por Beatriz Tibiriçá (Beá)*

por Beatriz Tibiriçá (Beá)*

Havia sido uma semana agitada, muitas manifestações, tentativas frustradas de realizar o III ENE, alunos, famílias, amigos, outros setores, todos em estado de alerta e em pé de guerra. Eu fazia parte da Comissão de Segurança e meu nome completo, e ponha nome nisso, já havia sido publicado numa matéria de capa do Estadão da véspera do “dia D”. Mas, mesmo assim, eu ainda não tinha sido presa naquela semana atribulada e era a menos visada da diretoria do DCE Livre da USP “Alexandre Vannucchi Leme”.

Na manhã do malfadado dia fizemos uma Assembléia na PUC. Assembléia tensa e difícil. Somente alguns poucos sabiam que era uma assembléia de fachada, para proteger o encontro clandestino que ocorria em alguma sala da PUC, lotada de delegados de outros estados, os mais “queridos” pela repressão. Os poucos que sabiam do que acontecia avaliavam que qualquer excesso seria uma provocação notável, mas, não podíamos tornar isso claro para todos os que participavam da Assembléia. Neste clima e nesta situação surreal, a Libelu (Liberdade e Luta) aprovou, por ampla maioria, a realização, à noite, de um Ato Público na PUC, para comemorarmos nossas vitórias.
Sabíamos do risco que estávamos correndo. A Comissão de Segurança decidiu que nenhum delegado de outro estado deveria comparecer ao Ato da noite. Passamos a tarde confabulando como enfrentar esse novo desafio, entre a alegria de ter realizado o III ENE e o temor pelo que estava por vir. Poucos da Diretoria do DCE Livre da USP poderiam estar à noite, tinham que ser preservados. Saí para ir para a PUC da casa dos Abramos. No carro, comigo, a Helena Abramo, caloura das Ciências Sociais. Dona Zilah ainda pediu: “Tome conta da Lena”!

Chegando na PUC, uma sensação de que tudo estava estranho tomou conta de mim. Era uma calmaria densa, daquelas que precedem um forte temporal. Logo de chegada, tivemos um bate-boca com um pessoal da Convergência de Brasília que não havia aceitado as recomendações da Comissão de Segurança.

Fomos para a frente do TUCA (Teatro da Universidade Católica), local do Ato. O Hugo Lenzi coordenava a mesa pela Refazendo. O Ato ia rolando, eufórico, até que o temporal despencou: não dava para visualizar direito o que acontecia, em questão de segundos era fumaça para todo lado, estava montada uma praça de guerra. Eu agarrei a Lena e junto com mais um grupo grande, sabe Deus como, nos alojamos dentro do teatro. Como eu tinha prometido para Dona Zilah, tomei tanta conta da Lena que ela acabou sendo presa junto comigo.

O fato de estarmos no teatro só retardou um pouco a nossa prisão. Fomos os últimos a chegar ao estacionamento onde agrupavam os estudantes para colocar nos ônibus que nos levaria presos.

Os alunos de Ciências Sociais da USP estava em peso naquele estacionamento. Fomos de ônibus para o batalhão Tobias de Aguiar. Parecia longe, muito longe. O ônibus dava voltas para nos enganar e para evitar que fôssemos vistos. Chegando lá, fomos separados, meninos ao relento, num cercadinho, ao lado de um cercadinho onde ficavam os “meganhas” que aguardavam ordem de ir para a rua pegar estudantes. Eles eram tratados com a mesma truculência que os estudantes. Numa área coberta, as meninas. Éramos muitos, muitos mesmos. Todos tinham que responder a um questionário padrão. Aos poucos, começaram a separar os que iam para o DOPS (Delegacia de Ordem Política e Social), na cidade. Lá fui eu. Junto estava o Plininho, calouro, filho do exilado Plínio de Arruda Sampaio, e mais alguns de diretorias de entidades, filhos de subversivos, “reincidentes” etc. Quando chegamos no DOPS, veio a tática da humilhação, fiquei um tempo considerável obrigada a fazer o quatro com as pernas, o que deixou o Plininho indignado. Depois desceram os que eram de entidades para uma salinha no que parecia ser o porão. Além de já termos visto alguns infiltrados, agora revelados, interrogando gente, estávamos indo para o famoso porão do DOPS, e ainda tivemos que ouvir que não sairíamos tão cedo. No porão, encostaram um jovem repressor com o discurso treinado: “Tá vendo, você aqui, nesta situação, e os líderes no bem bom, só se aproveitando da sua ingenuidade”…. Eu, na minha “ingenuidade”, bati
no peito e falei: “Mas eu sou liderança, sou do DCE Livre da USP”, com todo orgulho que nós tínhamos na época. Ponto para nós, o cara se desconcertou e foi embora. Iam nos levando aos poucos para tomar depoimento, abusavam do impagável teatro do repressor malvado e do repressor bonzinho, tentavam nos jogar uns contra os outros. Mas tomavam suas “invertidas”. A mais significativa para mim foi quando terminei meu depoimento, no qual reafirmei toda plataforma da Diretoria do DCE, e da Refazendo. Eles foram buscar na rua testemunhas para assinar e dar mais veracidade àquela parafernália. Subiu um senhor (digo isso com os olhos jovens da época, talvez tivesse uns 40 anos), aparentando ser uma espécie de caixeiro viajante, tinha uma maleta e olhos baixos. Ouviu atentamente todo o depoimento, as liberdades democráticas, contra o ensino pago, por melhores condições de vida e trabalho, toda plataforma explicada rapidamente. Quando acabaram de ler, ele perguntou: “Ela falou tudo isso?”. “Falou”, responderam. Ele perguntou para mim: “Você falou?”. Só pude confirmar com a cabeça. Ele levantou os olhos e disse: “Então, não assino!”. E não teve quem fizesse o cara assinar. Foi embora com sua maleta, deixando para trás meus interrogadores nervosos e eu, caladinha, mas, feliz e tranqüila.Tinha feito a coisa certa. Nunca soube quem era aquele senhor, mas… sempre que posso, lembro dele, quem dera um dia ele saiba o quanto foi importante sua atitude naquele dia de medo.

Mais algumas horas e um dos investigadores me pegou, me levou para a rua, me deu um dinheiro e parou um táxi. O motorista ficou assustado diante da visão daquela garota, meio desfigurada, sem saber direito o que estava acontecendo, com um pé descalço com uma meia verde de futebol, um joelho estourado, no outro pé um tênis novinho, lindo, de naylon azul celeste. Fui para casa com aquele motorista mudo, que nem conferiu o dinheiro que eu dei (eu também não conferi). Lá já tinha a querida Comissão de Mães para saber o que tinha acontecido. Minha mãe, atormentada, abriu um sorriso e me acolheu.

No dias seguintes, ainda voltei à PUC para ver se achava o outro pé do meu tênis novo, comprado com tanto sacrifício. Me deparei com uma pilha de roupas e sapatos, visão do inferno que tínhamos enfrentado. E não achei meu tênis, claro. Mais alguns dias e fui enquadrada na Lei de Segurança Nacional. Mas nada conseguia tirar o gosto de vitória que eu sentia!

*Beatriz Tibiriçá é assessora da Assembléia Legislativa de São Paulo. Na época, era estudante de Ciências Sociais e membro da primeira diretoria do DCE Livre da USP.