Partido Político com legitimidade tem de fazer congressos nacionais de militantes, de tempos em
tempos, para discutir e atualizar suas proposições substanciais e suas táticas face à conjuntura, mas também
para rever seu ideário de base diante de alterações de circunstâncias ocorridas em prazo mais longo. E o PT,
efetivamente, é um partido exemplar no cumprimento dessa obrigação, distanciando-se bem dos demais que

Partido Político com legitimidade tem de fazer congressos nacionais de militantes, de tempos em
tempos, para discutir e atualizar suas proposições substanciais e suas táticas face à conjuntura, mas também
para rever seu ideário de base diante de alterações de circunstâncias ocorridas em prazo mais longo. E o PT,
efetivamente, é um partido exemplar no cumprimento dessa obrigação, distanciando-se bem dos demais que
atuam no Brasil, assim como no processo de escolha de seus dirigentes, que é feita por eleição direta entre
todos os militantes, apesar das queixas apresentadas sobre práticas de manipulação de votos que têm
ocorrido nessas eleições internas.

Neste mês de fevereiro último, o PT realizou seu quarto congresso nacional, ao completar 30 anos de
existência, dando posse ao novo Diretório, lançando sua candidata à Presidência da República, e discutindo e
aprovando teses programáticas bastante substanciais para dar ensejo a polêmicas de repercussão nacional
largamente refletidas na imprensa . É o que se espera de um partido político responsável e amadurecido, que
cumpre a missão relevante de emprestar seus esforços para a mobilização do interesse do povo e a elevação
da cultura política do País.

Na polêmica que se seguiu, verificou-se uma vez mais a fraqueza ideológica dos partidos de oposição
que, na falta de teses confronto, vêm se apegando exclusivamente a acusações, ao Governo e ao PT, no
campo da eficiência e da moralidade. A grande oposição ideológica ao PT, claramente, não está nos outros
partidos mas na mídia, na orientação do seu noticiário e dos seus editoriais, e no conteúdo dos seus colunistas
e articulistas conservadores, que defendem sempre o liberalismo econômico e seus interesses.

E, como se trata de um verdadeiro confronto ideológico, esta oposição midiática concentra o fogo de
ataque nas teses do PT que valorizam o Estado, que pedem mais iniciativa e ação estatal para o avanço do
processo do novo desenvolvimento, marcado pelas exigências da distribuição mais justa da riqueza.
Obviamente, maior presença do Estado acarreta elevação do gasto público, permanente alvo das críticas
Mas é óbvio, também, que a contundência da censura e do desapreço que recaem sobre as teses
aprovadas pelo PT vai além da demonização do Estado e visa, enfaticamente, a duas dessas teses que
incomodam particularmente os donos dessa mídia: a que os atinge mais frontalmente, que é o combate ao
monopólio dos meios eletrônicos de informação, cultura e entretenimento; e a que recai indiretamente sobre
diretores e donos dessas empresas, assim como dos executivos dos grupos empresariais que são os
principais financiadores da mídia, que é a do imposto sobre grandes fortunas. Este, aliás, um projeto típico da
social-democracia européia, que teve vigência ampla no auge do prestígio dessa corrente política no século
passado, e cujo projeto em tramitação no Congresso Nacional é de autoria do principal líder político da
oposição, o ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso.

As demais teses, não obstante sua importância sob o ponto de vista de conteúdo, já haviam sido muito
comentadas na imprensa e ficaram de certa forma relegadas a um segundo plano, como é o caso da cobrança
da aceleração da reforma agrária, e daquela relativa ao Programa dos Direitos Humanos, especialmente no
ponto que enfatiza o apoio à criação da Comissão Nacional da Verdade, que já abordei aqui neste Correio.

 

Saturnino Braga, ex-senador (PT-RJ),membro do Conselho Curador da fundação Perseu Abramo e autor
do livro O curso das ideias -A história do pensamento político no Brasil e no mundo, da EFPA.