Pela primeira vez desde 1986, uma eleição para presidente da República em Portugal terá segunda volta — isto é, segundo turno, agendado para o dia 8 de fevereiro. Na corrida para o Palácio de Belém, António José Seguro, ex-secretário-geral do Partido Socialista, enfrentará o deputado André Ventura, líder do Chega, de extrema-direita. Com 99,79% das urnas apuradas, Seguro recolhe 31,11% dos votos, enquanto Ventura reúne 23,52% dos votos.

Todas as simulações de segundo turno entre os dois candidatos feitas até agora dão uma vantagem muito significativa para Seguro. As pesquisas também indicam forte rejeição a Ventura: sondagem da Universidade Católica divulgada no dia 14 de janeiro indicava que apenas 33% dos eleitores admitia votar no líder do Chega em eventual segundo turno; no caso do socialista, esse valor subia para 54%. Se esse cenário se mantiver, Seguro vencerá confortavelmente a eleição. No entanto, a extrema-direita vem em dinâmica de crescimento e com expectativa de superar os 35%. Isso reforçaria a posição política do Chega e produziria efeitos no sentido de influenciar a política e o Governo do país, como uma eventual revisão da Constituição feita apenas pela direita, que hoje possui a necessária maioria de 2/3 dos mandatos no Parlamento.

A hegemonia eleitoral conservadora conquistada nas Eleições Legislativas de 2024 se mantém na votação para presidente: as candidaturas ligadas aos Partidos de direita e centro-direita somaram 50,82% dos votos. Ou seja, Seguro, de perfil moderado e centrista, beneficiou do voto útil dos eleitores progressistas e de esquerda, o que encolheu a votação das restantes candidaturas do campo, mas também recebeu votos de alguns setores liberais e da centro-direita. Enquanto isso, Ventura se destaca em um cenário de divisão na direita, perante a queda das outras candidaturas, que foram envolvidas em polêmicas durante a campanha eleitoral, incluindo o candidato governista Luís Marques Mendes (PSD), que ficou reduzido a 11,30% dos votos — longe dos 31,79% obtidos pela coligação nas Legislativas antecipadas de 2025. No entanto, a votação de Ventura se mantém próxima do resultado alcançado pelo Chega nas últimas Legislativas, que foi de 22,76%. Ou seja, o extremista ainda não ampliou sua base eleitoral (o que poderá mudar ao longo da campanha do segundo turno).

E quanto aos apoios no âmbito das restantes correntes políticas para o segundo turno? Na noite eleitoral, Bloco de Esquerda, PCP e Livre orientaram o voto em António José Seguro em defesa da democracia— mas a soma das votações de seus candidatos (Catarina Martins, António Filipe e Jorge Pinto) não chegou sequer a 5% dos votos. O almirante Henrique Gouveia e Melo, candidato independente e centrista que recolheu o apoio de desafetos no PS e no PSD e que alcançou 12,32% dos votos, sugeriu que vai declarar apoio no sentido da moderação, ou seja, também deverá apoiar Seguro. No entanto, o primeiro-ministro Luís Montenegro (PSD) e seu candidato Marques Mendes anunciaram neutralidade no segundo turno, recusando se posicionar em defesa da democracia diante do risco de ascensão fascista — uma decisão vergonhosa, fazendo lembrar a conduta de Aécio Neves e Ciro Gomes no Brasil. João Cotrim de Figueiredo, o candidato do Partido Iniciativa Liberal, que alcançou 16% dos votos, tomou a mesma decisão pela neutralidade.

Isso significa que uma parte considerável do eleitorado, que votou em candidaturas de direita e centro-direita, está agora em disputa entre as duas candidaturas. André Ventura cobiça esse eleitorado, especialmente os que resistem ao estilo mais agressivo do Chega. Por isso, em seu discurso da noite eleitoral, ele definiu um confronto entre socialismo e não socialismo, responsabilizou o socialismo por “corrupção, destruição e morte” e se proclamou líder do campo do “não socialismo”. Seguro procurou quebrar essa lógica com um discurso de unidade, criticando os que querem dividir o país, afirmou que “não há portugueses de primeira e portugueses de segunda” e reposicionou o confronto entre democracia e extremismo. Sua campanha se colocará mais ao centro e fará um esforço adicional para agregar aqueles votos.

Sobre os ombros de António José Seguro recairá a tarefa de derrotar o líder fascista. Não sendo propriamente visto como uma figura consensual para a esquerda portuguesa, ele é professor e tem um perfil sério, experiente e previsível. Por isso, será um presidente ponderado. Vale lembrar que o presidente da República em Portugal não chefia o Governo, ou seja, não tem poder executivo. Mas possui diversas funções relevantes, tais como: nomear o primeiro-ministro de acordo com o resultado das Legislativas; promulgar e vetar leis; ponderar sobre a ação do Governo e exercer a “magistratura de influência”, mediando a ação dos agentes políticos; e também dissolver o Parlamento, o que confere à presidência um poder reforçado em situações de crise. Quanto a André Ventura, muitos poderão festejar sua derrota eleitoral no dia 8, devido à dureza do embate. Mas ele segue acumulando forças e sua passagem ao segundo turno contribui para seu maior objetivo — criar condições para uma vitória eleitoral em Legislativas.

Na conjuntura portuguesa atual, cada embate eleitoral com a extrema-direita é apenas mais uma batalha numa guerra infindável, porque as causas da ascensão fascista (desde os problemas no funcionamento do sistema capitalista em sua fase neoliberal até a crise europeia diante da reconfiguração do imperialismo estadunidense) seguem se agravando sob a superfície do debate político, conduzindo, de forma quase invisível, ao condicionamento bem visível da democracia e dos direitos sociais e dos trabalhadores. A neutralidade do primeiro-ministro e do PSD revela a dimensão do problema e confirma como a direita tradicional tem tendência a ceder quando ocorre uma ascensão fascista. O maior problema é que isso significa que a ascensão fascista já está em curso. Portugal corre o sério risco de cair novamente na “noite mais triste” de Manuel Alegre em seu mais célebre poema.

Em todo caso, e além disso, mesmo nessa noite sombria “Há sempre alguém que semeia / Canções no vento que passa… / Há sempre alguém que resiste / Há sempre alguém que diz não”. Por isso, no dia 8 de fevereiro, o voto de todos os que defendem a democracia em Portugal será no professor António José Seguro.

NOTA DE ATUALIZAÇÃO: O texto foi escrito no dia 19/01. Desde então, a neutralidade do PSD vem causando forte contestação em setores da centro-direita. Na sequência, diversas lideranças da direita tradicional declararam apoio a António José Seguro. O candidato Luís Marques Mendes (PSD) alterou a posição de neutralidade, que havia assumido na noite eleitoral, e também declarou que votará em Seguro.