O cenário político brasileiro contemporâneo é frequentemente descrito como um ambiente de extrema polarização, dominado por uma cisão irreconciliável entre os espectros da esquerda e da direita. Essa percepção, amplificada pelo debate público e pelas dinâmicas das redes sociais, sugere uma sociedade dividida ao meio. No entanto, a complexidade do eleitorado brasileiro pode não ser adequadamente capturada por essa visão dualista. A literatura acadêmica tem diferenciado a polarização ideológica, referente ao distanciamento de posições sobre políticas públicas, da polarização afetiva, que se manifesta como a aversão e a desconfiança em relação ao grupo político adversário (IYENGAR; WESTWOOD, 2015; DRUCKMAN; LEVENDUSKY, 2019).

Neste contexto, uma pesquisa aprofundada conduzida pelo instituto More in Common em parceria com a Quaest, e divulgada pela revista Veja (MATOS, 2025), oferece uma oportunidade única para desconstruir o mito da polarização generalizada. O estudo, intitulado “Os Invisíveis”, revela a existência de uma vasta “maioria silenciosa” (MAIORIA SILENCIOSA, 2023), correspondente a 54% do eleitorado, que não se identifica com os extremos e cujas preocupações e valores são largamente ignorados no debate político atual.

Este artigo tem como objetivo analisar detalhadamente os resultados dessa pesquisa, mapeando a estrutura real da polarização no Brasil. Primeiramente, apresentamos o referencial teórico sobre polarização e o conceito de maioria silenciosa. Em seguida, detalhamos a metodologia da pesquisa. A seção de resultados expõe a segmentação do eleitorado em seis grupos distintos, com ênfase no perfil sociodemográfico e nas atitudes dos “invisíveis”. Por fim, a seção de discussão e conclusões aprofunda as implicações estratégicas desses achados, com foco no desafio que representam para o Partido dos Trabalhadores (PT) e para a esquerda brasileira na reconexão com esse eleitorado decisivo.

A polarização política é um fenômeno multidimensional. A ciência política distingue, principalmente, dois tipos: a polarização ideológica e a polarização afetiva. A polarização ideológica refere-se ao distanciamento das posições políticas e das preferências por políticas públicas entre diferentes grupos, notadamente partidos e seus eleitores, em direção aos extremos do espectro ideológico (FIORINA; ABRAMS, 2008).

Por outro lado, a polarização afetiva diz respeito aos sentimentos e emoções que os cidadãos nutrem por seus adversários políticos. Ela se manifesta como uma tendência a sentir aversão, raiva e desconfiança por partidos e eleitores do campo oposto, enquanto se fortalece a identidade e a simpatia pelo próprio grupo (BLIUC et al., 2024; CAMPOS et al., 2023). Diversos estudos apontam que, em muitos contextos democráticos, o aumento da polarização afetiva tem sido mais pronunciado do que o da polarização ideológica, significando que as pessoas podem não estar tão distantes em suas preferências políticas, mas se antipatizam muito mais (BOXELL; GENTZKOW; SHAPIRO, 2020). Este fenômeno é exacerbado por dinâmicas de identidade social, onde a filiação partidária se torna uma identidade social primária, levando à hostilidade “outgroup” (TAJFEL; TURNER, 1979).

A Maioria Silenciosa

O conceito de “maioria silenciosa” foi popularizado na política americana, mas descreve um fenômeno mais amplo: a existência de um grande contingente de cidadãos que não participa ativamente do debate político, não expressa publicamente suas opiniões e se sente desrepresentado pelos extremos vocais que dominam a arena pública (MAIORIA SILENCIOSA, 2023). Essa maioria, muitas vezes, possui visões mais moderadas ou pragmáticas e se afasta do ativismo político por sentir que o ambiente é hostil ou “um campo minado” (MATOS, 2025).

Jean Baudrillard, em sua obra “À Sombra das Maiorias Silenciosas”, oferece uma visão mais radical, tratando-a não como uma massa passiva a ser mobilizada, mas como uma força que absorve e neutraliza o discurso político através de sua inércia e silêncio (BAUDRILLARD, 1983). Para a análise política estratégica, no entanto, essa maioria é frequentemente vista como um eleitorado flutuante e decisivo, cujo alinhamento pode determinar o resultado de eleições disputadas.

Este artigo baseia-se na análise de dados secundários provenientes da pesquisa quantitativa realizada pelo instituto More in Common em parceria com a Quaest, conforme detalhado no relatório “Os Invisíveis” (MORE IN COMMON; QUAEST, 2025) e na reportagem da revista Veja (MATOS, 2025).

A pesquisa foi conduzida presencialmente em todos os estados do Brasil, com uma amostra de 10.000 eleitores. Foi aplicado um questionário extenso, com cerca de 200 perguntas, que abordavam não apenas preferências eleitorais, mas também valores, comportamentos, posicionamentos sobre temas de “guerra cultural” (como costumes, religião, segurança pública e pautas identitárias) e percepções sobre a política e a sociedade.

A metodologia de segmentação utilizou técnicas de cluster analysis para agrupar os entrevistados com base em suas respostas, resultando na identificação de seis grupos distintos que compõem a sociedade brasileira. A análise apresentada neste artigo consiste na interpretação e na síntese dos dados divulgados, contextualizando-os com o referencial teórico e extraindo suas implicações estratégicas.

Resultados

A pesquisa revela uma paisagem política muito mais complexa do que a dicotomia esquerda-direita sugere. Os resultados são apresentados em duas seções: a segmentação do eleitorado e a caracterização detalhada dos grupos, com foco nos “invisíveis”.

A Segmentação do Eleitorado Brasileiro

O estudo identifica que a polarização intensa se restringe a 11% do eleitorado, divididos entre Progressistas Militantes (5%) e Patriotas Indignados (6%). A grande maioria da população se distribui por outros quatro grupos, com destaque para os 54% que compõem a maioria silenciosa, ou os “invisíveis”. A Tabela 1 resume a divisão completa.

Tabela 1: Segmentação do eleitorado brasileiro

SegmentoPercentual do EleitoradoAlinhamento Principal
Progressistas Militantes5%Esquerda Radical
Esquerda Tradicional14%Esquerda Moderada
Desengajados27%Invisíveis / Maioria Silenciosa
Cautelosos27%Invisíveis / Maioria Silenciosa
Conservadores Tradicionais21%Direita Moderada
Patriotas Indignados6%Direita Radical

Fonte: Pesquisa More in Common/Quaest (2025).

Caracterização dos Segmentos: A análise aprofundada do perfil de cada grupo revela contrastes socioeconômicos e de valores acentuados.

Os Polos: Progressistas Militantes e Patriotas Indignados

Os Progressistas Militantes (5%) constituem uma elite socioeconômica: são o grupo mais escolarizado (53% com ensino superior), mais rico (37% com renda > R$10 mil), mais branco (57%) e menos religioso (41% sem religião). Seu valor central é a justiça social, e seu engajamento político é altíssimo.

Os Patriotas Indignados (6%) também são escolarizados (23% com ensino superior) e altamente mobilizados. São o grupo com maior proporção de evangélicos (38%) e se informam primariamente por WhatsApp (58%) e YouTube (59%). Demonstram profunda desconfiança das instituições, como o Congresso (61%) e o STF (71%).

A Maioria Invisível: Desengajados e Cautelosos (54%)

Os “invisíveis” são o foco central da pesquisa e representam 88 milhões de eleitores. Embora agrupados sob o mesmo rótulo, os dois subgrupos possuem nuances importantes.

Perfil Sociodemográfico: O traço mais marcante é a condição socioeconômica. São os grupos mais pobres (55% a 65% com renda < R$5 mil) e menos escolarizados (apenas 6% a 11% com ensino superior). Um dado alarmante é que 12% de ambos os grupos relataram ter passado por insegurança alimentar. Em termos raciais, são majoritariamente negros(59% a 62%), em contraste com os polos, que são majoritariamente brancos. Religiosamente, são majoritariamente católicos (47% a 49%), com uma presença evangélica relevante (27%).

Comportamento Político: São definidos pelo distanciamento da política formal. Os Desengajados (27%) são os mais apáticos: 30% não votaram ou anularam o voto em 2022, e 65% não simpatizam com nenhum partido. Os Cautelosos (27%) possuem um engajamento intermediário, mas se destacam pela desconfiança das elites intelectuais e por identidades desalinhadas: 45% se dizem petistas, mas 40% se identificam como de direita.

Valores e Atitudes: Ambos os grupos se identificam majoritariamente como conservadores nos costumes (72% dos Desengajados e 81% dos Cautelosos). Suas preocupações são pragmáticas: segurança econômica, saúde e combate à pobreza. A Tabela 2 resume o posicionamento desses grupos em temas de “guerra cultural”, evidenciando a rejeição a pautas progressistas.

Tabela 2: Posicionamento dos “invisíveis” em pautas de guerra cultura

Tema / Afirmação% de Concordância (Invisíveis)
“Direitos humanos atrapalham o combate ao crime”50% (Desengajados), 69% (Cautelosos)
“Cotas raciais são uma forma de racismo”54% (Desengajados), 67% (Cautelosos)
“Travestis devem ter direito de usar banheiro feminino”30% (Desengajados), 11% (Cautelosos)
“Ideologia feminista é uma ameaça à família”31% (Desengajados), 54% (Cautelosos)

Fonte: Pesquisa More in Common/Quaest (2025).

Os dados mostram que, apesar de serem majoritariamente negros, a maioria dos invisíveis rejeita a política de cotas como é formulada. A rejeição a pautas de gênero e sexualidade é ainda mais expressiva. Ao mesmo tempo, esperam maior assistência do Estado, revelando um perfil que combina conservadorismo moral com progressismo econômico.

Discussão: Implicações Estratégicas para o Partido dos Trabalhadores (PT)

A pesquisa da More in Common/Quaest desconstrói a noção de um Brasil cindido ao meio, revelando uma “maioria silenciosa” de 88 milhões de eleitores cujos valores e preocupações não são representados pelos polos do debate político. Essa maioria é pragmática, conservadora nos costumes, e anseia por soluções concretas para problemas econômicos e sociais. Para o Partido dos Trabalhadores (PT), esses dados representam tanto um risco existencial quanto uma oportunidade histórica.

A Contradição Estratégica Fundamental

O cerne da questão para o PT reside em uma contradição fundamental: o perfil socioeconômico dos “invisíveis” (pobres, negros, com 12% relatando insegurança alimentar) alinha-se perfeitamente com a agenda histórica de políticas sociais do partido. No entanto, a comunicação e as prioridades temáticas do PT e de sua base militante mais vocal (os Progressistas Militantes) estão em profundo descompasso com os valores e preocupações dessa maioria.

Os Progressistas Militantes, que representam 5% do eleitorado, são uma elite socioeconômica (53% com ensino superior, 37% com renda > R$10 mil, 57% brancos) que vive uma realidade distinta da dos invisíveis. A agenda dessa elite, focada em pautas identitárias e em uma linguagem politizada, não apenas falha em ressoar com os 54% de invisíveis, como gera ativa rejeição, como demonstram os dados da Tabela 2.

“O que acontece hoje no Brasil é que uma minoria organizada consegue ter um impacto relevante porque há uma maioria dispersa.” – Pedro Bruzzi, Arquimedes (apud MATOS, 2025).

O risco para o PT é tornar-se um partido representativo apenas dessa elite progressista, perdendo sua conexão histórica com as massas trabalhadoras e pobres que agora compõem a maioria invisível.

Recomendações Estratégicas Detalhadas

Para reconectar-se com os 88 milhões de eleitores invisíveis, o PT precisa adotar uma abordagem multifacetada que vá além da sua prática política atual. As seguintes estratégias são propostas com base direta nos dados da pesquisa.

Despolarizar a Comunicação e Reposicionar Lula

Dado que os invisíveis evitam ativamente o confronto e 24% do eleitorado geral prefere um candidato “nem Lula, nem Bolsonaro” (GENIAL; QUAEST, 2025), a comunicação deve ser despolarizada. Isso implica reduzir ataques diretos a adversários e focar em uma mensagem propositiva e unificadora, posicionando suas lideranças, especialmente Lula, como estadistas acima da briga política, focados em resolver os problemas do país, e não em perpetuar uma guerra ideológica.

Priorizar a Agenda Econômica e Social (A Pauta que Une)

Com 12% dos invisíveis relatando insegurança alimentar, a prioridade comunicacional deve ser absoluta em temas de sobrevivência: combate à fome, geração de emprego, acesso à saúde e poder de compra. Políticas sociais devem ser comunicadas como gestão eficiente e pragmática, não como projeto ideológico. A mensagem deve ser simples e direta: “comida na mesa, trabalho no bolso, médico no posto”.

Abordar a Segurança Pública de Forma Integrada

Ignorar a preocupação com a segurança é um erro histórico da esquerda. Com 69% dos Cautelosos concordando que “direitos humanos atrapalham o combate ao crime”, o PT não pode se limitar a um discurso de direitos humanos. É preciso apresentar uma proposta crível que integre policiamento eficiente e repressão qualificada com políticas de prevenção social, mostrando com dados que a abordagem integrada é mais eficaz na redução da criminalidade.

Respeitar o Conservadorismo nos Costumes (A Pauta que Divide)

Os dados sobre a rejeição massiva a pautas identitárias (70-89% dos invisíveis contra direitos trans, por exemplo) são um sinal claro. O PT deve separar sua agenda econômica de uma agenda de costumes progressista. Isso não significa abandonar os direitos das minorias, mas sim deixar essas pautas em segundo plano na comunicação de massa, focando no que une a maioria dos brasileiros. A defesa de políticas sociais pode e deve ser feita usando valores tradicionais, como “trabalho”, “família” e “dignidade”.

Focar na Mobilização Territorial e no Combate à Abstenção

Os invisíveis não estão no debate político do Twitter. Com 30% dos Desengajados não tendo votado em 2022, há um potencial de 22 milhões de eleitores a serem mobilizados. Isso exige um retorno ao trabalho de base territorial: diálogo porta a porta, presença em comunidades pobres, e parcerias com lideranças locais e religiosas (especialmente católicas, que são 49% dos Cautelosos) que possuem a confiança desse eleitorado.

Segmentar Radicalmente a Comunicação

O partido enfrenta o paradoxo de precisar manter sua base militante engajada enquanto atrai um público que rejeita essa mesma militância. A solução é a segmentação: uma comunicação para as redes sociais, que mantém a identidade do partido para os já convertidos (os 11% polarizados), e outra completamente diferente para a mídia de massa (TV, rádio) e para o trabalho territorial, focada nos temas pragmáticos e na linguagem dos invisíveis (os 54%).

Construir Pontes com a Esquerda Tradicional

A pesquisa revela sinais de fadiga e desmobilização na Esquerda Tradicional (14%), com 23% de abstenção em 2022. É crucial que o PT dialogue com esse grupo, reconhecendo suas preocupações com a moralização da política e o clima de guerra, para evitar que também se tornem “invisíveis”.

Mensagens Centrais Sugeridas

Para implementar essas estratégias, a comunicação deve abandonar jargões e focar em mensagens que ressoem com o cotidiano dos invisíveis:

• Em vez de: “Luta de classes”, “Fora Bolsonaro”, “Democracia em risco”.

• Propor: “Trabalho, saúde e segurança para sua família”, “Governo que cuida de quem trabalha”, “Experiência que você conhece, futuro que você merece”.

5.4. Riscos Críticos a Evitar

• Não subestimar a rejeição às pautas identitárias: Insistir nesses temas na comunicação de massa é alienar 88 milhões de eleitores.

• Não confundir militância digital com apoio popular: As redes sociais representam os 11% polarizados, não os 54% invisíveis.

• Não abandonar a base, mas não ser refém dela: A segmentação da comunicação é chave para equilibrar os dois públicos.

A pesquisa da More in Common/Quaest oferece um mapa detalhado para qualquer força política que almeje construir uma maioria no Brasil. Para o Partido dos Trabalhadores, o caminho para a vitória em 2026 passa, inevitavelmente, pela reconexão com os 88 milhões de brasileiros que hoje se sentem invisíveis.

Isso exige uma transformação profunda, que vai da linguagem à escolha das pautas prioritárias. Significa despolarizar sem despolitizar: manter a defesa de políticas sociais robustas, mas comunicá-las de forma pragmática, respeitando os valores culturais da maioria da população e focando incansavelmente nos problemas concretos que afetam o seu dia a dia.

A eleição de 2026 não será vencida pela guerra cultural travada pelos 11% nos extremos do espectro político, mas pela capacidade de oferecer esperança e soluções tangíveis para a maioria silenciosa que, por enquanto, apenas observa.

Marcos Freitas Pereira é economista formado pela PUC-SP. É mestre pela Universidade de Alcalá, na Espanha, onde desenvolveu dissertação sobre valuation de empresas. Atualmente cursa doutorado na Universidad Internacional Iberoamericana, no México, com pesquisa voltada à multipropriedade imobiliária turística, a partir do estudo de caso da cidade de Olímpia (SP).