagem \u00e9 um convite digital para o lan\u00e7amento do \"N\u00facleo de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais e Soberania Marco Aur\u00e9lio Garcia\". O sentimento \u00e9 de formalidade, relev\u00e2ncia pol\u00edtica e engajamento intelectual. A figura em segundo plano, um homem com \u00f3culos (possivelmente Marco Aur\u00e9lio Garcia), confere um tom de seriedade e homenagem. O p\u00fablico-alvo s\u00e3o militantes, acad\u00eamicos, interessados em pol\u00edtica externa, soberania nacional e membros do Partido dos Trabalhadores. A est\u00e9tica em tons de vermelho e branco refor\u00e7a a identidade partid\u00e1ria e a import\u00e2ncia do tema.\n*Descri\u00e7\u00e3o SEO*: Lan\u00e7amento do N\u00facleo de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais e Soberania Marco Aur\u00e9lio Garcia. Participe deste importante evento em 11 de dezembro, \u00e0s 18h, no audit\u00f3rio do Diret\u00f3rio Nacional do PT. Um encontro fundamental para debater pol\u00edtica externa brasileira, soberania e o legado de Marco Aur\u00e9lio Garcia. 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