Sem timoneiro, passageiros da Barca do Inferno apelam aos astros

por | abr 11, 2017 | Sem categoria | 1 Comentário

Na medida em que a economia segue afundando, o medo e o desespero vão se espraiando entre as gentes que habitam nosso belo país. Tais circunstâncias, como há séculos ensinava Hobbes (1), constituem campo fértil para que os tubarões (ou lobos, na metáfora do filósofo) resolvam jantar os peixinhos. No pântano irrigado com marés de medo alcalino e ácidos ribeirões de desejo e ambição, os oportunistas e charlatães nadam de braçada.

Somente em um contexto hobbesiano como esse e ante a dissolução do Leviatã como a que está em curso no Brasil é possível compreender a espantosa notícia divulgada nesta quinta-feira (06) pela Folha de São Paulo, informando que investidores pagam – isso mesmo, eles pagam – um astrólogo que faz o mapa astral da economia.

Devemos conter as gargalhadas. A cena é de tragédia. Revela de forma cristalina como o ser humano, principalmente aquele que está às voltas com seus cobres, é incapaz de conviver com a “incerteza radical” que governa a vida da sociedade no regime capitalista. Keynes (2), aquele mesmo, que sonhava salvar o capitalismo dos capitalistas, colocou esse tema no meio do salão, mostrando que não há estatística, nem o mais sofisticado cálculo probabilístico que seja capaz de eliminar a incerteza do horizonte. Passou a vida escrevendo e falando para seus pares sobre a necessidade de o Estado coordenar as decisões de investimento, pois, sem isso, estaríamos condenados ao pântano e à cambada de bicho feio que nele prospera.

Infelizmente, parte dos brasileiros tem preferido se arriscar pelo pântano. Os bichos já estão se multiplicando e o astrólogo financeiro é apenas o mais tosco.

Link para a matéria da Folha de São Paulo: Leia aqui
1. HOBBES, Thomas. LEVIATÃ, ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil. São Paulo: Editora Martin Claret, 2002.
2. KEYNES, John M. A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda. São Paulo: Saraiva, 2012.