Há dez anos, o Brasil acompanhou o afastamento definitivo da primeira mulher eleita presidente da República. Em 31 de agosto de 2016, após seis dias de julgamento, o Senado cassou o mandato de Dilma Rousseff com 61 votos a favor. Naquele dia, muitas brasileiras espalhadas pelo mundo choraram – de vergonha e de tristeza.
Em 2016, cerca de 3,5 milhões de brasileiros viviam no exterior, e as mulheres já eram a maioria entre os emigrantes. Nas eleições de 2014, dos 354 mil eleitores aptos a votar fora do país, apenas 141 mil compareceram, um alto índice de abstenção. Dilma perdeu para Aécio Neves no exterior. Para algumas brasileiras, porém, a reeleição de uma mulher no cargo máximo da República significava uma virada cultural que merecia ser celebrada – e, depois, defendida.
Após a vitória de Dilma, movimentos de direita, influenciados por atores externos e pelas redes sociais, basicamente no Facebook e no Twitter, começaram a se estabelecer e ocupar as ruas das principais capitais brasileiras. A disputa que se desenhava no Brasil se reproduzia nas ruas de outros países. Em março de 2016, brasileiros no exterior realizaram manifestações a favor e contra o impeachment.
A angústia da distância
Samara Azevedo, que vive em Lisboa desde 2014, ajudou a fundar o coletivo Andorinha. O ponto de maior fricção deu-se durante um fórum em Lisboa que reuniria o que ela chama de “comitiva do golpe” – com a presença de Aécio Neves e de José Serra. “Gerou uma mobilização, inicialmente espontânea, na frente da Universidade de Direito da Faculdade de Lisboa”, lembra.
O que a motivou, diz, “foi a angústia de ver tudo à distância. O Ciências Sem Fronteiras, da Dilma, foi o que possibilitou a pessoas da minha classe social pensar em estudar fora. Isso não existia pra gente”. Ela lembra da decepção quando o processo passou pela Câmara. “A gente achou que talvez ali já não ia passar, mas passou, e dali para o Senado, a gente já não tinha muita esperança”.
Samara teve contato direto com Dilma em Lisboa, antes do afastamento definitivo, quando a presidenta falou no Teatro Trindade. Os seiscentos ingressos gratuitos se esgotaram em meia hora, e um telão foi montado do lado de fora. Depois, houve um encontro reservado com a presidenta. “Ela é uma mulher brilhante. Ela falou durante uma hora sobre muitas coisas do Brasil. E naquele momento eu senti muita injustiça”,comenta.
Sobre justiça histórica, Samara não considera que tenha acontecido: “ela recebeu uma justiça contextual. Histórica, talvez não ainda, porque ainda vejo que tem muita gente que acha mesmo que o impeachment foi coerente”. Para ela, a reparação veio mais no plano internacional – como a presidência do Banco dos Brics – do que no Brasil.

“Os militares não perdoaram”
A professora Maria Luiza Lapa de Souza, que vive em Paris, lembra do momento em que algo apontava para o retrocesso que estava por vir. Em sua leitura, foram os militares que não perdoaram o ato assinado pela presidenta de criação da Comissão Nacional da Verdade, em 2012.
“O golpe da Dilma, para mim, foi uma questão ligada também à questão da mulher: uma presidenta do Brasil, uma ex-guerrilheira que foi presa política, torturada… com essas credenciais, os militares não aceitaram”, afirma. “Ela também abriu a Comissão Nacional da Verdade, acho que isso foi fatal”, analisa a professora.
Matemática, Maria Luiza diz ter ficado “muito, muito chocada” com a reação do Congresso Nacional e com as contradições dos deputados – eleitos democraticamente, mas defendendo, segundo ela, “torturadores da ditadura que eram os algozes da democracia”. Ela cita especificamente Jair Bolsonaro e sua deferência ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o torturador de Dilma, durante a votação do impeachment.
No dia 31 de agosto, Maria Luiza estava dando aula em Paris. “Fiquei muito preocupada e entristecida, porque representava também uma mulher que tinha feito muito pelo Brasil”. Ela lamenta não ter tido meios de integrar um movimento de mulheres mais eficaz. “Hoje lamento profundamente isso. Eu acho que na época não compreendi o suficiente o que estava por trás.”
Sobre justiça histórica, é categórica: “Não, ainda não aconteceu, o PT não reagiu de forma a recuperar a imagem da presidenta Dilma, sou muito brava com o PT com relação a isso, acho que temos uma dívida enorme com relação a ela”. E o movimento feminista também “não esteve à altura da personagem que ela foi”, conclui.
Golpe escancarado
Elizabeth Firmino Pereira, artista, arte-educadora e pesquisadora que vive em Madrid desde 2007, diz ter percebido “um padrão diferente” nas redes sociais já em 2013. “Eu comecei a observar padrões estranhos no Facebook. Desde muitos perfis falsos, até os movimentos que estavam acontecendo no Brasil, com aquelas manifestações do Passe Livre, em São Paulo.”
Militante desde os 16 anos na luta pela redemocratização, ela afirma que já conhecia “como funcionava um golpe”; por isso, ajudou a fundar um coletivo em Madrid e iniciou o “Stop the Coup in Brazil”, antes mesmo do impeachment. Anos depois, as revelações de Edward Snowden confirmaram o que ela já suspeitava: brasileiros comuns estavam sendo investigados nas redes sociais. “O golpe da Dilma foi isso, foi inteligência internacional, e nós descobrimos isso.”
Ela lembra que acompanhou a votação pela televisão. “Foi uma coisa absolutamente repugnante de ver, em especial Bolsonaro, que defendia um torturador, o Ustra. Hoje a gente vive outro processo, um Brasil mais democratizado, porém com muitos riscos de retrocesso”, pontua com preocupação.
“A democracia é sempre o lado certo da História”
De Paris, Bernadette Entratice considera que Dilma foi “esquecida pela própria esquerda”. Ela guarda na memória cada detalhe do dia 16 de abril de 2016, quando a presidenta desceu a rampa do Palácio da Alvorada após concluir seu último discurso afirmando que “a democracia é sempre o lado certo da História”.
“Dezenas de partidárias e partidários que a acompanharam na descida da rampa, distribuindo rosas vermelhas. Esse dia faz parte dos mais chocantes que eu já tive que viver”, relembra. “Aqui, da França, acompanhei, colada ao computador, do primeiro ao último minuto dessa farsa montada no circo monumental da assembleia misógina, obscurantista, alimentada pelo ódio contra uma mulher íntegra arrastada na lama, sem nenhum crime cometido”, analisa, indignada.
Bernadette diz que jamais esquecerá o quanto chorou, ao lado da filha, a dez mil quilômetros de distância. “Essa página da nossa história é muito violenta para ser esquecida. Tudo ficará para sempre gravado nas nossas memórias”, lamenta a ativista.
História de militância
Rene Ceya, de Madrid, viveu “praticamente em função da luta contra o golpe” durante o processo de impeachment. “Foram meses de trabalho incansável, dormindo muito pouco e dedicando grande parte dos meus dias à mobilização, principalmente pelas redes sociais”, lembra a ativista.
Ela fez parte da Brigada Herzog, articulando a mobilização dos brasileiros no exterior, e chegou a ir a Amsterdã, na Holanda, para um encontro internacional do coletivo Fibra. No dia da votação na Câmara, reuniu-se com outros militantes em Madrid para acompanhar tudo pela televisão. “Apesar de toda a tensão, ainda existia em nós a esperança de que o golpe não se consumaria”.
“Assistir àquela votação e perceber, voto após voto, o que estava acontecendo foi muito duro. Depois de tantos meses de mobilização, trabalho e esperança, veio uma sensação profunda de tristeza e impotência.” Para Rene, o golpe não é apenas um acontecimento político acompanhado à distância. “É uma parte da minha própria história de militância. Eu estava fora do Brasil, mas vivi aquela luta intensamente, todos os dias, como se estivesse lá”.
A resistência no exterior também se organizou em instâncias formais. Em julho de 2016, formou-se um júri no Tribunal Internacional pela Democracia – inspirado no Tribunal Russell, que, nos anos 1960, julgou os crimes dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. O julgamento concluiu, simbolicamente, que o Brasil vivia um golpe de Estado. Os nove jurados, vindos do México, da França, da Argentina, da Espanha, da Colômbia, da Costa Rica e dos Estados Unidos, declararam que o país sofria grave violação do processo democrático e da ordem constitucional, e que o impeachment feria a Convenção Americana sobre Direitos Humanos e o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos. A sentença foi encaminhada ao Senado e ao Supremo Tribunal Federal e entregue à Dilma no Palácio da Alvorada, encontro registrado no documentário “Alvorada”, de Anna Muylaert e Lô Politi, que vale muito conferir.
Dez anos depois, o sentimento que une essas brasileiras no exterior é o mesmo: a luta não terminou. “Mais do que um governo, a gente precisa de consciência social”, resume Elizabeth. “A história jamais esquecerá”, completa Bernadette.
Fernanda Otero é jornalista
